HELDER MOURA PEREIRA

Hoje no Público:
Entre poetas portugueses com obra extensa, Helder Moura Pereira (n. 1949) mantém uma exemplar regularidade. São vinte e cinco as colectâneas de poesia que publicou nos últimos trinta anos, e não estou a contar com o Cartucho (1976) nem com o volume de poesia reunida dado à estampa em 1990. A uma obra deste fôlego podiam corresponder várias fases, mas não é isso que se verifica. Sendo legíveis discursos de sinal contrário, sinalizamos apenas dois modos distintos. Até ao fim dos anos 1990, o tom de enunciação neutra de alguém que deliberadamente tivesse abdicado de ímpeto declarativo (com consequente rasura do lirismo). A partir daí, investimento claro no biografismo transgressor. Se considerarmos, como Harold Bloom considera, que «os poetas fortes fazem a história lendo-se mal uns aos outros», compreendemos que Helder Moura Pereira tenha feito a sua ‘Kenosis’ (o seu movimento de descontinuidade) contra os poetas ingleses dos anos 1950, Larkin em particular. Foram esses que escolheu como predecessores naturais, foi contra esses que escreveu os últimos livros. Segredos do Reino Animal é o resultado de uma lenta desobstrução. Como demonstrado em colectâneas recentes, e de forma eloquente em Mútuo Consentimento (2005), continua de regra o desamparo existencial: «Que linha frágil tornou regular o abuso / do silêncio? Que uso deste a quem, lobo / de si próprio, escondeu a lua atrás / de um pinheiro? Dormias e ao dormires em mim / renasciam os mesmos desejos antigos.» Nenhuma ambiguidade belisca este peculiar Reino Animal. Calibrado entre estados de euforia e disforia, o eco tenso dos versos surge nos interstícios da biografia. Contrariamente a outros (penso sobretudo no ensaísta brasileiro Edgard Pereira) que têm lido a obra de Helder Moura Pereira em clave homossexual, tenho para mim que a passagem dos anos tornou explícita a deriva queer que os títulos mais antigos deixavam intuir. Sem prejuízo da construção identitária que toda a obra pressupõe, há hoje uma lineariedade desarmante: «Teu corpo de galgo dobrava-se assim, / quieto e terno [...] golpeado / e mesmo assim atento [...] Temos palha por todo o corpo, estava um dia / muito quente e a palha colava-se ao corpo. / Guardaste as centopeias numa caixa / e o lagarto ias dá-lo a um gajo do Sporting. / Só não me deste a mão porque podiam / ver-nos e a sociedade ainda não estava preparada.» Maior surpresa provoca o facto de encontrarmos envios a Whitman. O imprevisto releva da natureza sedimentar que durante tanto tempo enformou esta poesia. Paulatinamente, isso mudou: «Mais tarde, chupando / os seus ossos e limpando a boca / às ervas, conversávamos em silêncio. [...] Companheiro, queres vir outra vez / domingo?» Uma tal mudança traduz a recentragem entretanto operada. Nesse sentido, não deixa de ser irónico que a mudança subverta o lugar-comum que fazia do autor um poeta por excelência do quotidiano. Aqui, o recorte elegíaco convive mal com a crítica social: «Não encontro um sítio / para tomar café sem televisão [...] Volto para casa, faço café / em casa, qualquer dia não saio de casa.» Porém, o seu carácter residual não desequilibra o conjunto. Segredos do Reino Animal, um longo poema seccionado em sete sequências, reitera a singularidade de uma voz isolada.
Euforia e disforia do reino animal, in Ípsilon, 13-4-2007, p. 50. Quatro estrelas.
Entre poetas portugueses com obra extensa, Helder Moura Pereira (n. 1949) mantém uma exemplar regularidade. São vinte e cinco as colectâneas de poesia que publicou nos últimos trinta anos, e não estou a contar com o Cartucho (1976) nem com o volume de poesia reunida dado à estampa em 1990. A uma obra deste fôlego podiam corresponder várias fases, mas não é isso que se verifica. Sendo legíveis discursos de sinal contrário, sinalizamos apenas dois modos distintos. Até ao fim dos anos 1990, o tom de enunciação neutra de alguém que deliberadamente tivesse abdicado de ímpeto declarativo (com consequente rasura do lirismo). A partir daí, investimento claro no biografismo transgressor. Se considerarmos, como Harold Bloom considera, que «os poetas fortes fazem a história lendo-se mal uns aos outros», compreendemos que Helder Moura Pereira tenha feito a sua ‘Kenosis’ (o seu movimento de descontinuidade) contra os poetas ingleses dos anos 1950, Larkin em particular. Foram esses que escolheu como predecessores naturais, foi contra esses que escreveu os últimos livros. Segredos do Reino Animal é o resultado de uma lenta desobstrução. Como demonstrado em colectâneas recentes, e de forma eloquente em Mútuo Consentimento (2005), continua de regra o desamparo existencial: «Que linha frágil tornou regular o abuso / do silêncio? Que uso deste a quem, lobo / de si próprio, escondeu a lua atrás / de um pinheiro? Dormias e ao dormires em mim / renasciam os mesmos desejos antigos.» Nenhuma ambiguidade belisca este peculiar Reino Animal. Calibrado entre estados de euforia e disforia, o eco tenso dos versos surge nos interstícios da biografia. Contrariamente a outros (penso sobretudo no ensaísta brasileiro Edgard Pereira) que têm lido a obra de Helder Moura Pereira em clave homossexual, tenho para mim que a passagem dos anos tornou explícita a deriva queer que os títulos mais antigos deixavam intuir. Sem prejuízo da construção identitária que toda a obra pressupõe, há hoje uma lineariedade desarmante: «Teu corpo de galgo dobrava-se assim, / quieto e terno [...] golpeado / e mesmo assim atento [...] Temos palha por todo o corpo, estava um dia / muito quente e a palha colava-se ao corpo. / Guardaste as centopeias numa caixa / e o lagarto ias dá-lo a um gajo do Sporting. / Só não me deste a mão porque podiam / ver-nos e a sociedade ainda não estava preparada.» Maior surpresa provoca o facto de encontrarmos envios a Whitman. O imprevisto releva da natureza sedimentar que durante tanto tempo enformou esta poesia. Paulatinamente, isso mudou: «Mais tarde, chupando / os seus ossos e limpando a boca / às ervas, conversávamos em silêncio. [...] Companheiro, queres vir outra vez / domingo?» Uma tal mudança traduz a recentragem entretanto operada. Nesse sentido, não deixa de ser irónico que a mudança subverta o lugar-comum que fazia do autor um poeta por excelência do quotidiano. Aqui, o recorte elegíaco convive mal com a crítica social: «Não encontro um sítio / para tomar café sem televisão [...] Volto para casa, faço café / em casa, qualquer dia não saio de casa.» Porém, o seu carácter residual não desequilibra o conjunto. Segredos do Reino Animal, um longo poema seccionado em sete sequências, reitera a singularidade de uma voz isolada.
Euforia e disforia do reino animal, in Ípsilon, 13-4-2007, p. 50. Quatro estrelas.
Etiquetas: Crítica literária

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