sábado, Setembro 30, 2006

CITAÇÃO, 48


António Marinho e Pinto (advogado) sobre o caso Envelope 9, no Público de hoje. Edit e sublinhados meus:


«Infelizmente, em Portugal não há instrumentos nem instituições que defendam verdadeiramente o direito de informar e a liberdade de imprensa enquanto garantias fundamentais dos cidadãos e instrumentos de afirmação democrática da sociedade. Sejamos claros: os dois jornalistas do jornal 24 Horas, agora processados pelo Ministério Público, não cometeram o crime por que foram acusados, ou seja, o crime de acesso indevido a dados pessoais informatizados. Bem pelo contrário, os jornalistas em causa cumpriram o seu dever profissional e prestaram um grande serviço público ao informarem o país de que dados confidenciais sobre o tráfego telefónico de titulares dos principais órgãos de soberania tinham sido colocados e estavam acessíveis num processo-crime por abuso sexual de menores. A ter havido crime, seria outro o tipo legal em causa e outros os respectivos agentes. Na verdade, o que estava em causa não eram dados pessoais mas sim dados de Estado; o bem jurídico não era a privacidade de cidadãos, mas antes a dignidade das mais altas figuras do Estado; não se tratava de devassa de vidas pessoais, mas sim da reserva de funções do Estado. Em suma, não se tratava da protecção da privacidade do cidadão Jorge Sampaio, mas antes de preservar a dignidade do Presidente da República não o misturando com um processo-crime infamante. [...] Portanto, o que haveria a investigar era o motivo por que um documento em suporte informático, contendo informações sobre o tráfego telefónico de titulares de alguns dos principais órgãos de soberania, fora parar a um processo-crime por abuso sexual de menores, com o qual os titulares desses telefones nada tinham a ver; e ainda se a colocação e disponibilização daqueles dados nesse processo era susceptível de ameaçar a integridade ou a segurança do Estado; e, caso se concluísse pela positiva, averiguar, então, quem foram os responsáveis. Ora, foi precisamente isso que o MP/PGR não quis fazer. Se as investigações fossem conduzidas no sentido correcto, provavelmente, teriam de ser “incomodados” alguns magistrados, alguns inspectores da PJ e alguns quadros superiores da Portugal Telecom. Muito mais fácil e cómodo para todos era investigar e acusar quem deu a notícia. Foi o que aconteceu. E oito meses depois de denunciada a situação, o MP/PGR veio esclarecer o país que o único crime foi o de os dois jornalistas terem noticiado o caso. [...] Por outro lado, uma investigação bem feita teria de conduzir, necessariamente, à cúpula da PT, uma empresa pública cujos dirigentes (e muitos quadros superiores) eram da confiança política do governo de então, o mesmo governo que tinha nomeado a direcção nacional da Polícia Judiciária. As investigações deveriam então esclarecer se os registos das chamadas telefónicas foram pedidos informalmente à PT ou se foram remetidos “oficiosamente” por esta empresa e, neste último caso, se tal acontecera por lapso ou por instruções de alguém. Não nos esqueçamos que, em Portugal, realizam-se com frequência diligências de investigação criminal “informais”, isto é, que não ficam registadas nos autos e que, não raro, são efectuadas sem qualquer controlo judicial. Os factos são, no mínimo insólitos. Um funcionário da PT enviou para o tribunal dados confidenciais de dezenas de pessoas, incluindo titulares dos principais órgãos de soberania. Os seus superiores não tiveram conhecimento prévio? E autorizaram sem dar conhecimento à administração? E esta autorizou sem dar conhecimento à tutela governamental? E se recordarmos o perfil de alguns governantes da época, então todas as suspeitas são legítimas. Por outro lado, é, no mínimo, insólito que os dados enviados pela PT tenham estado meses e meses no processo sem terem sido descobertos e analisados por alguns investigadores da PJ, sabendo-se que esta polícia possui dos melhores especialistas do país em questões informáticas? As cassetes foram ou não analisadas pelos investigadores? É verosímil que tenham sido recebidas disquetes com informação importante e ninguém tenha ido analisar todo o seu conteúdo? Tendo em conta o estatuto e as ligações pessoais e políticas de alguns arguidos no processo Casa Pia, era ou não considerado importante saber quem telefonou a quem à hora em que aconteceram certos factos relevantes naquele processo? Porém, apesar de todas essas dúvidas, tudo acabou em bem para os magistrados, inspectores da PJ e dirigentes da PT (que foram todos exculpados), mas não para os dois jornalistas que deram a notícia (que foram ambos acusados como criminosos). Em face da forma como o MP/PGR conduziu estas investigações e do resultado a que chegou, o mínimo que se poderia exigir num Estado de direito e numa sociedade verdadeiramente democrática era que a Assembleia da República criasse uma comissão parlamentar de inquérito, para investigar todo o episódio, incluindo a (des)investigação levada a cabo pelo MP/PGR. Num país em que a administração da justiça e os próprios tribunais são propriedade das corporações judiciais, é sempre mais fácil e cómodo perseguir judicialmente jornalistas. E isso acontece também porque, infelizmente, em Portugal não há instrumentos nem instituições que defendam verdadeiramente o direito de informar e a liberdade de imprensa enquanto garantias fundamentais dos cidadãos e instrumentos de afirmação democrática da sociedade. No nosso país, o direito de informar e a liberdade de imprensa têm sido “defendidos” como se fossem regalias sócio-profissionais dos jornalistas, uma espécie de “direitos adquiridos” dos “trabalhadores da indústria de conteúdos”, como agora se diz. Enquanto esses bens não forem encarados como valores superiores do Estado de direito democrático e a sua defesa institucional continuar a ser feita apenas por uma organização sindical que, ainda por cima, não se libertou inteiramente da vocação corporativa e totalitária com que foi criada pelo Estado Novo, enquanto tudo isso continuar como está, não será de espantar que aconteçam episódios judiciais como o do envelope 9

sexta-feira, Setembro 29, 2006

O pacto


Segundo o Público de hoje, José Saramago defendeu um «pacto de não agressão» entre islão e cristianismo. O disparate é tão grande que mais parece destinado a que se encolha os ombros e passe adiante, mas o homem toma­­‑se a sério e espera que os outros o encarem da mesma maneira. A necessidade de ter uma opinião, pronta a servir a qualquer instante, desde que os jornalistas a solicitem (ou mesmo sem ser solicitada), leva Saramago a acumular estes disparates verbais, que são, afinal, uma prova de que os escritores (ou, em sentido mais lato, os artistas) não conseguem ter mais razão do que os outros cidadãos apenas pela actividade que exercem. Então, o islão e o cristianismo são duas entidades sólidas, inquebrantáveis, às quais é possível impor uma regra que as condicione na íntegra? E é aí que residem verdadeiramente os nossos problemas? Mais valia reparar no que diz Álvaro Vasconcelos, director do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais, na mesma página do jornal em que consta a notícia sobre o pacto: «Quer os que acreditam no choque de civilizações, quer os que defendem o diálogo ou, como é o caso de Saramago, um pacto de não agressão entre as religiões cometem exactamente o mesmo erro: pensar que os actores das problemáticas que enfrentamos são os religiosos. Os actores são grupos políticos, correntes, indivíduos, Estados, que têm pontos de vista diferentes e contraditórios sobre questões como a liberdade de expressão ou o lugar da religião na sociedade».
Por isso, defender que, sem religiões, «o mundo seria certamente mais pacífico», como Saramago fez recentemente, ou é ingenuidade ou outro tipo de fundamentalismo. O pretexto seria depressa substituído por outro, pois o que está em causa é a violência inerente ao ser humano, para a qual ele tem de encontrar uma justificação, uma aparência de sentido. E aí, como sabemos, também cabe o ateísmo.

A ESTRATÉGIA DA ARANHA


Não sei quantos juízes há em Portugal. Não sei se há mil, se o dobro, ou só metade. Sejam quantos forem, são certamente mais do que os 72 que podem participar na eleição do presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Qual é a representatividade de uma eleição assim? Adiante: com 53 dos 72 votos possíveis, foi eleito Noronha do Nascimento. O presidente do Tribunal Constitucional faltou à votação. Houve 14 votos nulos, um em branco, e três votos noutros dois juízes. Hoje, no Público, o editorial do director tem uma clareza que andava arredia da imprensa. Excerto de A Estratégia da Aranha, de José Manuel Fernandes:


«Querem um símbolo, um expoente, um sinónimo, dos males da justiça portuguesa? É fácil: basta citar o nome da Noronha de Nascimento e tudo o que de mal se pensa sobre corporativismo, conservadorismo, atavismo, manipulação, jogos de sombras e de influências, vem-nos imediatamente à cabeça. [...] Se era aconselhável que um presidente do Supremo Tribunal desse mais atenção a Montesquieu e ao princípio da separação de poderes do que à cartilha da CGTP, Noronha de Nascimento fez exactamente o contrário. Reivindicou como um metalúrgico capaz de ser fixado para a posteridade numa pintura do “realismo socialista” e, esquecendo-se de que é juiz e representante máximo do “terceiro poder”, o judicial, pediu assento à mesa do “primeiro poder”, o executivo. É certo que o poder do Conselho de Estado é tão inócuo como o penacho de ser presidente do Supremo Tribunal, só que a reivindicação contém em si duas perversidades. A primeira é ser sinal de que Noronha de Nascimento se preocupa mais com o seu protagonismo público do que com os problema da justiça. A segunda, bem mais grave, é que o homem se disponibiliza para ser o rosto de uma fronda dos juízes contra as decisões reformistas do poder político, neste momento objecto de um consenso alargado entre o partido do Governo e a principal força da oposição. É tão patético que daria para rir, não estivéssemos em Portugal e não entendêssemos como funcionam as estratégias das aranhas. O homem, creio sem receio de me enganar, é tão inteligente e habilidoso como é perigoso. Até porque tem já um adversário assumido: o novo procurador-geral da República, Pinto Monteiro, um dos raros que tiveram a coragem de lhe fazer frente

