Domingo, Abril 30, 2006

Caminhos da literatura


Foi no final de 2005 que Silvina Rodrigues Lopes publicou, na Vendaval, o volume intitulado A Anomalia Poética. É um conjunto de ensaios pela primeira vez reunidos em livro, com proveniências distintas, desde uma lição universitária até textos editados originalmente em revistas de índole mais ou menos literária ou num catálogo de pintura (sobre a revista Intervalo e sobre o último ensaio deste volume, já escrevi no blogue). Servem para se constatar alguns traços que unificam o pensamento da autora e para incitar a uma reflexão em sentido contrário a uma boa parte das tendências actuais em matéria literária ou editorial. O livro divide­‑se em três partes, «Ficção e Testemunho», «O Artifício e a Técnica» e «Valor», cujos princípios unificadores são explicitados pela autora numa breve apresentação: «Há no fundo comum aos vários textos a ideia de que a cada obra corresponde uma potência de percepção/expressão, pela qual subtrair­‑se a qualquer lei é afirmar sem garantia prévia, afirmar o que tem a força de interromper os discursos identitários e que, como tal, só pode ser um gesto sem autoridade, fragmentário, de criação do múltiplo irredutível» (p. 7).
O propósito é o da afirmação da singularidade de cada obra de arte, inerente às suas circunstâncias, o que deve implicar uma clara recusa da tendência dominante de tudo universalizar. Daqui deriva, em primeiro lugar, um questionamento da ficcionalidade como constituinte do discurso literário, na medida em que aquela seria responsável pela tal universalidade indesejada. Esclareça­‑se que o alcance desta ideia não é, por exemplo, o de subvalorizar o romance enquanto forma literária, como se verá mais adiante. O problema é antes o dos discursos que, segundo SRL, visam conter e negar os efeitos da literatura. No primeiro ensaio do livro, intitulado precisamente «Literatura e Circunstância», a autora lembra que remeter a literatura «para a categoria da ficção ou da representação pode ser um dos modos de a neutralizar, seja porque isso corresponda a remetê­‑la para um estatuto de diversão, seja porque assim se lhe confere uma função que vai ao encontro de um desejo de controlo da multiplicidade pela imposição de modelos, que são sempre totalizadores, mesmo quando minoritários» (pp. 14-15).
Submetida à condição de se libertar dos modelos generalizáveis, a função da literatura, enquanto arte verbal, consiste em apresentar a especificidade do ser humano, aquilo que não pode ser mostrado de nenhuma outra forma, e que, por isso mesmo, não aceita a reconversão em qualquer outro tipo de linguagem. Nas palavras da ensaísta, trata­‑se de «uma das radicais maneiras de desfixar o imaginário, isto é, de desfazer as fórmulas susceptíveis de produzir imagens verosímeis, manipuláveis e reduzíveis a um valor de troca» (p. 18). O conceito de literatura, ou de arte, que aqui se evidencia é o que pode dar conta da complexidade do ser humano, o que é expressão dos seus múltiplos conflitos, mas que não pretende resolvê­‑los, pois isso seria o mesmo que enquadrar­‑se na lógica de um processo adaptativo.
Ora, em relação ao romance como forma literária, o que a dimensão problemática deste conceito vem sublinhar é a imperiosa necessidade de ele se configurar «contra a linearidade cronológica das histórias contadas, na medida em que esta impõe uma ordem à multiplicidade inesgotável da experiência» (p. 21). Explicitar uma visão fragmentária do mundo torna­‑se condição essencial da possibilidade de escrever hoje um romance que, como diria Kundera, não caia no exterior da sua História. Também por isso, o que estará, então, em causa já não será a maior ou menor adequação ao universo exterior da narrativa, pois este conceito pressupõe outra leitura da verosimilhança. SRL explicita­‑a no ensaio seguinte, «A Literatura no Limite da Ficção», ao lembrar que a «narrativa que recusa a verosimilhança enquanto semelhança com o exterior não é por isso mais arbitrária do que a que se pretende verosímil», pois «ambas possuem uma determinação finalista». A sua diferença reside no facto de a segunda exibir «uma motivação que oculta a ficcionalidade dos seus elementos sob a máscara da determinação causal, enquanto aquela que não reivindica verosimilhança se expõe como funcionalidade, podendo sempre o leitor reconduzi­‑la ao verosímil». O mesmo seria dizer que «a ficcionalidade da narrativa depende da sua organização interna e não de qualquer semelhança com o exterior», de acordo, aliás, com Aristóteles, que considerava «mais importante na tragédia o ser crível do que o ser possível.» (p. 57).
A dimensão de tragédia associada ao romance serve para esclarecer algumas das linhas orientadoras de uma caminho possível para a arte contemporânea que não queira abdicar dessa função insubstituível de apresentar a singularidade do ser humano. Também a mim, para usar os termos do Luís Mourão, «uma história bem contada, em literatura, não me interessa nada», também eu encaro isso como uma perda de tempo, e não sei sequer se no cinema o plot me basta, por mais inteligente que o filme possa ser. Procuro antes a obra que exponha um traço da especificidade humana, e este será tanto mais importante quanto a sociedade em que vivo procure ocultá­‑lo. O lado trágico significa aqui a inelutabilidade da dor e da morte, mas sem qualquer tipo de síntese que resolva a conflitualidade e imponha uma redenção conciliatória, a qual não seria senão uma falsidade inadmissível.

