CEM DIAS

Tenho evitado escrever sobre o desaparecimento de Madeleine McCann, a criança inglesa com coloboma na íris do olho direito. A dor dos pais merece-nos essa reserva. Agora que passaram 100 dias, e a novela mediática (em grande parte alimentada pelos próprios pais) atinge proporções de náusea, dando azo a excursões de camionetas de Valença do Minho à Praia da Luz, a troco de um pacote de morbidez, três comentários. Primeiro: as pinças com que o caso tem sido tratado, diz tudo da subserviência dos indígenas face aos súbditos de Sua Majestade. Convém não esquecer que o primeiro porta-voz dos MacCann é hoje assessor de imprensa do actual primeiro-ministro britânico. Segundo: o caso MacCann podia ajudar a reflectir sobre o que se passou no ano passado com a Joana, a criança portuguesa dada como morta, cujo corpo nunca foi encontrado. Os seus putativos assassinos (a mãe e o padrasto) foram condenados a vinte anos de cadeia, num julgamento decidido em 72 horas. Precisamente: três dias. Lembram-se? Não vale a pena comentar as acusações de violência policial. A leviandade do julgamento tem outra gravidade. Também não vou comentar a diferença de tratamento, por parte da polícia e dos media, entre o caso de Joana e o de Madeleine. Já outros o fizeram com pertinência. Terceiro: hoje, o Público insurge-se contra o facto de «a Polícia Judiciária [estar] longe de esclarecer o que aconteceu à criança inglesa». Esclarecer? Não sabia que a bruxaria fazia parte das competências da polícia. E lá voltamos nós ao «caso Joana»: acaso a PJ esclareceu o que aconteceu à criança portuguesa? Deus nos livre de tais conclusões!
Etiquetas: Caso Maddie, Justiça, Sociedade

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