BILL BRYSON


Hoje no Público:


Gosta da série americana Seinfeld? É fã de Larry David? Identifica-se com o registo corrosivo de Curb Your Enthusiasm? Se a resposta for sim, gosta com certeza dos livros de Bill Bryson (n. 1951), que estão todos, excepto o último, traduzidos em Portugal. O penúltimo, Notas sobre um País Grande, pode ler-se como sequela de Made in America. Bryson nasceu em Des Moines, no Iowa, mas foi viver para Inglaterra em 1973. Foi lá, enquanto trabalhava num hospital psiquiátrico do Surrey, que conheceu a mulher. Os seus quatro filhos nasceram na Inglaterra, e a família viveu no North Yorkshire (salvo durante uma breve temporada nos Estados Unidos, em 1977, para Bryson acabar a formatura) até 1995, ano em que tentou radicar-se nos Estados Unidos, mas a experiência durou apenas oito anos. Em 2003 estava de volta ao Reino Unido, onde reside. Os artigos de viagem que escreveu para o Times e o The Independent tornaram-no famoso. A história deste livro, originalmente publicado em 1998, é muito simples. Em 1996, aproveitando a estadia de Bryson do outro lado do Atlântico, Simon Kelner convidou-o a escrever uma coluna semanal sobre a América para a revista inglesa Mail on Sunday’s Night & Day. Bryson acedeu e este volume colige os 78 textos que foram publicados nos primeiros dezoito meses. O seu espectro abrange uma imensidão de tópicos. Há para todos os gostos, da hipocondria do americano médio à energia consumida pelos computadores que ficam ligados a noite toda: «Por que razão os americanos não desligam estas coisas?» As recensões de filmes, em jornais tão respeitáveis como o Los Angeles Times, que não é propriamente um pasquim mórmon, não são esquecidas. E, claro, o sedentarismo dos nativos: a maioria das pessoas não anda a pé, por ano, mais de 330 metros. A diferença com Made in America (1994) é que enquanto aquele se ocupa das peculiaridades da língua falada pelos descendentes dos colonos do Mayflower e, do mesmo passo, das especificidades da cultura americana, estas Notas... dão a ver o esgar de perplexidade do americano expatriado. Não é caso para menos. Depois de anos e anos de vidinha inglesa, Bryson foi encontrar um país onde se viu obrigado a decidir entre duzentas variedades de cereais para o pequeno-almoço. De caminho, habituou-se a percorrer quilómetros de prateleiras de junk food. E ainda teve a grata surpresa de descobrir coisas tão inesperadas como trituradores de fezes, porta-gravatas com luzes e servidores automáticos de comida para gatos. Em pouco tempo tornou-se um céptico, alguém avesso à noção de “facilidade assistida” e ao império do consumo. Logo a abrir, o aviso: «Fiz uma vez uma piada num livro sobre as três coisas que uma pessoa ao longo da vida nunca conseguirá fazer. Não podemos ganhar à companhia dos telefones, não podemos fazer com que um empregado de mesa nos veja até que ele esteja preparado para nos ver e não podemos regressar à terra natal. Durante os últimos dezassete meses tenho estado silenciosamente, e até mesmo corajosamente, a reequacionar o ponto três.» O ponto três: a terra natal. Se pensarmos que este é um livro pré-Bush e pré-11 de Setembro, e em todo o caso um livro sobre a América profunda, que não tem nada a ver com o cosmopolitismo e a sofisticação da costa Leste, somos levados a lê-lo como quem folheia almanaques encontrados no sótão. Bryson é o “estrangeiro” que vai buscar O. J. Simpson para explicar a arritmia do PIB [...] Os números são uma preocupação manifesta. Seja o reforço de verbas do Pentágono ou estatísticas correntes, como aquelas que garantem a ocorrência de maior número de acidentes no local de trabalho (com lápis e canetas) e em casa (com colchões e travesseiros) do que pela prática de skate em prancha. A quantidade de advogados também o impressionou: cerca de oitocentos mil (em 1996), o que dava 300 advogados por cada cem mil habitantes. No Reino Unido, na mesma altura, eram 82. E só 11 no Japão. O típico horror inglês aos regulamentos fica bem demonstrado nesta passagem: «A existência de tantos departamentos tem consequências. A mão esquerda não apenas não sabe o que a direita anda a fazer como parece nem sequer ter conhecimento de que a direita existe. Isto é ilustrado pelo curioso caso da pizza congelada. [...] Este tipo de loucura não seria possível num pequeno país como o Reino Unido; para que isso aconteça é necessário a União Europeia.» A caricatura tem razão de ser: consoante o conteúdo (queijo ou pimento) o fabrico de cada tipo de pizza é regulamentado por organismos diferentes, ora o Food and Drug Administration, ora o departamento de agricultura. Tomando como pretexto os voos comerciais em espaço americano, mas fazendo grande angular sobre uma realidade mais vasta (a selva que representa viajar de avião para quem tem de o fazer em classe turística), o artigo sobre O Pesadelo Voador é de exemplar secura: «Contudo, com a assinalável excepção da minha pessoa e de outras pobres almas que têm uma visão organizada e metódica das coisas, hoje em dia, a maioria dos passageiros na América têm o que merecem[...] Estamos a falar da realidade de 1996-97, anterior ao actual forcing securitário. Não é de admirar que Bryson, formado e tarimbado no individualismo feroz da sociedade britânica, visse tudo isto com profunda inquietação: «Se isto não é assustador, então não sei o que o será.» É capaz de ser o puritanismo. [...] Bryson descreve o quotidiano regrado de uma cidade universitária como New Hampshire: «Para minha tristeza descobri que quando um amigo americano nos convida para uma cerveja é mesmo isso que ele quer dizer: uma cerveja.» Em Hartford, no Connecticut, dar de mamar ao bebé, mesmo de forma discreta, dentro do automóvel, «com uma manta a cair do ombro e de costas voltadas para toda a gente» pode dar prisão. Aquilo não é Gomorra! Há ainda artigos dedicados ao sotaque ou, melhor dito, à recuperação de sotaques primitivos; ao design, às drogas, ao Verão e ao Outono na Nova Inglaterra, ao aluguer de carros, aos diners [...] à sua aversão pela cadeia de cafés Starbucks, à insipidez do chocolate americano [...] ao desporto, à comparação entre os correios britânicos e americanos, às linhas de apoio ao consumidor, aos insucessos do FBI, etc. Em suma, um guia iconoclasta do estilo de vida americano. O registo seco torna a leitura agradável mesmo quando a acrimónia nos parece escusada. Bryson reage como um europeu culto, isto é, como alguém que olha os americanos do alto da sua arrogância eurocêntrica. Independentemente do interesse da reunião em volume, estes 78 textos, sob a forma de crónica de jornal da publicação original, mesmo destinados a leitores estrangeiros, terão tido uma eficácia diferente.


Excerto de As Notas do Expatriado, in MIL FOLHAS, 29-9-2006, p. 8.

PRÉMIO FERNANDO NAMORA


Por unanimidade, foi atribuído a Miguel Real (n. 1953) o Prémio Fernando Namora. O pretexto foi o romance A Voz da Terra, uma edição QuidNovi. O júri foi presidido por Agustina Bessa-Luís. Entre os seus sete membros estão Maria Velho da Costa e Liberto Cruz. Miguel Real publicou cinco romances, oito volumes de ensaio, um diário e vários textos dramatúrgicos. O seu primeiro livro, Carta de Sócrates a Alcibíades, seu Vergonhoso Amante, saiu em 1987. O autor exerce crítica literária regular no JL. Nos últimos três anos, o prémio, no valor de 15 mil euros, foi atribuído a romances de Nuno Júdice (2005), António Lobo Antunes (2004) e Armando Silva Carvalho (2003). Como sempre, será entregue em Janeiro próximo.

quinta-feira, Setembro 28, 2006

MENDES, O HOLANDÊS


Ninguém explicou ao dr. Marques Mendes que ele não pode ir para uma entrevista de grande audiência, na televisão, sem mais ideias na cabeça do que dizer que o primeiro-ministro age por ignorância, que na Holanda é que é, na Holanda, na Holanda, na Holanda, e de caminho insinuar que a banca privada não é bem privada, porque a Caixa Geral de Depósitos, enfim, e o Banco de Portugal, etc., e não ser capaz de dar um número, um para amostra, tudo depende do universo a abranger, e ele ainda não sabe qual é esse universo, aliás, Mendes dixit, o governo também não sabe, portanto não vale a pena explicar a diferença de 91 mil milhões de euros entre as duas propostas (a do PSD e a do governo), a Judite bem tentou, mas não arrancou nada, e via-se na cara dela que aquilo era um flop de todo o tamanho, deve ter ficado a pensar que era uma maldade terem mandado o homem sem uma cábula, só pode ter sido uma partida do comité de sábios (Leite, Borges & Salgueiro) para ver se o estatelam de vez. Que saudades do Santana! O homem delirava mas defendia a rábula com unhas e dentes.