ATLÂNTICO II


Faz hoje precisamente um ano escrevi sobre o n.º 2 da Atlântico, então dirigida por Helena Matos. Entretanto, sob direcção de Paulo Pinto Mascarenhas, a revista entrou numa nova fase. O n.º 14 saiu agora. Mudou o quê? O inenarrável Kitsch da bonecada (de José Pedro Abreu, Lucy Pepper e Fernando Martins) continua um estorvo. A contribuição de Pedro Ferraz da Costa é com certeza adequada para um congresso partidário, mas ninguém compra revistas para ler relatórios. O arrevesado lettering dos títulos encarnados das colunas “Deste mundo e do Outro” desafia a nossa imaginação. E presumo que a forma verbal “levaria-o” seja uma inovação da esquerda liberal (que a direita liberal, por maldade, deixou passar). O problema das publicações em circuito fechado é o efeito de repetição. A esquerda fez algumas tentativas e não foi a lado nenhum. Lembram-se da revista Contraste e do semanário , dois títulos do Miguel Portas pré-bloquista? Num país sem hábitos de leitura e défice de cultura ideológica, à esquerda como à direita (mais aqui do que ali), o jornalismo de ideias é um risco. A Opção, que era a Opção, e tinha o Artur Portela dos seventies, o d’A Funda, e ao lado dele a nata da época, mesmo essa, com um grafismo irrepreensível, soçobrou (era curto fazer uma revista para os frequentadores do Procópio). Hoje, as mil ou duas mil pessoas que gastam dinheiro em revistas “sérias”, assinam a Economist ou a Vanity Fair. Dito isto, é preciso acrescentar que, nos diferentes registos das prosas respectivas, Alexandre Soares Silva, Carla Hilário Quevedo, Fernando Sobral, Francisco Mendes da Silva, Francisco Trigo de Abreu, João Marques de Almeida, João Luiz Neves, João Pereira Coutinho, Maria de Fátima Bonifácio, Maria Filomena Mónica, Paulo Tunhas (muito boa a evocação de Fernando Gil), Pedro Lomba, Ricardo Gross e Vasco Rato, justificam duas horas de leitura. Dizer ainda que a revista afunilou entre a primeira fase e a actual.

Sábado, Abril 29, 2006

COMBATER A EXCLUSÃO


Ontem, no Expresso da Meia Noite da SIC-Notícias, uma senhora que imita o accent de Helena Matos, o padre Melícias, o patrão dos patrões e Luís Salgado Matos, peroraram sobre o combate à exclusão. O ponto de partida terá sido o discurso de Cavaco no 25 de Abril. Com excepção de Luís Salgado Matos, que tentou (sem sucesso) introduzir um módico de ironia e distanciação, o autismo era geral. Os convidados de Ricardo Costa falavam de um Portugal que acabou há muito, dando exemplos de um paternalismo que já era insustentável no marcelismo. Como é que Francisco van Zeller, que esteve sempre lá no topo, sabe que as suas empresas empregaram drogados e outros excluídos? Isto para já não falar das raparigas solteiras (dos USA) que engravidam para obter apoio monoparental. Em que mundo vive esta gente?

