Quarta-feira, Março 14, 2007

PINAMONTI OUT


O episódio da demissão de Pinamonti, director do Teatro Nacional de São Carlos, é o tipo de fait divers que excita duzentas pessoas e provoca um bocejo no resto do país. A ópera de Lisboa, que custa ao Estado (ou seja, aos nossos impostos) cerca de 400 euros por espectador, abre, talvez, vinte dias por ano. Uma temporada com cinco óperas é considerada uma “grande” temporada. Tirando um punhado de melómanos, o corpo diplomático, parte do governo, políticos com ambição, altos funcionários do Estado, gestores associados ao mecenato, a nomenklatura da autarquia, estudantes de música, e meia dúzia de curiosos que por milagre conseguem arranjar bilhete, mais ninguém frequenta a ópera de Lisboa. Por junto, seiscentas pessoas, metade por convite. Até ao fim dos anos 1970, a ópera descia de São Carlos ao Coliseu, mas alguém achou a prática reaccionária, por considerar que assim se estabelecia um fosso entre a ópera dos “ricos” e a ópera dos “pobres”, acabando com a parceria. Um rotundo disparate. Quem como eu viu espectáculos dos dois lados, e estou por exemplo a lembrar-me de Joan Sutherland (em Março de 1974, naquela que terá sido a última vez que Tomás e Caetano aparecerem na mesma récita em São Carlos; tive a sorte de estar de passagem em Lisboa e pude assistir ao espectáculo do regime a estrebuchar por interposto Verdi) na Traviata, ou de Mara Zampieri no Trovador (com o Coliseu em pura histeria nessa Primavera de 1978), quem, dizia eu, esteve na plateia rigidamente hierarquizada de São Carlos ou nas galerias camp do Coliseu, sabe do que falo. Isso acabou. Em resultado, as pessoas comuns ficaram sem ópera (no Coliseu cabe o triplo de espectadores e os bilhetes custavam um terço). Ainda me lembro do charivari à volta das condições do grande auditório do CCB, que inicialmente não permitia espectáculos de ópera, tendo sido gastos milhões para o dotar dessas condições, e afinal para quê, se a ópera não sai do Chiado? Isto dito, o ponto é que Pinamonti foi despedido. A avaliar pela opinião dos entendidos, terá sido um grande director. Para o seu lugar vem o alemão Christoph Dammann, director da ópera dos Teatros de Colónia, mas vai andar cá e lá até Setembro do ano que vem (só nessa altura estabelece residência). Vem ganhar o mesmo que Pinamonti: dez mil euros de vencimento, mais mil e quinhentos para renda de casa. Não se pode dizer que seja uma exorbitância. O lado caricato é que Pinamonti teve conhecimento da cessação do contrato meia hora antes da conferência de imprensa em que Mário Vieira de Carvalho, secretário de Estado da Cultura, o anunciou. O ministério diz ter havido troca de correspondência, mas Pinamonti desmente: «Não é verdade [...] Não rejeitei nada. E fui apanhado completamente de surpresa.» (cf. Público de hoje) O facto é que o ministério divulgou fotocópias de extractos de cartas que, aparentemente, dão outra versão do acontecido. Pinamonti contrapõe com a extrapolação de frases isoladas acerca dos inesperados cortes no orçamento aprovado. Realmente disgusting.

Etiquetas: ,