PLANO NACIONAL DE LEITURA


O novo livro do escritor brasileiro Paulo Coelho (n. 1947), A Bruxa de Portobello, chegou ontem às livrarias portuguesas. A tiragem inicial é de 100 mil exemplares, antecipadamente vendida. O editor garante um reforço de mais 10 mil para os próximos dias. Ou seja: cento e dez mil exemplares. Algo parecido com as tiragens nacionais de Saramago. Nunca li Paulo Coelho. Preconceito, já se vê. Se calhar estou a perder a revelação. Mas também nunca li o romance de Miguel Sousa Tavares, Equador, e nem por isso ele deixou de vender cerca de 300 mil exemplares (e tenho uma dúzia de amigos, doutores por extenso e por carrière, que juram pela sua excelência). Já para não falar de números relativos a certos autores estrangeiros, com Dan Brown à cabeça. A que vem isto? À ladainha do não se lê. Não se lê, o camandro! Se não se lesse não se publicavam, só em Portugal, 10 livros por hora. Nem havia tantas casas editoras, mais as que estão para abrir nas próximas semanas, mais as que já estão abertas há muitos anos e vão agora desdobrar-se em novas chancelas (como fez a Asa há meses, multiplicando-se em quatro, modelo que está à beira de ser adoptado por mais uma ou duas editoras de referência), mais as que canalizam todas as sinergias para colecções altamente especializadas. O meio mexe, e não é para aquecer. A menos que seja para deitar dinheiro à rua, hipótese abstrusa, o facto é que o mercado exige a mexida. É claro que as pessoas lêem. Não lêem exactamente aquilo que nós gostávamos que lessem. (Esses em quem estão a pensar, esses, vendem, em média, 150 exemplares; e é quando vendem... E não, não falo de jovens escritores. Falo de autores canónicos.) Mas isso é outra história.

REMÉDIOS


Ponto prévio: 1. Não gosto de metáforas. 2. O Diário de Notícias é um respeitável jornal centenário.


Excerto de uma notícia, assinada por Alexandra Machado e Pedro Ferreira Esteves, publicada no DN de hoje, sobre a OPA da Sonaecom sobre a PT: «A Autoridade da Concorrência (AdC) aprova a compra da Portugal Telecom (PT) pela Sonaecom, mas impõe condições, como aliás já se esperava. A Sonaecom e a AdC chegaram esta semana a acordo sobre as condições (os designados remédios) a estabelecer para que a operação seja aprovada. Ontem houve, segundo apurou o DN, uma reunião do conselho de administração da Sonaecom, que aceitou os remédios. [...] Caso não houvesse essa intenção continuariam a decorrer as negociações para que fosse possível encontrar um entendimento ao nível dos remédios. [...] Dos remédios ontem conhecidos [...] já muitos eram esperados pelo mercado, tendo sido revelados na comunicação social. Ainda assim, a Sonaecom manteve ao DN a declaração de que os remédios são agressivos. [...] O mercado, no entanto, não se surpreendeu com quase nenhum desses remédios. [...] Os remédios comportamentais decorrerão durante três anos. [...] Através dos remédios, a AdC aproveitou para actuar sobre “o poder de mercado significativo” que a PT actualmente tem. [...]»

Erro


É uma questão de autocensura ou de liberdade. O cancelamento de Idomeneo é um recuo civilizacional, sustentado na obsessão da segurança que assola o nosso continente. E é um erro enorme, a que nenhum convicto defensor dos valores europeus pode assistir sem um arrepio.

quarta-feira, Setembro 27, 2006

IDOMENEO, REI DE CRETA


A reposição da ópera Idomeneo (1786) de Mozart, prevista para o próximo mês de Novembro, em Berlim, foi cancelada. Motivo: medo da reacção dos radicais muçulmanos. Poderá Mozart ferir sensibilidades do mundo islâmico? Há quem ache que sim. A Deutsche Oper acha. A directora do teatro também, e lamenta. Hans Neuenfels, o encenador, alheio e contrário à decisão, considera o cancelamento um gesto de “submissão e histeria”. Segundo os jornais, a polícia alemã alertou o Senado para a possibilidade de acções terroristas durante as exibições de Idomeneo. A encenação que ia ser reposta foi a estreada em 2003. [Na foto ao alto, uma imagem da sua representação em Glyndebourne.] Na apoteose final, Idomeneo transporta as cabeças de Poseídon, Jesus, Buda e Maomé. O pessoal era capaz de ficar nervoso. Ali Kizilkaya, presidente do Conselho do Islão, saudou o cancelamento. E sugere outra encenação.

terça-feira, Setembro 26, 2006

EUGÉNIO NA QUASI


Eugénio de Andrade (1923-2005) passa para o catálogo da Quasi. A decisão foi tornada pública ontem, no palacete do Passeio Alegre, por Arnaldo Saraiva, presidente da Fundação que leva o nome do poeta, e por Jorge Reis-Sá, editor da Quasi. A partir de agora, os livros de Eugénio são editados em Famalicão. O primeiro título sai antes do Natal. Vai assim juntar-se a Ana Luísa Amaral, Artur do Cruzeiro Seixas, Daniel Faria, Francisco José Viegas, Inês Lourenço, Isabel Meyrelles, Isabel de Sá, José Emílio-Nelson, Natércia Freire e Rosa Alice Branco, que são alguns dos autores com as respectivas integrais ali publicadas, mas também a Adília Lopes, Al Berto, Allen Ginsberg, Ana Hatherly, António Ramos Rosa, Carlos de Oliveira, Eduarda Chiote, Fernando Guimarães, Fiama Hasse Pais Brandão, Harold Pinter, Helga Moreira, José Régio, Luís Adriano Carlos, Pablo Neruda, Paul Auster, Pedro Homem de Mello, Pedro Mexia, Pedro Sena-Lino, Rui Coias, Saint-John Perse, Seamus Heaney, valter hugo mãe, etc., que têm antologias ou livros avulsos de poesia publicados na Quasi, sem contar com os poetas brasileiros que têm direito a colecção própria, a qual inclui, entre outros, os nomes incontornáveis de Ferreira Gullar (poesia completa) e Ana Cristina Cesar. Para já, a parceria terá a duração de oito anos. Trata-se, esclareceu Arnaldo Saraiva, de garantir edições cuidadas, distribuição eficiente e marketing adequado. A partir de propostas enviadas por editores de Lisboa, do Porto e de outras cidades, a Fundação optou pela Quasi. Factores como a qualidade gráfica e o dinamismo editorial terão sido decisivos na escolha. Envolvendo um autor best-selling, um de dois poetas com essa qualidade (o outro é Sophia), a notícia provocou ondas de choque de Matosinhos a Paranhos. O editor José da Cruz Santos, que durante muitos anos teve o monopólio de Eugénio — nas editoras Inova e Oiro do Dia, ambas do Porto —, não escondeu a sua perplexidade. Mas Saraiva foi claro: «A Fundação Eugénio de Andrade não recebeu nenhuma proposta de edição por parte de Cruz Santos.» Então porquê a admiração? O monopólio era vitalício? Se a parceria agora assinada significar o fim do regime de coutada, Eugénio será o primeiro a ganhar. Um dos próximos capítulos é capaz de ser o proverbial abaixo-assinado das viúvas do poeta.

AGORA QUE FALAMOS DE MORRER



Se usar o complemento
sobressalta-se o parágrafo.
Não sei se com parcimónia
te retrate ou em simples interjeição.
Sei que de futuro te usarei
para a dita fruição.


Helga Moreira, Agora que falamos de morrer, & etc, 2006

É PRECISO LATA


Numa livraria, alguém folheia um dos meus livros. Ao fechar o volume, apontando para o nome grafado na capa, comenta para o lado:
Há um gajo que escreve num blogue e assina com este nome. É preciso lata!