Sexta-feira, Abril 28, 2006

Desgraça


Compreendo que possa ser desgraça grande essa, afinal, a de as pessoas se reformarem!
Mas maior desgraça será a de, por cada vez que alguém se deva afastar de um cargo, organizar um baixo-assinado catita para instrumentalizar o sistema para satisfação de uma qualquer gula de poder.
Vivo muito longe da Cinemateca, e o mais que usufruo dela passa pela conservação das películas que, por vezes, tem a bondade de ceder para projecção cá em cima. Gosto de imaginar que a Cinemateca pode desempenhar um papel maior, organizando ou envolvendo-se decisivamente em mostras que me permitam de facto a comparência, sem o sacrifício de percorrer os mais de 300km da A1, suportando os custos que isso implica (ir ao cinema por 150 euros, no mínimo, ainda que para ver Richard Fleisher, convenhamos que não é para todos os dias).
Posso acreditar que, por esta distância, tenha visto menos o esplendor do trabalho do actual director. Posso acreditar que tenha tido um excelente desempenho, mas acredito mais ainda que não saber passar a pasta, ajuizar o fim do mundo depois da perda do poder que nos foi temporariamente atribuído, retira a excelência a qualquer um.
Se um baixo-assinado funciona para que alguém não saia de um cargo, será que funciona para que se atribua um cargo a quem não o tem? É que fiz uns quantos amigos importantes e, como não tenho onde cair morto, estou seguro de conseguir umas quantas assinaturas eloquentes propondo um lugar bem escolhido para a minha pessoa. Com jeito, não arranjo niguém dos repugnantes Óscares, mas posso conseguir alguém dos igualmente repugnantes Grammys.
Eduardo, estou contigo nesta e não abro.

HISTÓRIA VS COMPANION


Sábado passado publiquei no Mil Folhas uma recensão crítica de Born to be Gay. A History of Homosexuality (2004) de William Naphy. Comecei por referir que o título pode induzir em erro, uma vez que, dando de barato o sentido filológico — nascido para ser feliz —, potenciais compradores são levados a supor que a obra disseca a história do movimento gay pós-Stonewall. Erro crasso. No prólogo, o autor avisa: «A intenção deste livro é ser uma história das actividades homossexuais em todo o mundo. Não será uma história da homosexualidade ocidental com algumas alusões ao resto do mundo. Consequentemente, existe aqui muita história desconhecida da maior parte dos leitores ocidentais.» O grande mérito do livro de Naphy (Edições 70) é justamente o tour d’horizon sobre realidades tão diferentes como foram as civilizações grega e romana, o Islão, o Ocidente antes e depois da Cristianização, o Renascimento, os séculos XVIII e XIX, o colonialismo europeu, os últimos cem anos, o papel das religiões, a evolução do quadro jurídico que tem regulado as relações entre pessoas do mesmo sexo, etc., tudo isso sem esquecer idiossincrasias árabes, hispânicas e africanas, bem como “fenómenos” antropológicos em países tão diferentes como o Brasil e a China, a Índia e o Japão, os Estados Unidos ou Angola, além dos inevitáveis escorços biográficos de personalidades históricas ou artísticas. Pode-se dizer que o autor, director da Faculdade de Teologia, História e Filosofia da Universidade de Aberdeen, faz jus, numa escrita fluente, informada e fundamentada, aos seus créditos académicos. Vem isto a propósito de uma obra “similar”, acabada de chegar às livrarias: Os Gays na História (2005) de Paul Tournier. No prólogo, o autor esclarece: «Esta obra não pretende ser uma história da homossexualidade, tenta apenas descrever a constante presença de personagens homossexuais ao longo da história.» Há mesmo uma listagem da qual constam dois portugueses, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães (o resto não é surpresa: de Barnabé a Lawrence da Arábia, e de Alcibíades a Robin dos Bosques, mais umas dezenas, estamos no domínio do óbvio). Nunca tinha ouvido falar de Paul Tournier, historiador e jornalista, que publica a partir de Barcelona. Traduzido do castelhano, Os Gays na História (Editorial Estampa) é profusamente ilustrado — Born to be Gay tem apenas um discreto portfolio de oito páginas com imagens —, inclui caixas com citações, e a sua estrutura corresponde à de um companion light de factos e personagens históricos, de Gilgamesh a Rock Hudson, sem esquecer, naturalmente, Edgar Hoover e Joseph McCarthy. A Revolução Francesa fornece exemplos tórridos, como seja a ligação homossexual de Robespierre com Saint-Just e, pelo meio, o assassinato de Marat. Estamos a falar de livros de perfil diferente, embora ambos tragam no título o adjectivo gay. William Naphy (n. 1954) faz uma análise da História a partir do ascendente do monoteísmo sobre as tradições politeístas, e de como essa intromissão tem condicionado a homossexualidade ao longo dos séculos. Paul Tournier (n. 1951) limita-se a um interessante patchwork de casos, sem preocupação hermenêutica implicada. Não será por isso que a leitura perde interesse.

