Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

TOM PERROTTA


Hoje no Público:

Aparentemente, foi por causa do filme de Todd Field que este magnífico romance de Tom Perrotta (n. 1961) chegou à edição portuguesa. A imagem dos protagonistas na capa, e a ficha técnica na contracapa, autorizam a conclusão. O que não deixa de ser bizarro, porquanto o primeiro livro de Perrotta, Bad Haircut (1995), uma colectânea de contos sobre os anos 1970, foi logo equiparado a Salinger, Carver e Roth. Tendo publicado quatro romances, bem como contos e ensaios nas revistas GQ e Rolling Stone, Perrotta dispensa bem a bengala de Field. Pecados Íntimos, que talvez devesse chamar-se Criancinhas, título mais de acordo com o original e com a leitura mordaz da trama, vale pelo desembaraço da linguagem e o impressivo retrato da cidadezinha do Massachusetts onde tudo acontece. A intriga subsume-se numa sucessão de esqueletos no armário. Sarah não é uma mãe convencional: professora falhada, feminista e lésbica de passagem, casa com um homem que não ama e torna-se mãe de uma criança que constitui um estorvo à sua natureza disfuncional. Naquele peculiar microcosmo, o padrão normativo é ilustrado pela figura de Mary Ann, a mulher cronómetro, com dia e hora marcada para os deveres conjugais. Quando Todd surge no parque infantil, Sarah sente ter chegado o momento da desforra. Ele é belo, simpático e desempoeirado, na universidade até foi capitão da equipa de futebol. Não consegue é ser advogado. Agora está casado, tem um filho, e o desemprego faz com que tenha tempo para Sarah. Ela esquece tudo: o marido, utilizador compulsivo de pornografia; os mexericos; a histeria da comunidade face ao regresso a casa do pedófilo que cumpriu pena de prisão. Como era de prever, a história acaba mal. Todd é um falhado: nos exames como no amor, quando é preciso agir, recua. Sarah terá de habituar-se a dividir o tempo com a filha. Importa sublinhar que Perrotta não faz floreados. A secura da escrita garante fluência narrativa, bem servida pela tradução de André Chêdas. Exemplo de virtuosismo, os relatos dos jogos de futebol (americano) e as persuasivas cenas de sexo. O quadro mental das personagens apoia-se em múltiplas referências, do falso feminismo de Camille Paglia à prática do swing nas classes médias, dos dilemas de Emma Bovary às sequelas da queda do Muro de Berlim, dos grupos cibernéticos de sexo à discussão de um celebrado filme de Sam Mendes, sem esquecer a dúbia atracção de Todd pelos jovens skaters do bairro, espécie de contraponto perverso à pedofilia hard de McGorvey. Pecados Íntimos é uma história de recalcamentos que Perrotta descreve com exemplar argúcia.


in ípsilon, 23-2-2007, p. 45. Quatro estrelas.

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