O BEIJA-MÃO


Aznar é irrelevante. Foi convidado porque mais do que os de Deus são insondáveis os desígnios editoriais. O ponto ali era a vassalagem. Numa plateia de ordinário reservada ao pessoal do bairro, sentou-se ontem grande parte da nomenklatura do país. Por que seria?

segunda-feira, Setembro 25, 2006

FUNCIONÁRIOS & SALÁRIOS


O governo prepara-se para mexer no regime de carreiras e remunerações da Função Pública. Se tudo correr bem, a partir de Janeiro nada será como dantes. Aqueles que conhecem por dentro a intrincada teia que teve como ponto de partida o famigerado Dec-Lei n.º 353-A/89, de 16 de Outubro, percebem melhor o nonsense que tem pautado os últimos dezassete anos. Para quem não se lembra, era Cavaco primeiro-ministro quando encomendou a Sousa Franco (futuro ministro das Finanças de Guterres) o estudo de um novo sistema retributivo da administração pública. Sousa Franco fez o estudo e propôs soluções. As centenas de páginas do seu relatório foram expeditamente arquivadas. Estão, Cavaco mandou vir de Bruxelas uma técnica aplicada, de seu nome Isabel Côrte-Real (futura secretária-geral da Assembleia da República sob Barroso & Santana), incumbindo-a de operar uma revisão profunda do relatório Sousa Franco. O resultado foi o Dec-Lei n.º 353-A/89, de 16 de Outubro, mais conhecido por Novo Sistema Retributivo. A sucessão de atropelos, disparates, incongruências e válvulas de escape era tal — refiro apenas o regime geral, deixando de lado os corpos especiais, ou seja, magistrados, diplomatas, professores, médicos, enfermeiros, militares, polícias, etc. —, e tão notória, que o primeiro diploma rectificativo foi publicado menos de 45 dias volvidos, seguindo-se-lhe, ao longo destes anos, dezenas de outros: muda aqui, repõe ali, ajusta acolá. Uma tentativa de ordenar o patchwork teve como consequência o Dec-Lei n.º 404-A/98, de 18 de Dezembro, logo ajustado por iniciativa parlamentar: a Lei n.º 44/99, de 11 de Junho. Não obstante, o estatuto remuneratório dos funcionários e agentes continua uma manta de retalhos, convenientemente desordenada para permitir as excepções e o estatuto de marajá de que gozam as corporações que tiveram poder para tanto. Voltando ao Novo Sistema Retributivo (1989). As míticas “promoções automáticas” começaram com ele, mas as “promoções automáticas” — o termo é uma invenção dos media — mais não são (ou eram, uma vez que Sócrates as congelou) do que progressões indiciárias por antiguidade, a que antigamente, ou seja, antes de Outubro de 1989, se chamava diuturnidades. Não são um exclusivo da Função Pública. Praticam-se em todos os Bancos, sempre que, por antiguidade, um empregado muda de “nível”, e também, pelo mesmo motivo, em todas as empresas do sector público empresarial. Promoções são outra coisa: dependem de vaga, de cabimento de verba, e de concurso público, o qual, por sua vez, depende da vontade do dirigente do serviço (que pode, discricionariamente, não o autorizar). A que vem este arrazoado? Vem na sequência do que agora se soube do trabalho da Comissão de Revisão do Sistema de Carreiras e Remunerações, a qual encontrou resistências de vária índole, a menor das quais terá sido o descaso de inúmeros serviços públicos: muitos ignoraram, outros desvalorizaram, alguns colaboraram com “insuficiências e imprecisões”. Por exemplo, os Institutos Públicos de regime especial — onde, em regra, os salários duplicam os dos ministérios — refinaram: “Não estamos abrangidos pelo âmbito de intervenção da comissão”. Está a pensar no mesmo que eu?

domingo, Setembro 24, 2006

BLOGA ON SUNDAY


Os Teatros do Poder, por João Gonçalves.

sábado, Setembro 23, 2006

Do medo contemporâneo


A tese central do sociólogo Zygmunt Bauman no volume Confiança e Medo na Cidade (Trust and Fears in the Cities, 2005) pode ser encarada como um prolongamento das conhecidas ideias de Gilles Lipovetsky sobre o individualismo contemporâneo. Vamos por partes. No livro que a Relógio d’Água agora editou, traduzido por Miguel Serras Pereira, Bauman reúne três breves ensaios em que procura diagnosticar as razões do medo que parece contaminar a vida nas nossas cidades. A questão, para o sociólogo, assenta num paradoxo em que apenas a origem é difícil de detectar, mas cujas consequências se adivinham com facilidade. Segundo ele, as medidas de segurança extrema que existem nas metrópoles contemporâneas servem, acima de tudo, para gerar mais medo, mais insegurança, pelo aumento do temor de perder os bens que tanto se procura proteger. Quanto mais se receia perder algo, mais se acredita que isso pode realmente acontecer. Não nos importamos com o que fica ao alcance dos outros, mas aquilo que abrigamos do olhar alheio torna­‑se logo mais precioso, apenas por causa da protecção que se entendeu atribuir­‑lhe. Para Bauman, os «actuais medos nasceram com a irrupção simultânea da liberalização e do individualismo, numa altura em que se já haviam tornado frouxos ou quebrado os laços de parentesco e de vizinhança que uniam com firmeza as comunidades e corporações» (p. 16).
A dissolução da solidariedade e a sua substituição pela competição entregam as pessoas aos seus próprios recursos, afastam­‑nas dos apoios da comunidade. Assim desamparado, um ser humano vê ressurgir temores ancestrais, sobretudo por compreender que cada vez contará menos com o auxílio da sociedade em que ainda se insere. Bauman tem toda a razão quando afirma que, «hoje em dia, com o advento da modernidade líquida, o fantasma mais aterrador é o representado pelo medo de ficar para trás» (p. 18). Ficar para trás não significa, como outrora, um afastamento provisório do mercado de trabalho, que admitia a esperança do regresso, mas a completa eliminação de qualquer papel na sociedade. Hoje, como nos lembra o autor, «cada vez mais, ouvimos certas pessoas dizerem de outras que essas outras são supérfluas» ou, utilizando «uma palavra cruel, inumana, inventada nos Estados Unidos, mas que se propagou como um violento incêndio por toda a Europa», desclassificadas. Este último vocábulo torna bem claro que aquele a que refere está já fora do sistema de classes, não porque este tenha sido abolido, mas porque o ser humano em questão não tem aí lugar. Perdeu­‑o ou nunca o teve, isso é pouco relevante, o que importa é que se está a dizer a alguém que ficou fora do mundo, não coube lá dentro, foi atirado para a margem, e a sua única utilidade reside em lembrar aos outros, às pessoas de bem, o que lhes pode acontecer se não se agarrarem suficientemente ao tipo de vida que levam.
De onde vem tudo isto? Para Bauman, «ao impor a modernização acelerada de lugares muito distantes, o grande mundo do comércio livre, da livre circulação financeira, criou uma enorme quantidade de gente supérflua, que perdeu qualquer meio de sustento e já não pode continuar a viver como o faziam os seus antepassados» (p. 75). As cidades sofrem, assim, uma fractura entre aqueles a quem não resta nenhuma esperança e os que se agarram com todas as forças à preservação do statu quo. Presos ao individualismo resultante da quebra dos laços comunitários, estes últimos desenvolvem um medo do desconhecido que tende a aumentar à medida que procuram proteger­‑se. A tendência, que bem conhecemos nas nossas cidades, consiste em procurar os iguais, em descobrir refúgio entre aqueles que também se encontram do lado de dentro da sociedade. Os condomínios fechados, claro, são o paradigma desse tipo de comportamento, que, por culpa da sua perversidade, não resolve nenhum dos problemas que se encontram na sua origem. Lembra Bauman que homogeneizar «os bairros, e reduzir depois ao mínimo inevitável todo o comércio e comunicação entre eles, é uma receita infalível para avivar e intensificar o desejo de segregar e de excluir» (p. 46). O sociólogo introduz, então, duas noções, ambas resultantes da proliferação da diversidade na metrópole actual, mas que representam duas atitudes opostas em relação a essa realidade. Trata­‑se da mixofilia e da mixofobia. Sendo a primeira «um forte interesse, uma propensão, um desejo de mistura com as diferenças, ou seja, com os que são diferentes de nós», e consistindo a segunda no temor dos «perigos que os desclassificados representam», o que conduz à recusa de contactar os estranhos e a uma reclusão continuamente reforçada por parte de muitos habitantes da cidade, natural se torna que Bauman proponha que deveríamos «fazer alguma coisa no sentido de aumentar a mixofilia e de reduzir a mixofobia» (pp. 82-83).
Simmel poderia ser aqui convocado, mas, ao ler os ensaios de Bauman, ocorreu­‑me mais A Era do Vazio (L'Ère du Vide, 1983), de Gilles Lipovetsky, publicado há anos na mesma colecção em que surgiu agora Confiança e Medo na Cidade. Nesse livro, Lipovetsky apontava a importância da sedução e do fascínio narcisista para o crescimento da indiferença e, consequentemente, do individualismo contemporâneo. É da desagregação dos laços sociais que se trata. Nada que não mereça uma detalhada reflexão, neste tempo em que se discute o futuro da segurança social e alguns jornalistas insistem em dar importância às reuniões conventuais de uns senhores que, declarando­‑se comprometidos com o país, vêm defender precisamente o aumento da indiferença e da distância social.

DUAS BAIXAS


Primeiro o Vasco M. Barreto, depois o André Moura e Cunha. Num curto lapso ficamos sem A Memória Inventada e sem Porque. Eram moradas exigentes, e não há muitas assim. Isto não se faz.

