POLÉMICA

«Meu caro Eduardo,
A notícia que acaba de me dar, sobre a substituição do patrono Fernando Namora pela patrona Agustina Bessa-Luís, para o Prémio Literário que o Casino Estoril concede anualmente, enche-me de revolta e de vergonha. Tanta piroseira — a escritora encontra-se muito doente, o que muito nos aflige a todos, logo é preciso “desalojar” alguém para encontrar, para ela, um “nicho” adequado — acaba por me fazer ter vergonha de ser português e de ser escritor português. Voltaire pedia a Deus que tornasse ridículos os seus inimigos. Eu, se fosse crente, pediria a Deus que tornasse menos ridículos os meus compatriotas. Deus teria, é claro, um trabalhão com a proeza.
A coceira das mudanças e das “inovações” é um dos espectáculos grotescos da vida portuguesa. Os do Casino Estoril haviam escolhido, como patrono de um prémio literário, um grande escritor português. Não interessa que haja outros eventualmente maiores. Escolhido o patrono, não há razão de maior para, dez ou quinze anos depois, o desanicharem do poleiro para lá porem outro “melhor”. Os irmãos Goncourt não foram, nem por sombras, os maiores esritores franceses do século XIX, mas o prémio literário com o seu nome existe desde 1903 (há 104 anos); o Prémio Femina não mudou de nome desde 1904, nem o Théophreste Renaudot desde 1926; o Prémio Pulitzer chama-se assim desde 1917 e o Interallié desde 1930. O “Edgar” é um pequeno busto de Edgar Allan Poe, dado, anualmente — e há muitos anos — aos melhores escritores de histórias policiais pelos Mystery Writers of America. E ninguém ainda se lembrou de substituir o Edgar por um Conan Doyle ou por um Simenon, não menos famosos. A quem fizer muita impressão não ver o inglês de Baker Street ou o belga do Quai des Orphèvres no lugar do americano de Boston, resta uma solução simples: arranje maneira de comover um punhado de mecenas que patrocinem um galardão capaz de honrar o ícon escolhido. Nem é preciso “matar” Poe para honrar Doyle, como não é preciso “matar” Namora para venerar Bessa-Luís. O que é preciso, isso, sim, é ter um grande sentido do ridículo. E parece que este não abunda para os lados do Casino Estoril. Tanto que até congeminaram uma revista com o título de Egoísta, claramente macaqueado da célebre revista inglesa, The Egoist, fundada por Dora Marsden e Harriet Shaw Weaver, em 1914, e tendo cessado de existir, em 1919 (a diferença é que The Egoist teve, a assessorá-la, nomes como Aldington e T.S. Eliot e a Egoísta, do Estoril, é aquilo que se vê...). Haja pachorra, meu caro Eduardo!
Um abraço do amigo,
Eugénio Lisboa, que não é patrono de nenhum Prémio e por isso não teme ser desalojado.»
A notícia que acaba de me dar, sobre a substituição do patrono Fernando Namora pela patrona Agustina Bessa-Luís, para o Prémio Literário que o Casino Estoril concede anualmente, enche-me de revolta e de vergonha. Tanta piroseira — a escritora encontra-se muito doente, o que muito nos aflige a todos, logo é preciso “desalojar” alguém para encontrar, para ela, um “nicho” adequado — acaba por me fazer ter vergonha de ser português e de ser escritor português. Voltaire pedia a Deus que tornasse ridículos os seus inimigos. Eu, se fosse crente, pediria a Deus que tornasse menos ridículos os meus compatriotas. Deus teria, é claro, um trabalhão com a proeza.
A coceira das mudanças e das “inovações” é um dos espectáculos grotescos da vida portuguesa. Os do Casino Estoril haviam escolhido, como patrono de um prémio literário, um grande escritor português. Não interessa que haja outros eventualmente maiores. Escolhido o patrono, não há razão de maior para, dez ou quinze anos depois, o desanicharem do poleiro para lá porem outro “melhor”. Os irmãos Goncourt não foram, nem por sombras, os maiores esritores franceses do século XIX, mas o prémio literário com o seu nome existe desde 1903 (há 104 anos); o Prémio Femina não mudou de nome desde 1904, nem o Théophreste Renaudot desde 1926; o Prémio Pulitzer chama-se assim desde 1917 e o Interallié desde 1930. O “Edgar” é um pequeno busto de Edgar Allan Poe, dado, anualmente — e há muitos anos — aos melhores escritores de histórias policiais pelos Mystery Writers of America. E ninguém ainda se lembrou de substituir o Edgar por um Conan Doyle ou por um Simenon, não menos famosos. A quem fizer muita impressão não ver o inglês de Baker Street ou o belga do Quai des Orphèvres no lugar do americano de Boston, resta uma solução simples: arranje maneira de comover um punhado de mecenas que patrocinem um galardão capaz de honrar o ícon escolhido. Nem é preciso “matar” Poe para honrar Doyle, como não é preciso “matar” Namora para venerar Bessa-Luís. O que é preciso, isso, sim, é ter um grande sentido do ridículo. E parece que este não abunda para os lados do Casino Estoril. Tanto que até congeminaram uma revista com o título de Egoísta, claramente macaqueado da célebre revista inglesa, The Egoist, fundada por Dora Marsden e Harriet Shaw Weaver, em 1914, e tendo cessado de existir, em 1919 (a diferença é que The Egoist teve, a assessorá-la, nomes como Aldington e T.S. Eliot e a Egoísta, do Estoril, é aquilo que se vê...). Haja pachorra, meu caro Eduardo!
Um abraço do amigo,
Eugénio Lisboa, que não é patrono de nenhum Prémio e por isso não teme ser desalojado.»
O retrato de Namora é do cartoonista Vasco.
Etiquetas: Cena literária

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