ENTRE A FONTANA E O PANTEÃO
Quem nunca foi a Roma, não tem a noção do cochicho em que está metida a Fontana di Trevi. E como, a juntar à estreiteza do lugar, os basbaques a tempo inteiro são às centenas, fotografando ou deglutindo triângulos de pizza, o local torna-se infrequentável. Percebo o fascínio: a espectacular cenografia em pedra criada em 1762 por Nicola Salvi, bem como a lembrança de La Dolce Vita (1960) de Fellini, com Anita Ekberg mergulhada na fonte, numa época em que a sugestão de nudez era decisiva, são argumentos sólidos. Mas continua a ser para mim um mistério como é que os romanos convivem todo o ano com estas hordas de forasteiros. [Não por acaso, Veneza vai dispor, a partir de 16 de Janeiro do próximo ano, de uma linha de vaporetto, no Canal Grande, exclusiva para residentes.] O comércio da zona é chinfrim, mas para quem gosta de andar a pé há muito para admirar nas lojas da Via Borgognona e da Via dei Condotti (a minha preferida), que ficam a escassos minutos de distância. As multidões parecem possuídas de frenesi compulsório, e então ao sábado à tarde dir-se-ia que o mundo inteiro ali desabou para ver quem transporta mais sacos. Turistas de bermudas e chinelos ficam muito admirados por lhes ser vedada a entrada nas lojas mais exclusivas, como vi acontecer na Ferragamo da Via dei Condotti e na Chanel da Via del Babuino (os porteiros são inflexíveis). Curiosamente, nas griffes populares, como Benetton, Gant, Guess, Zara, etc., ou nas linhas casual de outras menos populares, como Armani, Boss, Fendi, MaxMara, Prada, Zegna, etc., os preços são tendencialmente inferiores aos praticados em Lisboa e no Porto. Dito de outro modo, a classe média portuguesa gasta mais em trapos do que a italiana. Não teria tido esta perspectiva se não tivesse acompanhado uma amiga num exaustivo tour de compras, entrecortado por momentos de repouso no Caffè Greco e no Babington’s. O Grecco, na Via dei Condotti, é provavelmente o mais antigo da cidade. Foi fundado em 1760, tendo tido como habitués criaturas tão diferentes como Casanova, Wagner, Byron, Goethe, Keats, Bizet ou Luís II da Baviera. Os preços estão em conformidade com este historial. Visita-se como um museu, porque as paredes estão forradas de quadros, retratos, manuscritos e autógrafos. É o que fazem os japoneses aos magotes. A pastelaria é excelente e, para quem gosta, pode-se beber café no balcão da entrada. Muito perto, na Piazza di Spagna, fica o Babington’s, fundado em 1896 por duas inglesas. O espírito da casa mantém-se: além do tradicional chá com scones, serve pequenos-almoços ingleses e refeições ligeiras ao almoço. Tem outro clima, outro tipo de clientela e melhor serviço que o Grecco. Os preços são equivalentes. Um óptimo refúgio para as tardes muito quentes (como foram as da semana passada, mesmo com aguaceiros), e para esquecer a matulagem que entope a Scalinata. Na Piazza di Spagna há metro, mas a estação mais próxima fica em Flaminia, no coração da Villa Borghese, o que significa que não vale a pena pensar em tal transporte no centro da cidade. Se quiser dar um passeio em carroça puxada por cavalos, pergunte o preço a vários cocheiros: pelo mesmo trajecto (uma enorme volta que nos ia roubar tempo) foi-nos sucessivamente proposto 150, 100 e 80 euros, o que dá a medida da mentalidade indígena. Fomos de táxi: 4 euros. O destino era a Piazza della Rotonda, para ver o Panteão. É lá que Rafael jaz. Mas o que de facto impressiona é a cúpula e o óculo no seu centro, a cerca de 44 metros do chão. Multidões procuram as bancas com resmas de Angels and Demons (2000) de Dan Brown em todas as línguas, excepto a portuguesa. Nós preferimos ir comer um gelado ao Caffè Giolitti, na Via degli Uffici del Vicario (cinco minutos a partir da entrada do Panteão). Por um fim de tarde, a Belle Époque em todo o seu esplendor.
Etiquetas: Roma

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