CITAÇÃO, 47


José Pacheco Pereira sobre o Compromisso Portugal. Edit e sublinhados meus:


«Há casos em que a distinção entre “sociedade civil” e mundo político é perversa e enganadora. Um deles, evidente como um enorme reclame de néon, é o do Compromisso Portugal. A iniciativa é política até ao tutano, traduzindo a politização do nosso mundo de gestores (e em menor grau de empresários, menos representados na reunião), mas afirma parar à porta da política, quer-se dizer da política partidária, mecanismo pelo qual nas democracias se conseguem os votos para governar. [...] O resultado é uma sensação de grande irrealidade. As propostas não são novas, mas isso seria apenas uma questão mediática que em nada invalidava a sua oportunidade. A questão é outra: é que, sabendo-se o que se deseja, nenhuma resposta é dada à questão de como realizá-lo, de como chegar lá. [...] Eu também penso que há excesso de hegemonização da vida política pelos partidos e que é bom que haja outros parceiros activos na vida pública. Mas, a não ser que se queira apenas ser lobiista (e é isso o que muitos destes gestores sabem fazer bem nos meandros do poder, logo convencem-se que isso pode ser transposto para os eleitores) seria melhor usar os recursos disponíveis para intervir na sociedade civil para formar opinião. Formar opinião: invistam em think tanks, em estudos sérios, em jornais e revistas, em conferências, em ensino de excelência não apenas para as empresas mas para a actividade cívica, apoiem iniciativas modelo que mostrem a eficácia das propostas, etc, etc. [...] É um trabalho moroso e que só dá frutos a prazo, mas o único que pode ser eficaz. É que reunirem-se em fileiras cerradas, direitos e compostos, numa imagem sem qualquer modernidade e apelo, como qualquer especialista de marketing vos poderá dizer, com os jornais a divulgarem promessas com a mesma consistência das promessas eleitorais dos políticos, dá a pior das imagens e serve mal muitas das propostas com as quais concordo. Só que o mundo dos portugueses não tem a ordem asséptica das cadeiras do Beato e esse é que é o problema que o Compromisso Portugal não quer pensar, ou não sabe pensar, ou não pode pensar.»

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO


Os detractores de Elif Shafak ficaram a ver navios. Fosse porque é um homem sensato, fosse porque é sensível aos esforços do seu país em aderir à União Europeia, o facto é que um juiz de Istambul ilibou liminarmente a romancista acusada (por um grupo de advogados nacionalistas) de insulto ao carácter nacional da Turquia.

sexta-feira, Setembro 22, 2006

BIOGRAFIA MIRACULOSA


Lembram-se desta manifestação de incredulidade? Pois bem, há boas notícias. A obra desencalhou e tudo indica chegará às livrarias ainda este ano. Afinal, os blogues servem para alguma coisa.

NACIONAL & TRANSMISSÍVEL


Hoje no Público:


Não quero ser desmancha-prazeres, mas o formato e a mancha gráfica deste livro são de molde a desencorajar um estóico. O papel couché também não ajuda. Se um dia for feita uma edição de bolso, terá todas as condições para ser um sucesso. Assim como está é simplesmente impossível: não se pode ler no metropolitano, nem no avião (excepto se viajarmos em primeira classe), nem sequer no café. Um verdadeiro empecilho. A concepção artística é de Luis Miguel Castro. Dito isto, vamos ao que interessa. No preâmbulo, Eduardo Prado Coelho (n. 1944) estabelece as regras do jogo: «O objectivo deste livro consiste em tratar de um modo relativamente rápido e extremamente subjectivo um certo número de tópicos que correspondem a realidades específicas.» Tópicos tão diversos como os pastéis de nata ou Fernando Pessoa. Fio condutor, a identidade nacional, o “ser português”. Daí a saudade, as sardinhas, o fado e o senhor doutor. Por junto, vinte e dois, de desigual conseguimento, mais crónica aqui, mais ensaio acolá. Antecedente remoto, as Mythologies (1957) de Barthes. O perfil sanguíneo do bifteck é um modelo indelével: «Comer o bifteck a sangrar representa, pois, tanto uma natureza como uma moral.» Pensei em Barthes assim que comecei a ler Nacional e Transmissível. Idiossincrasias particulares? Decerto que sim. São elas a razão do texto. Eduardo Prado Coelho seriou os vinte e dois ensaios de acordo com uma hierarquia pessoal. É o lead que dá o tom. Por exemplo, para o Bairro Alto, o mote é o abismo que separava as aulas de física da adolescência do autor com a memória ondulante, e provocante, de Brigitte Bardot. Mais tarde, nos anos 1980, tudo convergia para o Frágil, onde havia «pares que iam para a casa de banho e lá se trancavam em longos períodos comprometedores.» Foi lá que, certa noite, alheio a estratégias de partouse, o filósofo Eduardo Lourenço confundiu sucessivamente Paula Guedes (a actriz) com Maria Estela Guedes (a crítica literária) e Manuela Moura Guedes (a apresentadora). O bairro serve de pretexto a uma deambulação entrecortada de memórias. Recordações da idade da prata. Tal como os cafés ou, mais apropriadamente, o hábito de ir ao café. Para estudar, namorar ou conspirar. A sua geografia tem nomes: Nuno Júdice, Luís Miguel Cintra, Gastão Cruz, outros, todos na Granfina dos anos 1960, hoje reduzida a «um deserto de mesas de estilo modernaço e hostil.» Ali, nessa esquina da rua de Entrecampos com a Avenida dos Estados Unidos, escreveu Eduardo Prado Coelho os seus primeiros textos. No Monte Carlo havia Saramago e Isabel da Nóbrega (então marido e mulher), Fernando Lopes, João César Monteiro, Carlos de Oliveira, Augusto Abelaira, Mário Dionísio, José Fernandes Fafe, tantos outros. Herberto e Ruy Belo preferiam o Toni dos Bifes. E, claro, o Vává, lugar de cultura e boémia: «cineastas, escritores, amigos, mulheres bonitas que faziam parte da fauna estudantil de Letras ou Direito.» Em São Martinho do Porto só resquícios da oligarquia desapossada com o 25 de Abril. Pequeno lapso: o Sequeira continua onde sempre esteve. A evocação de Pessoa cruza-se com as exigências da tese do pai: «E a minha própria diversidade de nomes e vozes foi estancada devido à necessidade de silêncio [...] Isto durou meses, quase um ano, eu habituei-me a murmurar as palavras com que inventava interlocutores e a fazer relatos de futebol apenas ciciados[...] As cartas da freira de Beja são outro tópico forte. Embora omita Adília Lopes, ausência desconcertante, o texto cita Nuno Júdice. Depois de lembrar o estudo de Léo Spitzer que pretendera demonstrar como só um escritor francês poderia ter escrito as Lettres portugaises de 1668, Eduardo Prado Coelho escreve: «E aqui coloca-se a grande questão: será que, se estas cartas foram escritas por um homem, e recorrem a todos os artifícios da retórica, perdem por isso a sua força e evidência? Ou não estaremos perante cartas que valem por si mesmas, emergindo do anonimato mais sombrio, e afectando-nos ainda naquilo que têm de exigência absoluta da paixão?» Precisamente, a paixão. Por ela responde um parágrafo de cortante exactidão: «Todos nós fomos abandonados, e tentámos ainda fazer amor num corpo que estava já longe e sentimos que a outra boca se desviava para o beijo que tantas vezes havíamos trocado.» Mariana Alcoforado é um expediente. Menos interessante, o item da justiça é apresentado sob a forma “a culpa morreu solteira”. [...] A marmelada é mais consensual, mesmo se a receita de Helena Sacadura Cabral se caracteriza por ser heterodoxa. A extensão semântica da palavra fornece abundantes exemplos: na época pré-collants, a última fila do cinema era um maná; mas tudo «ganhava dimensões mais épicas, quando, por exemplo, com um casal amigo, íamos para os camarotes do cinema Eden. Nessas ocasiões, penso que nem as primeiras imagens chegávamos a ver. Eram sessões de marmelada em estado puro.» Tudo bem. Este “tudo bem”, já tinha pensado atribuir-lhe as funções de uma litote? A partir da avaliação de um aluno «estúpido que nem uma porta [...] e malcriadão de primeira» temos uma demonstração eloquente. Outra muito bem apanhada é aquela em que um homem deixa a mulher porque «ela apreciava os poemas de Joaquim Pessoa e os romances de Margarida Rebelo Pinto e as canções de Roberto Carlos.» Discutem: sua pirosa, seu snob. Ela faz as malas e parte. E ele: «Por mim, tudo bem.» Estamos em pleno domínio da semioclastia. À boleia do “senhor doutor”, as fórmulas de tratamento dão azo a um dos melhores textos da colecção: «Em certos momentos a palavra com que tratamos o outro é mais do que uma solicitação ou um apelo instrumental. É uma forma de o tocar por dentro, de o penetrar até à sua solidão mais íntima, de fixar aquele ser nómada numa posse interminável. [...] E por isso as formas de tratamento variam na sua identidade e repetem-se como sinos enlouquecidos: minha paixão, minha querida, minha princesa, cachorrinha, meu amor, meu amor, meu amor.» Patamares inescapáveis. Mais haveria a dizer sobre este conjunto de «sinais, palavras, gestos, lugares, comportamentos.» Além dos citados, o elenco de tópicos inclui o mar (no caso concreto o do Guincho), o “passar pelas brasas”, o bacalhau, a roupa na janela, o vinho do Porto, o cais da Ribeira (o da Invicta), os diminutivos, as sopas, a cortiça e a mercearia. Lemos Nacional e Transmissível [ed. Guerra & Paz] como correlato de uma obra mais vasta que evoluiu de O Reino Flutuante (1972) para A Razão do Azul (2004), ou seja, como súmula de experiências de vida ao rés do senso comum.

Excerto de Na Primeira Pessoa, in MIL FOLHAS, 22-9-2006, pp. 8-9.

quinta-feira, Setembro 21, 2006

IMPORTA-SE DE REPETIR? [12]


«Novos “actores” começaram, entretanto, a mover-se na blogosfera nacional. Ana Gomes, Eduardo Prado Coelho, Luís Osório ou Vicente Jorge Silva jorram opiniões, comentários e introspecções em Causa Nossa


Cf. Blogues Portugueses in Focus. Assinada por Pedro Marques de Figueiredo, a peça faz lóbi por um blogue em particular, o que em si mesmo não tem mal. Da próxima vez, evitem citar blogues sem indicação dos seus autores. Mas o que não lembrava ao Diabo era rasurar Vital Moreira, autor de quatro quintos dos posts do Causa Nossa.