Quinta-feira, Abril 27, 2006

VERGONHA


De excepção em excepção regredimos ao pântano. Lembram-se da Lei n.º 19/2002, de 31 de Julho? Sampaio promulgou. O país civilizado assobiou para o lado. É verdade que Barrancos fica longe e que por enquanto não há touros de morte na Barata Salgueiro. Mas, por este andar, a Cinemateca fica equiparada. A um governo que vai a reboque de abaixo-assinados chama-se o quê?

A cadeira do presidente


A já célebre frase de João Bénard da Costa sobre o realizador Richard Fleischer («E não acredito que haja nunca um ciclo Fleischer, porque o único que o podia organizar – modéstia à parte, ou não desfazendo, como preferirem – está a três meses de ser abatido ao activo, em tempo que a faca e o queijo se juntaram em boas mãos») é bem significativa de uma atitude que Augusto M. Seabra define hoje, no Público, como «après lui, le déluge». Para lá dos méritos de quem a profira, uma tal declaração é também uma afirmação de desconfiança absoluta na capacidade alheia, que só pode ler lida, pela projecção no futuro que pressupõe, como um sinal de enquistamento mental ou de megalomania faraónica. É assim que se compreendem os comportamentos centralizadores da Cinemateca Portuguesa, rigorosamente descritos no texto de Seabra. Com a devida vénia, passo a citar: «Se será sempre muito difícil suceder a tão carismática personalidade, a dificuldade foi acrescida pelo modo como ele semeou o deserto à sua volta. Desde Maio de 2003 que não há responsável do departamento de Programação (é o próprio Bénard quem exerce o pelouro), e em Outubro passado, depois de não se ter efectivado em Maio a substituição que era das regras, a Cinemateca ficou mesmo sem vice­‑presidentes, pela demissão de José Manuel Costa e pela reforma antecipada de Rui Santana Brito». E continua, com mais gravidade: «Que a instituição se chame Cinemateca Portuguesa é mesmo ficcional. Protocolos com instituições não são cumpridos, cineclubes e outros bem podem pedir cópias, e qualquer governante que tenha tido a tutela sabe que o obstáculo intransponível a uma programação no Porto, na Casa das Artes, tem sido o próprio presidente Bénard.»
Não continuo. É preciso ler o texto na íntegra. E rejeitar claramente o argumento de que, com a cessação da licença especial, se está a impedir alguém de realizar o trabalho para o qual está talhado. Isso só seria válido se o Estado, por absurdo (como poderia acontecer num Estado totalitário), impedisse um realizador de filmar. Porque, quando cessar a sua licença especial, Bénard da Costa não será impedido de continuar ligado ao cinema. O que está em causa é outra coisa, é o desempenho de um cargo público, à frente de uma instituição, que tem de afirmar a sua vitalidade, para lá de qualquer funcionário.
Assim sendo, pouco se entende do comportamento do Ministério da Cultura, que já veio dizer, pela voz da sua mais alta responsável, que tem «a intenção de o convidar a ficar», depois de ter sido afirmado, há cerca de duas semanas, que não havia indicação de que viesse a existir «nova licença especial». Entretanto, é claro, surgiu a tal petição, com algumas assinaturas falsas (segundo notícia lida hoje no Público), a favor da manutenção de Bénard. Em que ficamos? É tudo uma questão de assinaturas?

