A paz retrógrada

A importância da conclusão de uma narrativa deriva da leitura que ela impõe para os momentos antecedentes, que podem ver o seu sentido reforçado ou contestado por um olhar retrospectivo. Se é quando uma narrativa chega ao seu termo que o processo de releitura tem a possibilidade de se iniciar, então é a partir desse instante que a obra em questão pode começar a ser verdadeiramente conhecida. Ocorre‑me pensar, quando leio um livro ou vejo um filme em que se conta uma história cujo desenvolvimento se vai conservando num equilíbrio tenso, que o final poderá resgatar ou condenar o que até aí foi construído. Nesses casos, talvez o melhor fosse proceder como sugeria Thomas Bernhard e interromper abruptamente a acção. Não foi o que fez Todd Field no filme Pecados Íntimos (Little Children, 2006), actualmente em cartaz, assim condenando o que de interessante até aí construíra. Desde o início, o filme denuncia uma hesitação entre um registo caricatural e uma vontade de compor um retrato verosímil de uma parte da sociedade americana. Poder‑se‑ia argumentar que é essa mesma sociedade que é caricatural, mas a verdade é que tom varia consoante as necessidades da narrativa, criando um problema de coerência interna, que leva a que algumas soluções apareçam como demasiado fáceis ou preguiçosas. Tome‑se como exemplo a cena inicial do beijo no parque entre os dois protagonistas ou o momento em que Brad (Patrick Wilson) descobre a sua fotografia num livro de Sarah (Kate Winslet), onde também um verso sublinhado concorre para desencadear o início da relação amorosa entre os dois. Em contraste, há uma tentativa de desenhar figuras que correspondam a realidades exteriores ao filme, segundo o propósito de denunciar o que se adivinha ser perspectivado como o mal‑estar da sociedade americana. O problema, porém, é que as personagens e as situações parecem saídas de uma lista simplificada de estereótipos. Aí se encontram duas famílias relativamente disfuncionais (com o elemento masculino de uma e o feminino de outra a sentirem frustrações sexuais e a serem, mais do que previsivelmente, empurrados para os braços um do outro), três mulheres embevecidas pelos rebentos (e caricaturalmente esquecidas da sua dimensão pessoal), um pedófilo em liberdade condicional (para provocar um grande alarido no bairro socialmente correcto e denunciar o olhar preconceituoso de quem o quer expulsar daí) e o zelador frenético dos bons costumes (que, inevitavelmente, tem um passado de que, afinal, não se pode orgulhar muito). Se tudo isto parece obedecer apenas ao que seria previsível encontrar num filme que supostamente denunciasse a hipocrisia da sociedade americana, o pior é mesmo o final, nessa noite em que se concentram os desfechos de várias situações e que se saldará por uma deslavada manutenção da ordem, do statu quo, sem ironia ou perversão redentora. Para cúmulo, a voz off, que vai impondo uma leitura da narrativa, ainda se atreve a propor a conciliação das personagens, ao afirmar que todas têm um passado, mas que apenas importa o futuro, e este deve ser começado em qualquer lado. É um tom moralizador, que busca a anulação dos conflitos, a rejeição do confronto, que aponta o caminho de uma paz conservadora e retrógrada, que fecha, em suma, as escassas potencialidades que o filme mostrara até então.

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