PRESTÍGIO?


Hoje, na sua crónica do Público, Eduardo Prado Coelho faz a radiografia do Sol sem nunca o referir. Às tantas, afirma: «E há uma coisa que devemos esclarecer: se excluirmos o PÚBLICO que mantém um excelente Mil Folhas quanto mais não seja por prestígio, o Expresso é o único jornal que tem um magnífico suplemento cultural, onde o espaço dedicado ao livros é significativo (e não se trata de duas páginas enfezadas sem o menor sentido). Por tudo isto, o Expresso é uma referência importante e uma presença semanal indispensável.» A gente percebe onde ele quer chegar. Sucede que ninguém mantém um jornal por mero “prestígio”. O Mil Folhas existe porque tem leitores. Ponto. Se nos lembrarmos de onde vieram, quando vieram, e em que é que se notabilizaram alguns dos fundadores do Público, percebemos a aposta do jornal.

Sobre o mesmo tema, ler o João Villalobos.

A direita existe, e ainda bem para a esquerda


Rui Ramos retomou ontem, no Público, o tema da existência ou não da direita no espectro político português. A questão fora já abordada por Pacheco Pereira (e sobre essa opinião escrevi aqui), mas o artigo de RR tem a vantagem de não se submeter a estratégias partidárias e de, pelo contrário, as expor em toda a evidência. No seu texto, intitulado «A conversa da direita», o articulista lembra que direita e esquerda são «a maneira parlamentar de compreender» a «pluralidade de opiniões» existente nas sociedades ocidentais. Assim, estas designações não «correspondem a entidades metafísicas, acima das circunstâncias», tal como «não esgotam completamente a identidade de cada indivíduo». A divisão que entre elas se estabelece é vista por RR como «uma forma de inteligibilidade» e «um sinal de civilização», porque se trata aqui de reconhecer a existência de adversários políticos, isto é, de alguém que não propõe as mesmas soluções para os problemas que vão surgindo no interior da nossa sociedade, mas que não contesta o essencial do seu funcionamento, que se reconhece nas suas características genéticas fundamentais. A esquerda e a direita democráticas são adversárias, não são inimigas. É importante que se reconheçam e se digladiem de forma clara, para que nesse confronto não se percam apoios para os sectores radicais, para as margens, onde – aí sim – se albergam os inimigos da democracia. Ora, à recusa da direita portuguesa em se reconhecer como tal, de que o artigo de Pacheco Pereira era o sinal evidente, contrapõe RR a análise da estratégia que preside a esse gesto de ocultação. Cito um parágrafo integral: «Ao contrário do PS, que sempre precisou de ser um ‘partido de esquerda’, o PSD e o CDS nunca precisaram de ser ‘partidos de direita’. O PS teve sempre à sua esquerda partidos rivais, que teriam tentado explorar a causa da ‘esquerda’, se o PS tivesse abandonado ou negligenciado essa identidade. Mas o PSD e o CDS nunca sofreram concorrência à sua direita desde o momento em que as autoridades militares, em 1974, proibiram os outros partidos dessa área. Ficaram a dispor de um eleitorado condenado a votar neles ou a abster­‑se. Os líderes das direitas puderam assim fazer algo a que os do PS nunca se atreveriam; apresentaram­‑se ao eleitorado como simples patriotas competentes, estadistas em quem todos poderiam votar independentemente de ‘ideologias’. A ‘ideologia’ era uma coisa de esquerda, como há pouco tempo deu a entender Marques Mendes, ao insinuar que o PS é vítima de ‘caprichos ideológicos’. À direita, haveria apenas bom senso».
Repostas as coisas no seus devidos termos, espero que se compreenda, de uma vez por todas, que significado tem a negação da existência da direita em Portugal, feita precisamente por quem nesse campo, afinal, se situa.

quarta-feira, Setembro 20, 2006

O MUNDO ESTÁ PERIGOSO


A escritora turca Elif Shafak (n. 1971) foi processada por uma associação de advogados turcos. Com base no art.º 301 do código penal, acusam-na de insultar o carácter nacional. Tudo por causa do seu último romance: Baba ve Piç [O Bastardo de Istambul]. Os massacres dos arménios continuam a incomodar muita gente. Apesar de se encontrar no fim da gravidez, o julgamento não foi adiado e começa já na próxima semana. O que é que leva uma mulher que nasceu em Estrasburgo, passou a adolescência em Espanha, e lecciona (é cientista social) na Universidade do Arizona, a viver na Turquia?

BAIRRO ALTO, 10


Sem premeditação, este post do passado dia 10 deu origem à série Bairro Alto, alimentada com contribuições de inúmeros bloggers, grande parte delas aqui transcritas. Assinalou também a chegada deste blogue à imprensa gratuita: no passado dia 12, o jornal METRO publicou um excerto do texto. Hoje, o METRO volta ao local do crime em forma de reportagem assinada por Bruno Martins, um dos editores da secção Lisboa. O subtítulo é eloquente: Autarquia recolhe, em três noites, cerca de 18 toneladas de resíduos.


Brevíssima citação: «[...] O fim-de-semana neste bairro típico da capital é, por norma, um período de grande produção de resíduos, sobretudo na zona dos bares. Na Rua Diário de Notícias, [a rua citada no meu texto] uma das mais cheias, são muitos os copos de cerveja no chão ao fim da noite. As imperiais a um euro da Tasca do Chico e, logo em frente, do Palpita-me não dão descanso aos funcionários municipais. [...]»


Ouvido pelo jornal, Pedro Amaro, assessor do vereador de Higiene Urbana e Resíduos Sólidos, explicou a logística que envolve a limpeza do bairro: lavagem das ruas (aos domingos), remoção de resíduos de origem diversa (cerca de oito metros cúbicos todos os dias), recolha diária de lixo porta-a-porta, etc. Dois apontamentos: 1. a degradação do edificado é tal que este esforço não se nota (em todo o caso, lavar as ruas uma vez por semana é um pró-forma para, julgo eu, justificar serviço); 2. para alguma coisa serviu a série aqui publicada.

terça-feira, Setembro 19, 2006

O NOVO PGR


A nomeação, para o cargo de Procurador-Geral da República, do juiz-conselheiro Fernando José Matos Pinto Monteiro, tornada pública hoje ao fim da tarde, vai desapontar os sectores que apostaram tudo na contaminação do seu nome, atribuindo-lhe uma hipotética filiação (desmentida pelo próprio) à maçonaria. Para já, é de reter o facto de Pinto Monteiro ter desafinado do coro que se levantou contra as reformas na Justiça.

LER OS OUTROS


Sobre regionalização e futebol, o João Gonçalves tirou-me as palavras da boca:


«[...] Depois, eu não discuto as qualidades pessoais e de dirigente desportivo do sr. Pinto da Costa. Consta que é um homem interessante e que sabe poesia e alemão. Todavia não é como pessoa que o avalio, mas enquanto personalidade mediática. E a partir do momento em que Pinto da Costa defende a regionalização, eu oponho-me de imediato, como me opus activamente em 1998 e o farei de novo as vezes que foram precisas. A ele ou a qualquer outro “regionalista”, independentemente do partido ou clube de caça a que pertençam. Um país do tamanho deste, que tem como exemplo de “desconcentração” as inúmeras comissões e direcções regionais e distritais que apenas servem para dar lugares às nomenclaturas que vêm frequentemente a Lisboa receber ordens e ajudas de custo, ou que tem como exemplo de “descentralização” e de “reforço da autonomia local” o magnífico parque autárquico, não precisa de mais “entidades intermédias” para nada. E, sim, horroriza-me pensar que o ingénuo municipalismo de Alexandre Herculano tenha sido verdadeiramente prostituído pela deriva “chico-espertista” de muitos eleitos que nem sequer se dão ao trabalho de disfarçar a sua venalidade. [...]»


Fernanda Câncio sobre o assunto do costume. Insistir é preciso:


«[...] nem todas as pessoas que amam alguém do mesmo sexo têm vinte anos e boa cara para viver tragédias. nem todas as pessoas que amam alguém do mesmo sexo são do BE e usam missangas e tatuagens e piercings. algumas têm sessenta anos, setenta, e medo de tudo aquilo de que se tem medo toda a vida e mais, muito mais, nessa altura. algumas têm idade para ser pais e avós dos idiotas que andam para aí a dar porrada em pessoas porque lhes parecem 'paneleiros' (leiam o dn de terça, quer dizer, hoje). algumas já não têm tempo para esperar por que todas as questões 'prioritárias' da sociedade portuguesa lhes passem à frente


José Pacheco Pereira sobre o novo livro de John Sutherland, How To Read A Novel.


Recordação, por Masson, de uma entrevista dada por Miguel Sousa Tavares à revista Kapa, em Maio de 1991.


Reflexão de Rui Bebiano sobre a controvérsia de Ratisbona.