O MILANDO



Há precisamente cinco anos esportulei 25 contos (ou seja, 125€) pelos dois volumes do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, obra acerca da qual já toda a gente perdeu as ilusões. Assim que foi publicado, Vasco Graça Moura fez um balanço demolidor: «O primeiro equívoco é precisamente o de se apresentar como registando o léxico próprio da língua portuguesa contemporânea dos séculos XIX e XX [...]». Corolário: «este dicionário não permite ler muito do que os grandes autores da língua portuguesa do passado escreveram, Gil Vicente, Camões, Jorge Ferreira de Vasconcelos e tantos outros, uma vez que é muito considerável a lista das respectivas ocorrências lexicais que não regista, ele também não permite ler uma parte muito significativa dos autores modernos.» Segue-se um extenso inventário de omissões a partir de Gomes Leal, Eugénio de Castro, Camilo Pessanha, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão, Mário de Sá-Carneiro, Ricardo Reis, Álvaro Guerra e outros. As abonações ignoram Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Alexandre O’Neill, Almada Negreiros, etc. A isto chamou Graça Moura o léxico disléxico (o artigo foi publicado no Diário de Notícias em 2001; está coligido em Lusitana Praia, colectânea de ensaios aqui comentada). Vem isto a propósito da querela que opõe Malaca Casteleiro a Pina Martins. O primeiro é professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia das Ciências de Lisboa, e coordenador do dicionário. O segundo é o presidente da Academia das Ciências de Lisboa. Radica o busílis no atraso da prometida actualização do dicionário, inicialmente prevista para este ano, agora adiada para daqui a três ou quatro. Previa-se mudar a organização dos verbetes, no sentido de a tornar mais eficaz; e aumentar de 70 mil para 90 mil as entradas lexicais. Tudo visto, os actuais dois volumes passariam a três. Mas parece que a equipa está parada por falta de verba. A situação não é do agrado da Editorial Verbo. Ouvido ontem pelo DN, Fernando Guedes deplorou o adiamento, tendo afirmado: «Apesar de ser uma obra carismática e de referência, o Dicionário tem falhas, tem lacunas e precisa de ser urgentemente revisto e aumentado, de preferência já em 2007.» Para Malaca Casteleiro tudo se resume a “corrigir” gralhas ortográficas e “homogeneizar” estrangeirismos. Pina Martins considera improcedentes as desculpas de Malaca Casteleiro: «O prof. Malaca Casteleiro recebeu muito dinheiro da Academia, relativo a direitos de autor da primeira versão, com o objectivo de melhorar uma obra a que vários académicos conceituados de Coimbra apontaram lacunas. Mas em vez de concretizar esse objectivo, a sua equipa dedicou-se a um outro dicionário, de cariz comercial, que nada tem a ver com os interesses da Academia.» (cf. DN de hoje) Com efeito, a equipa de Malaca Casteleiro preparou um dicionário escolar, com 50 mil entradas e 1800 páginas — a actual versão Academia tem 3809 páginas —, o qual seria editado pela Texto Editores. Mas a Editorial Verbo interpôs providência cautelar alegando direito de propriedade intelectual. Pina Martins não tem dúvidas: «Malaca Casteleiro não quis que houvesse acordo com a Verbo porque isso permitiria cotejar directamente o novo dicionário com o da Academia e descobrir até que ponto o primeiro foi copiado do segundo.» O milando promete. Eu cá por mim continuo fiel ao Aurélio e, mais recentemente (desde 2001), à edição original do Houaiss. Mas, em matéria de abonações, o Aurélio continua imbatível. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa (2004) da Porto Editora, vendido a preço de extorsão (150€), bastante estimável, também é consabidamente superior ao da Academia.

