Segunda-feira, Outubro 29, 2007

VIEIRA E O BEST 500


O Público traz hoje um extenso dossier sobre o mercado internacional da arte. A parte mais interessante do trabalho tinha sido divulgada há vários dias, e diz respeito ao facto de haver um único artista português, o pintor Julião Sarmento, na lista dos 500 nomes melhor cotados. Nada disto admira. O ranking tem a ver com obras vendidas em leilão, e só por esse processo, de artistas nascidos a partir de 1945. Um dos artigos é de Vanessa Rato, que estranha a ausência de Pedro Cabrita Reis, Paula Rego e Maria Helena Vieira da Silva. Sucede que só o primeiro, nascido em 1956, cabe nos parâmetros do ranking. Paula Rego, uma artista britânica para todos os efeitos (os legais incluídos), nasceu em 1938. E Vieira da Silva, uma artista francesa idem (idem), nasceu em 1908. Julião Sarmento (n. 1948), único português que surge no Best 500 da ArtPrice, aparece na 215.ª posição, ou seja, na primeira metade. Se o ranking incluísse vendas em circuito de galeria, provavelmente estaria melhor colocado. O dossier tem muita informação, e a parte assinada por Vanessa Rato traduz com fidelidade o tipo de perplexidade que o mito Vieira da Silva gerou no jornalismo cultural. Salvo para efeito de propaganda doméstica, é que Vieira da Silva pode ser vista como artista de reputação planetária. O exílio, a birra com Salazar, o casamento com Arpad Szenes, o atelier de Paris, a casa de Yèvre le Chatel, o inner circle, a relação privilegiada que manteve com poetas (Cesariny, Sophia, Alberto de Lacerda), o livro que Agustina publicou em 1982, Longos dias têm cem anos, a amizade com Mário Soares, o respaldo institucional, a colecção Brito (um presidente do Benfica...), o museu do jardim das Amoreiras, tudo contribuiu para o sucesso de estima e, por extensão, para a construção do mito. Infelizmente, basta entrar num grande museu da Europa ou dos Estados Unidos, ou numa livraria de arte (as online incluídas), para ter a noção da inocuidade da propaganda indígena. Exilados em França por exilados em França, mais depressa e mais justamente Pomar e Jorge Martins entrariam num ranking internacional deste tipo. Ao alto vê-se Combat, obra de 1951.

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