BAIRRO ALTO, 9


Tomás Vasques, ascensão e queda do bairro:


«Vivi quase vinte anos à boca do Bairro Alto, antes de me mudar há 3 anos para a Rua de S. Bento. Bebia, então, diariamente, a primeira cerveja no Pavilhão, antes de ir jantar ao D. Pedro V. Depois, todos os sítios e todas as ruas eram o meu poiso. Ainda no tempo do Arroz Doce, transformado mais tarde no Pontapé na Cona. Acompanhei a ascensão e a queda do “bairro” e fico espantado que só agora se dê por isso. Até o meu filho, cuja adolescência se fez no “bairro” me diz há muito tempo: O Bairro? oh pai aquilo está uma grande merda

segunda-feira, Setembro 18, 2006

BAIRRO ALTO, 8


Miss Pearls ainda mal refeita de um jantar no Thai Tanic de Belfast:


«[...] Tenho pena de não ter acompanhado a discussão sobre o Bairro Alto. [...] O Bairro Alto é uma chungaria e um mete-nojo. Mas também sei que muitos dos proprietários de lojas e de restaurantes fazem o que podem junto de quem manda para pôr ordem naquela selvajaria urbana. Espero que não desistam e agradeço-lhes o empenhamento. Aquilo tudo é uma pena. Uma tristeza.»
Contraditório: foto de Francisco Bairrão.

BAIRRO ALTO, 7


Francis C. Afonso em clave demolidora. Eu percebo, depois da Itália não é pêra doce...


«[...] Chego tarde ao assunto. [...] todos falam do Bairro Alto e da sua decadência. Saudosismo ou realidade? Who cares? Gabo-lhes a coragem. Falar do Bairro Alto só devia ser permitido com autorização conjunta da Direcção Geral de Saúde e da de Veterinária. O assunto exige máscara e luvas cirúrgicas. De bordel infecto a galinheiro de dealers foi uma passinha. Está pior? Está o esterco que sempre foi. O kasbah da delinquência, do parasitismo e da escumalha.»
Contraditório: foto de Francisco Bairrão.

domingo, Setembro 17, 2006

CITAÇÃO, 46


Joaquim Manuel Magalhães, excerto final de Meditação causada por um livro, texto publicado ontem no Expresso. Sublinhados meus:


«[...] Dois homossexuais que tenham vivido, por exemplo, há mais de quarenta anos uma vida em comum (como acontece comigo) que direitos práticos têm hoje neste país? Nenhuns. Dois homossexuais que pretendam defender o seu amor que começa e ir com ele até ao fim das suas vidas que perspectiva têm? Talvez só a de o acaso os não separar por imperativos de emprego ou de outra natureza corrente qualquer.

Do ponto de vista de um homossexual conservador, a solução, mas solidamente instituída, que se deseja é a do casamento. Acredita-se no valor de uma instituição do Estado de direito, está-se disposto a seguir todas as suas cláusulas, tanto para o desfecho feliz como para o infeliz. Dentro desses limites, sabe-se que tudo o que se projecta como vida pode ser investido em comum e terá que ser dividido, em caso de falha, também em comum. Os mais novos tentarão escapar à solicitação de uma vida com um rumo sexual ligado aos encontros ocasionais, estarão atentos à possibilidade de encontrar alguém a quem se queiram o mais definitivamente possível entregar, procurarão integrar-se nas suas próprias famílias de origem, podem aceder a um equilíbrio que, se não é o paraíso como quase todos sabem, é pelo menos algo que traz estruturação e necessidade de profundo respeito mútuo, segundo as coordenadas que cada casal define para si. Os mais velhos (há sempre entre duas pessoas uma que vive em maior facilidade económica do que outra) poderão passar a aguardar a morte com a tranquilidade de várias coisas: quem dispõe na doença e no falecimento do corpo do outro é aquele que com ele sempre viveu; os bens que poderão ter sido adquiridos em conjunto ao longo da vida são inevitavelmente do sobrevivo, sem necessidade da extorsão de direitos sucessórios sobre um cadáver que foi amado e visto como se nenhum elo existisse entre esses dois seres; a confiança de que se sobreviver o economicamente mais débil terá direito à sempre tão necessária pensão de sobrevivência.

Tendo passado a não haver objecção a nada do que diz respeito à homossexualidade por parte dos saberes científicos hoje conhecidos, parece permanecer uma fobia apenas entre vários legisladores (esquecendo-se eles de que ninguém está a falar de leis divinas, mas de leis humanas para regular o equilibrado funcionamento da sociedade realmente existente). Ainda que também tenha entreouvido uma resistência profundamente injusta e desapiedada num sector financeiro: o dinheiro que poderia custar à Segurança Social as pensões de sobrevivência. Isto é, financeiramente seria necessário condenar para poupar.

Este assunto, porém, aqui só aflorado e em nome da reconciliação e da decência de que falava José Cutileiro, não deveria ser resolvido senão muito seguramente, para que não “estale” esse verniz com que outros “vão à ópera”. Em Portugal era necessário que não se pensasse que este assunto é uma questão da esquerda ou um intuito de rompimento do tecido social. Não é. (Um ano após a possibilidade dos casamentos entre homossexuais, em Espanha, no cômputo da totalidade de todos os casamentos realizados, os entre homossexuais mantiveram-se no âmbito dos zero vírgula poucos por cento, como aliás seria de prever em termos estatísticos.)

A homossexualidade foi tão perseguida pelas ditaduras de direita como pelas de esquerda. Nas democracias há homossexuais de todas as tendências políticas. Entre nós, muitos não se sentem confortáveis com a defesa dos seus direitos apenas pelos partidos que já avançaram com propostas positivas, mas que não fomentam um apoio que necessita de ser muito mais alargado. As vozes que surgem de sectores partidários que ainda temem estas questões deveriam ajudar esses próprios sectores a encontrar um equilíbrio para um mais justo regulamento da cidadania. O próprio Presidente da República não manifestou fechamento quando respondeu a uma pergunta sobre esta matéria no seu período de campanha eleitoral. Em concreto, sem a direita do PS e, dando motivo a mais preocupação, sem o aceitamento do PSD (onde figuras significativas têm manifestado o seu reconhecimento da importância de corrigir esta situação), somente poderão produzir-se conteúdos jurídicos esvaziados de efeitos práticos e, o que muito importa, permanentes. É mesmo plausível que múltiplos apoiantes do CDS-PP lhe agradecessem o ter contribuído para resolver a ordenação da sua vida. Pois é de ordem que se trata.
E tudo estritamente no plano civil.»

UMA VERDADE INCONVENIENTE


A derrota eleitoral do sr. Al Gore não me perturbou especialmente excepto na parte que indicia chapelada. Mas a lei eleitoral americana é o que é, os juízes do Supremo eram os que eram, e ninguém tinha a exacta noção das consequências do que vinha a seguir. Por contraponto com Clinton, o low profile do homem não suscita grande entusiasmo. Sucede que Al Gore, o ambientalista, passou a filme o resultado das suas (e nossas) preocupações. Uma Verdade Inconveniente é mais do que um documentário tecnicamente perfeito. São 100 minutos de alerta que deviam ser de exibição obrigatória nas escolas do ensino preparatório, secundário e superior. Ora aí está um exemplo de apoio estatal que faria sentido: obter cópias do filme para difusão em larga escala junto da população escolar. Uma vaquinha entre os ministérios da Ciência, do Ambiente, da Educação e da Cultura seria muito bem-vinda. A propósito: quem foram as luminárias que classificaram Uma Verdade Inconveniente para maiores de 16 anos?

sábado, Setembro 16, 2006

QUANDO NASCE É PARA TODOS


Perguntam-me o que acho do Sol. Para já, não acho nem deixo de achar. Tem um preço sensato, isso sim. Mas não se pode avaliar um jornal por um único número. Todavia, se, daqui a um ano, mantiver o mesmo perfil, pode-se dizer que os queques ganharam o seu tablóide. Isto não é um juízo de valor. É uma constatação. As páginas de Cultura, como direi?, bem, é melhor não dizer nada. A coluna do professor chama-se BLOGUE. É todo um programa. Ah, a revista! Essa parece-me menos CM do que o caderno principal.

O FESTIVAL


Começou ontem o 10.º Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa. Até ao próximo dia 24 serão exibidos 114 filmes, entre longas-metragens (30), curtas (50) e documentários (34). As sessões decorrem nos cinemas São Jorge e Quarteto e também no auditório do Instituto Franco-Português. Entre outras coisas, oportunidade para ver uma retrospectiva do cinema LGBT espanhol. Pode ser que seja distracção minha, mas não vi, nem ontem, nem hoje, na imprensa dita de referência, qualquer alusão a um festival que vai na sua décima edição e conta com os mais variados apoios institucionais e privados. Desinteresse dos media ou desleixo da organização? Não se pode ficar sentado à espera da montanha. É preciso ir ter com a montanha e explicar tudo muito bem explicado. Não chega avisar a malta. Qualquer que seja o ângulo de observação, a clubite é sempre sintoma de provincianismo. O festival não pode ser uma espécie de Open do Estoril do outro lado. Reproduzir o espírito de casta do activismo straight não leva a lado nenhum.
Adenda às 14:40h. Informa-me Maria João Caetano que o [do DN] referiu o festival. Não vi. O não tem edição online.

sexta-feira, Setembro 15, 2006

BAIRRO ALTO, 6


Fernanda Câncio entra na liça com humor e hot pants. E sim, eu sei que o livro — ó p'ra ele ali na prateleira dos coffee-table books — se chama A Idade da Prata. Por isso mesmo, quando falei de geração de prata, omiti a caixa alta e o negrito. Sempre dá para meter mais gente do que aquela que coube no álbum do Mário Cabrita Gil.