Quarta-feira, Abril 26, 2006

AS PORTAS QUE ABRIL FECHOU


Se não fosse a Abrilada, a minha vida era outra. Pode ser que sim, Marta, pode ser que sim. Nunca saberemos o que podia ter sido. A Marta não é parva, mas há coisas que lhe fazem muita confusão. O 25 de Abril é uma delas. Estava para casar, ele fugiu para o Brasil na véspera do 28 de Setembro. Telefonou do Botafogo: Vem ter comigo, tens uma passagem em teu nome em Barajas. Ela não foi. O pai foi saneado e teve um acidente vascular. A mãe trocou o bridge pelo álcool. A criada, no dia em que foi despedida, atirou um frasco de benzina a um óleo do Medina (o retrato do avô). Com os anos, resignou-se. Assim que os pais morreram trocou a casa da Ribeiro Sanches por um apartamento na João Crisóstomo. Tem votado contra a Abrilada. Nunca serviu de nada. Este também não, aponta a televisão e bate cada vez com mais força a massa dos muffins. Aos 58 anos, olhos de um verde metálico, é uma mulher amarga. Caetano negociou com a cáfila, foi ele que travou a polícia. Não percebeu nada. Não quer perceber. Ploc. Ploc. A batida da massa sobrepõe-se à homilia do regime.

Terça-feira, Abril 25, 2006

25 DE ABRIL


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas, 1977

Segunda-feira, Abril 24, 2006

ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA


Nem tudo está perdido. Ao cabo de um mês de protestos, a associação Animal, em conexão com a Animal Defenders International e outras organizações internacionais de defesa dos animais, conseguiu que o Circo das Celebridades, produção da Endemol para a TVI, perdesse todos os patrocinadores. Com efeito, a RE/MAX, a Cofaco, a Credial e a Bayer cancelaram os respectivos patrocínios. Miguel Moutinho, presidente da Animal, não pode impedir a transmissão do programa, mas não desistiu enquanto não sensibilizou os sponsors para a iniquidade do apoio. Sirva de exemplo a outros sectores da sociedade civil. Lembrar, a propósito, que há animais de circo abandonados em Palmela. Pois é: não são só os cães e os gatos do Verão. Agora também há tigres e leões deixados ao Deus-dará. Velhice? Doença? Falência do empresário? Who cares?

Domingo, Abril 23, 2006

A voz e a política


Fui sensível a algumas afirmações de Antonio Tabucchi, na entrevista publicada ontem no Mil Folhas, a propósito da recente publicação entre nós do seu último romance, Tristano Morre (Tristano Muore, 2004), na Dom Quixote. Na página 5 do suplemento do Público, pode ler­‑se: «Andei sobretudo a pensar numa coisa que me interessava e interessa muitíssimo: a voz. A voz humana. O conflito, simbólico, entre a voz e a escrita». E depois: «Eu queria escrever um livro em que o estatuto da voz fosse maior do que o estatuto da escrita. A voz é um fundamento da nossa civilização ocidental. Ela gozou sempre de um estatuto mais importante do que a escrita. A civilização ocidental nasce com essa visão da voz fecundante, criadora». Tabucchi utiliza o mito de Orfeu e a figura de Cristo para justificar a sua tese da importância da palavra oral, mas eu preferia invocar a ideia da voz como suporte de um texto narrativo, como elemento decisivo para a constituição do seu fascínio. O que seduz o leitor de uma ficção narrativa não é a história, mas a simulação de uma voz que conta algo e, por isso mesmo, se arroga o direito de interromper, deixar de contar, voltar à história, fazer novo desvio, hesitar, falar dos antecedentes, imaginar consequências, terminar abruptamente. É aí, nessa estrutura que simula a loquacidade, com o seu inevitável horror ao silêncio, e não na constituição de um modelo mais ou menos próximo, mais ou menos distante, de uma realidade exterior ao texto, que reside o enorme fascínio das narrativas escritas.
A fechar a entrevista, na página 7, a uma pergunta de Adelino Gomes sobre se alguma coisa vai mudar em Itália com a eleição de Romano Prodi, Tabucchi lembra­‑nos que a importância da política não se situa meramente nas suas consequências legislativas, mas que condiciona, por vezes sem remédio, o olhar que lançamos ao mundo: «Os estragos estão feitos. Vi o último filme do [Nanni] Moretti, Il Caimano, grande filme [ainda não estreado em Portugal], e acho que ele tem muita razão. Remediar os estragos vai ser difícil. Prodi terá de remar contra a corrente. O problema não é de mera gestão política. É realmente, neste momento, um problema antropológico».

