AQUILINO NO PANTEÃO

À hora a que escrevo, já Aquilino Ribeiro (1885-1963) deve estar no Panteão. O tipo de coisa que não mereceria um comentário não fosse o alarido que por aí vai. O Público ouviu historiadores e escritores. E também um professor de filosofia política, Mendo Castro Henriques, que foi ao ponto de dizer que Aquilino não pode ir para o Panteão porque «participou na organização do atentado contra D. Carlos e o príncipe real», o que faz dele «um terrorista que atentou contra o Estado de direito». A simples ideia de um Estado de direito no Portugal de 1908 é uma curiosa extravagância. O assunto ganharia em ser visto ao contrário: se ficar provada a tese da participação no regicídio (como Mendo Castro Henriques pretende demonstrar num livro a publicar ainda este ano), a homenagem fará todo o sentido. Afinal, Aquilino teria contribuído para o derrube da monarquia. Para Rui Ramos, a tese de Mendo Castro Henriques não tem sustentação: «É uma opinião, não baseada em factos. [...] No regicídio, a 1 de Fevereiro de 1908, [Aquilino] está escondido em Lisboa. [...] Diz que ainda falou com Alfredo Costa nesse dia e que ele não lhe disse o que ia fazer. É o que sabemos. Não há outras provas. [Esta acusação] não acrescenta um ponto, acrescenta um conto.» Vasco Pulido Valente também acha que Aquilino não devia ir para o Panteão, mas por outra razão «É um escritor medíocre.» Quanto à tese do regicida, afirma: «Não há provas de que tenha participado no regicídio. E ter fabricado bombas ou estar com grupos bombistas não é indicativo, tanto mais que o regicídio não foi à bomba.» Portanto, em matéria de História, estamos conversados. Do lado da literatura, vemos que Urbano Tavares Rodrigues tem opinião contrária à de Vasco Pulido Valente: [Aquilino] «Foi o maior romancista do século XX português, e um dos maiores da Europa.» Por seu turno, Mário Cláudio lamenta (e bem) que «os seus livros não se encontram nas livrarias». De facto, nada justifica a ausência de reedições, não digo dos setenta livros que publicou em vida, mas daquela meia dúzia que a tradição literária fixou. Quem é que hoje, com menos de 50 anos, lê ou sequer conhece Aquilino? Mário Cláudio lamenta ainda a ausência de traduções, notando que a prosa dura do autor não é desculpa que se dê: «É uma desculpa tola. Haverá alguém mais difícil de traduzir do que Joyce? E ele está traduzido em todo o mundo...» Eu diria que é um argumento naïf...
Etiquetas: Literatura, Política nacional, Sociedade

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