«[...] concordo com os joões, gonçalves e villalobos, e com o eduardo pitta: as ruas estão com péssimo aspecto, cada vez mais riscadas por gente que acha que aquela poluição é graffiti e arte e expressão de liberdade e mais não sei o quê quando é só mesmo um nojo. concordo que as calçadas dão a ideia de não verem uma mangueira e uma escova há anos e que o conjunto geral não é atraente. mas, tendo começado a frequentar o bairro alto no início dos anos 80, não recordo um lugar muito mais asseado — à excepção do estado das paredes. quanto ao resto — quem lá está e quem lá anda — parece-me evidente que quem tem agora 40 ou mais anos (como é o meu caso) tenderá a justapor a memória dos seus “anos de ouro” ao cenário em que eles decorreram e soçobrar um bocadinho à melancolia. [...] e eu sorri. mas um dos problemas, se calhar, é que hoje, quando passamos no bairro alto a caminho do casa nostra ou do pap'açorda, nos sentimos um bocado menos vivos que a memória que temos de nós, há 20 anos, de cabelo em pé espetado com sabão e hot pants e meias de rede e saltos agulha rumo ao frágil [...] ok, nós fomos os primeiros, fizemos história (que por acaso está por contar). mas não ficou para nós nenhum tapete vermelho, e vénias, só as de cada um para si (muito saudáveis). ah, e o livro, eduardo, é a idade da prata e não a geração de prata

OS NEGROS


Estreia hoje no Teatro São João, do Porto, uma das mais controvertidas obras de Genet: Os Negros, em encenação de Rogério de Carvalho. Por encomenda do teatro, Armando Silva Carvalho traduziu. Este texto não é o mesmo da versão representada em 1986. É outro texto. Hoje, no Público, Inês Nadais fala da peça, dos actores (todos negros, uns residentes em Portugal, outros vindos de Moçambique), das idiossincrasias de Genet, do encenador, da encenação, etc. Só não fala do texto traduzido. A ficha técnica também omite o nome do tradutor. A mim faz-me sempre muita confusão ler recensões literárias de textos estrangeiros que omitem o nome de quem traduziu. Infelizmente vê-se com frequência, como se Joyce Carol Oates ou Nick Hornby escrevessem directamente em português. Por outro lado, algumas traduções recentes (i.e., dos últimos três anos) transformaram os seus autores em estrelas mediáticas. O ideal era arranjar um meio termo. Eu não gosto particularmente de Genet, mas estas coisas não devem andar ao sabor dos nossos humores. Em certa medida, Genet é um “clássico”. O contexto anticolonial e as relações de poder fazem d'Os Negros um texto paradigmático. Nenhum dos 13 actores do elenco vai dar as deixas em francês. Para o bem e para o mal, a partir de hoje, Os Negros têm lugar na nossa literatura. Se, como reconhece o encenador, «o texto de Genet é riquíssimo», é porque essa “riqueza” foi acautelada na língua de chegada. Afinal de contas, Armando Silva Carvalho (n. 1938), poeta, ficcionista e tradutor de Beckett, Mallarmé, Duras, Cèsaire, Voznessenski e outros, não traduziu uma bula de paracetamol.

ORIANA FALLACI 1929-2006


Um cancro levou-a na última madrugada. Ainda há jornalistas destes?

MANUEL PUIG


Hoje no Público.


Quando Hector Babenco passou ao cinema O Beijo da Mulher Aranha, o filme que deu o óscar a William Hurt, a obra do escritor argentino Manuel Puig (1932-1990) atingiu novos públicos. O filme é de 1985, mas o romance vinha já de 1976, do exílio mexicano do autor. Puig foi forçado a sair da Argentina assim que os justicialistas de Perón voltaram ao poder na sequência das eleições de 1973. Na dialéctica que opõe o homossexual Molina ao esquerdista Valentín, o romance estabelece sólidos nexos de causalidade entre resistência política e transgressão sexual. Não admira que marque o início da homotextualidade latino-americana, linha de fronteira hoje consensual. O Beijo da Mulher Aranha projectou a imagem de Puig em todo o mundo, fazendo luz sobre sobre os três livros anteriores: A Traição de Rita Hayworth (1968), Boquitas Pintadas (1969) e The Buenos Aires Affair (1973), assim mesmo, com o título grafado em inglês onde quer que seja editado. O primeiro, misturando materiais tão diversos como fragmentos de novelas radiofónicas, diários íntimos, textos burocráticos, redacções escolares e conversas ao telefone, deu notícia de um escritor genuíno. A Traição de Rita Hayworth é parte do cânone da literatura de língua castelhana do século XX. O segundo chega agora à edição portuguesa. É a história de um jovem tísico e da sociedade hipócrita que o viu crescer e morrer: «O desaparecimento do senhor Juan Carlos Etchepare, ocorrido no passado dia 18 de Abril, com apenas vinte e nove anos de idade, depois de suportar as agruras de uma prolongada doença, provocou nesta terra, da qual o falecido era um filho querido...» Por razões que nos escapam, Boquitas Pintadas tornou-se o mais famoso romance do autor, e já era assim quando Leopoldo Torre Nilsson o adaptou ao cinema. O terceiro irritou profundamente os sequazes de Héctor Cámpora, precipitando a partida de Puig para o México. Tudo isto antecedeu O Beijo... Depois escreveu mais cinco romances (embora só os primeiros quatro tenham sido publicados, uma vez que a morte deixou o último por acabar) e quatro peças de teatro. Boquitas Pintadas está construído como um folhetim em que cada episódio abre com versos de tangos. As epígrafes sinalizam as “entregas”. Entregas de cartas, entenda-se. É por elas — pela voz de terceiros — que seguimos o fio da vida do protagonista. Não, Laclos não é para aqui chamado. Mesmo em deriva proletária seria abusivo trazê-lo à colação, realmente não é disso que se trata, ou só na peculiar especificidade do romance epistolar, e mesmo esse, neste caso, pontuado de entreactos narrativos: «À mesa, diante dela, um rapazinho preenche prolixamente quatro linhas do seu caderno com a palavra miau e quatro linhas com a palavra auau. Entre as pernas da mesa e das cadeiras outro rapazinho procura um pequeno brinquedo com a forma de um automóvel de corrida.» E assim, sem ter de renunciar às experiências estilísticas que marcam a obra desde o início, Puig intenta criar uma forma nova de literatura popular. Distante do comprometimento político dos livros que escreveu mais tarde, as desventuras de Juan Carlos, na Buenos Aires de 1934 — um cenário de tango, amor e morte —, dão corpo às dolências de Alfredo Le Pera, Luis Rubinstein, Homero Manzi e Agustín Lara. Além do próprio Juan Carlos, outros, como Nélida Fernández de Massa, mais conhecida por Nené, Juan José Malbrán e Leonor Saldívar de Etchepare [...] narram os eventos à maneira do Rousseau de La Nouvelle Heloïse, isto é, segundo o modelo da narração intercalada. Por seu intermédio acompanhamos o fluir das emoções e dos acidentes biográficos. [...] Puig não integra a genealogia do realismo fantástico. A sua escrita é o oposto de Cortázar ou Carpentier. Nenhuma pirotecnia verbal no relato do quotidiano: «No referido 27 de Janeiro de 1938, fazendo um intervalo na azáfama do dia, Antonia Josefa Ramírez, às 23:30 horas, descansava numa maca da Sala de Partos do Hospital Regional da Circunscrição de Coronel Vallejos. Tinha sido transportada de urgência uma hora antes [...] Qual era nesse momento o seu maior desejo? / Nesse nomento o seu maior desejo era que a criança nascesse saudável. / Qual era nesse momento o seu maior receio? / Nesse momento o seu maior receio era que o Pancho voltasse e a repudiasse a ela e à criança.» A limpidez da prosa acentua a turbulência da intriga, com o seu cortejo de interditos, traições e dissimulações. O retrato de época sobressai nítido nos costumes, anedotário, notas marginais (filmes de Dolores Del Rio ou Katharine Hepburn), descrição de tipos humanos, até no desamparo da grande cidade [...] Essa Buenos Aires que ele tanto amou, Puig preferiu trocá-la pela diáspora: primeiro o México, depois Nova Iorque, a Nova Iorque “dos Invernos tremendos e dos Verões insanos” (como referiu numa entrevista de 1986) de onde partiu quando Reagan chegou, por fim o Brasil, que o acolheu sem reticências. Acrescentar quanto a fluência da tradução de Salvato Telles de Menezes contribui para o prazer do texto.


Excerto de Jogo de Espelhos, in MIL FOLHAS, 15-9-2006, p. 8.

quinta-feira, Setembro 14, 2006

FAKE


Alguém refere: fulano e beltrano (dois académicos irreverentes com experiência na bloga) fizeram o blogue X, mas assinam com nick. À partida, a fonte é credível. Tomo-a como boa. Primeiro erro: não me dou ao trabalho de confirmar. O anonimato desagrada-me, mas o «peso» dos nomes referidos leva-me a augurar sucesso. A pressa é má conselheira. Ninguém é perfeito.