Sexta-feira, Agosto 31, 2007

FERNANDA CÂNCIO


Hoje no Público:


Um verso, ou uma sua fracção, pode dar um bom título? Pode. Infelizmente não é o caso. Não quero ser desmancha-prazeres, mas não gosto do título que Fernanda Câncio (n. 1964) escolheu para a colectânea de reportagens que acaba de publicar: Até Não Perceber. 15 histórias de verdade a caminho da ficção. A colectânea é muito boa, o título não. Até não perceber pertence a um verso de Jorge de Sena, e só não foi título de um trabalho a seu respeito porque Miguel Sousa Tavares, então director da Grande Reportagem, o vetou. Passou-se isto em 1997, e o relato do episódio abre a nota indrodutória do volume. A autora, grande repórter do Diário de Notícias, publicou antes deste outros dois livros, Olhem Para Mim (2003) e Cidades Sem Nome (2004), estando representada em antologias de Alexandre Melo e José Vegar. Como verifica qualquer leitor de jornais, o género reportagem atravessa uma fase menos boa (efeitos colaterais da economia, presumo), e esta formulação é uma forma amável de pôr a questão, circunstância que nos leva a sublinhar a indiscutível qualidade do trabalho de Fernanda Câncio. Causas, diz ela. Seja. Facto é que a presente compilação permite a releitura de textos que fizeram a agenda do seu tempo. Sirvam de exemplo, entre outros, Os paneleiros hadem morrer todos, sobre a deriva proto-fascista de um gangue de Viseu; ou Geração e quê, sobre a impropriamente denominada geração rasca. Outros podiam ser citados. Une-os a fibra do comprometimento, em tudo contrária à lengalenga mole de grande parte do jornalismo “amanuense”. Se não forem, como são muitas vezes, meras estratégias curriculares, as compilações cumprem a importante função de recuperar o passado. Mesmo um leitor omnívoro como eu, dotado de razoável memória, esquecera já o linchamento do Carregado. Lembram-se? Tudo se passou na «manhã de 24 de Janeiro de 1995, na Rua Dinis Dias da Urbanização da Barrada, no Carregado», e o que aconteceu foi que Licínio Saraiva, um negro de 22 anos, toxicodependente, enfiou a traseira de uma «carrinha Toyota Hiace, com claros intuitos desonestos [...] na montra da loja de electrodomésticos de José Maria Gonçalves Rapagão», provocando alvoroço e tranquibérnia, com pancadaria entre o grupo de quatro assaltantes, os moradores e um agente da PSP de pistola em punho. Três dos assaltantes fugiram, ficou Licínio, que terá sido agredido «a soco e pontapé, sem que o polícia, apesar de polícia e de estar armado, o conseguisse evitar e só parando quando Licínio já não dava acordo de si.» Quando a GNR chega, Licínio está «deitado no passeio e de pés amarrados por um cinto.» Um excerto da autópsia refere: «A morte de Licínio Saraiva foi provavelmente devida a asfixia mecânica por estrangulamento antebraquial». Ninguém foi identificado. O processo foi arquivado. As compilações ajudam a desenterrar o passado. Mas nem tudo é racismo. Agora veja, sobre os homens e mulheres «de olhos apagados» que vão à sopa dos pobres da Almirante Reis; ou Licença para matar, à volta das mortes causadas por polícias; ou ainda as sequelas da invasão do Iraque, ilustradas de forma eloquente em Não, tu não viste nada em Bagdad, têm todas o seu enfoque particular. O que distingue a escrita da autora, servindo de denominador comum destes quinze textos (dois são entrevistas), é o nervo de uma escrita que ainda não desistiu.


Causas, diz ela / in Ípsilon, 31-8-2007, pp. 53-54. Quatro estrelas.

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