Diversidade e pensamento

Estreia amanhã, para convidados, o musical requentado com que Filipe La Féria se apresta para tomar conta do Rivoli, apesar das providências cautelares que contestam a decisão de concessionar o equipamento municipal e o processo como tudo decorreu. O executivo liderado por Rui Rio encontrou, no convite para que o encenador apresentasse um espectáculo, como eles dizem, capaz de «dinamizar a Baixa portuense», uma estratégia para contornar os impedimentos legais. Enquanto nada se resolve, La Féria já está de armas e bagagens no Teatro Municipal do Porto, promovendo alterações de raiz ao grande auditório (suprimindo, por exemplo, os painéis acústicos, cuja colocação tanta polémica causou há anos e cujo desaparecimento, agora, parece passar despercebido), registando mesmo o edifício da Praça D. João I como a sede da empresa Todos no Palco (a tal que foi constituída para gerir o Rivoli, mas cuja actividade deveria estar dependente de decisão judicial). Bem informados andaram os seus membros quando localizaram a primeira sede na Rua de Trás: é que se trata de uma verdadeira entrada pela porta dos fundos, para apanhar quase toda a gente distraída. Nem toda, felizmente.
O que significa entregar a concessão do Rivoli a essa empresa? Para começar, representa uma abdicação da Câmara Municipal das suas responsabilidades de âmbito cultural. É um fracasso, que pode ser explicado em termos de vocação, como já ouvi, por se entender que não cabe ao executivo local a elaboração dessas actividades. Caber‑lhe‑ia, no entanto, garantir a diversidade da programação pela qual uma entidade mais ou menos privada viesse a responsabilizar‑se, porque entregar tudo à lógica das salas cheias, que comanda as decisões dos privados, representa um inevitável afunilamento das escolhas, até ao momento em que a palavra alternativa já nem faça sentido. A nível nacional, foi o que se verificou, por exemplo, quando Agustina Bessa‑Luís foi directora do D. Maria II. A importância da diversidade na oferta cultural pode ser comparada à relevância da diversidade biológica, porque só assim conseguem as espécies sobreviver. Proceder no sentido de reduzir essa diversidade, como tem feito o executivo camarário de Rui Rio, apenas se justifica pela ignorância ou pelo propósito mais ou menos dissimulado de pretender que os cidadãos encontrem menos incentivos à reflexão, ao exercício do pensamento crítico, e, desse modo, adquiram cada vez mais o estatuto de elementos moldáveis. Em qual destas hipóteses se enquadrará a actual Câmara do Porto?

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