AS URGÊNCIAS

Continua o folhetim das urgências. Nem de propósito, ontem o alvo foi Cascais, um case study sem remédio. Era assim há 20, há 15, há 10, há 5 anos. Tal como hoje. Vivi em Cascais de 1975 a 1997, ainda lá tenho amigos, sei como é. Continua tudo na mesma. Só fechando o hospital. Não vale a pena chover no molhado. Podemos ver o problema de vários lados. Eu diria que o lado dos médicos é o lado relevante. Um médico não é um assalariado da apanha da azeitona. Quando alguns médicos vão à televisão dizer, como disse há dias o Bastonário da Ordem, que o controlo da assiduidade os impede de cumprir o horário, porque os obriga a «sair a meio de intervenções cirúrgicas», quando o desplante atinge este nível de desfaçatez, a classe perde o respeito da opinião pública. E, sim, o caos das urgências é um problema de médicos, não é um problema do governo, deste ou de qualquer outro, por muito pêlo na venta que o actual ministro possa ter. Anda toda a gente a bramar pela sociedade civil, por menos Estado, e ao primeiro espirro invectiva-se o governo por omissão. Alguns médicos e enfermeiros amuaram por causa do controlo da assiduidade. A resistência à mudança é um trauma, por maioria de razão numa sociedade como a nossa. Transformado em zelo, o amuo dá origem ao caos. Obviamente, o controlo da assiduidade não os obriga a «sair a meio de intervenções cirúrgicas». Obriga-os, isso sim, a entrar à hora determinada pelo turno respectivo. A entrada fora de horas tem sempre de ser justificada. A saída fora de horas é contabilizada a crédito do trabalhador. Isto não é difícil de perceber. Se o turno do médico (ou do enfermeiro) começa às 08:00h, é para começar às 08:00h e não às 09:10h. Não colhe o argumento de que só conseguem sair às 17:30h em vez de o fazer às 15:00h como estipulado. Os programas de controlo de assiduidade acautelam margens de flexibilidade e plataformas fixas. Se isto é assim para todos os funcionários públicos, por que carga de água os médicos e enfermeiros querem continuar em autogestão?
Etiquetas: Relógio de ponto, Saúde

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