JOURNAL, 14


Alguém lembra: fulano (um chef famoso) está agora num restaurante biológico. Importa-se de repetir? Só usam ingredientes de cultura biológica: sal, peixe, carne, café, vinhos; tudo livre de aditivos, hormonas e pesticidas. Fomos ver. O espaço, concebido por um designer com provas dadas, tem uma parede inteira coberta com bocados de carvalho com as arestas por polir, mesas a mais, luz a menos, e escadas sem corrimão. No dia em que fomos, contando connosco, estavam dez pessoas (entre elas um ministro com fair play e um colunista farisaico) em quatro mesas. Se estivesse o dobro ninguém se mexia. A cozinha é portuguesíssima da silva, o que podia ser um traço distintivo. O resultado não ofende mas também não levanta voo. As migas, o bacalhau e o porco preto parecem-me pequena ambição. Disto há centenas a metade do preço. O staff piora tudo. Um chef aceita «desenhar» ementas e dar o nome a uma casa e não exige pessoal capaz? A falta de vocação é manifesta. Arrastar os pés e tratar os clientes por vossemecê não dá boa imagem. Deixar a água e o vinho esquecidos no outro extremo da sala revela, para dizer o menos, desinteresse. Tudo visto, o desempenho atencioso de uma imigrante de Leste evita o flop. Sem surpresa, os preços são absolutamente Europa dos 15.

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Sexta-feira, Abril 21, 2006

VIKING OU MAGREBINO?


Um amigo que a pretexto dos cartoons tinha estado na passeata da rua Castilho na qualidade de subscritor daquele manifesto proparoxítono que dizia qualquer coisa como “somos todos dinamarqueses” (salvo seja!), meteu-se num avião a caminho de Shangri-La. Antes de partir, uma amiga que viveu oito anos em Copenhaga avisou: a Dinamarca é uma espécie de Albânia, “moderna”, limpa, “democrárica”, e com PIB elevado, porém, sem o clima do Adriático e o salero dos albaneses. Ele, naturalmente, escarneceu. Voltou anteontem, taciturno e azedo. Nem o jantar no Luca o tirou da apatia.
— Então?
— Voltei a fumar e vou amanhã para a Tunísia. Um mês!

Quinta-feira, Abril 20, 2006

CITAÇÃO, 27


José Pacheco Pereira, hoje, no Público. A fauna das caixas dos comentários. Edit e sublinhados meus:


«A Rede está a mudar tudo, a criar coisas novas, a realizar outras muito antigas que as tecnologias até agora existentes ainda não permitiam e a dar eficácia a velhos, e muitas vezes maus, hábitos que existiam no mundo exterior e agora passam para o mundo interior da Internet. Alguns casos recentes voltaram de novo a mostrar a Internet sob uma luz pouco amável, bem preconceituosa aliás, porque nada do que lá se faz se deixou de fazer cá fora. [...] A caixa de comentários tornou-se numa espécie de chat, que parasita a notoriedade do blogue, como já acontecera no Espectro com os seus finais 484 comentários, onde as pessoas se encontram numa pequeníssima “aldeia global”, que tomam como sua. O comportamento destas pessoas-em-linha é compulsivo, eles “habitam” nas caixas de comentários que são a sua casa. Deslocam-se de caixa para caixa de comentário, deixando centenas de frases, nos sítios mais díspares, revelando nalguns casos uma disponibilidade quase total para comentar, contracomentar, atacar, responder, mantendo séries enormes que obedecem [...] São, na sua esmagadora maioria, anónimos, mas o sistema de nick names permite o reconhecimento mútuo de blogue para blogue. Estão a meio caminho entre um nome que não desejam revelar e uma identidade pela qual desejam ser identificados. Querem e não querem ser reconhecidos. [...] Trocam entre si sinais de reconhecimento, cumprimentam-se, desejam-se boas férias, e formam minicomunidades que duram o tempo de uma caixa de comentários aberta e activa, o que normalmente dura pouco. Depois migram para outra, sempre numa tempestade de frases, expressando acordos e desacordos, simpatias e antipatias, quase sempre centrados na actividade de dizer mal de tudo e de todos. Imaginam-se como uma espécie de proletariado da Rede, garantes da total liberdade de expressão, igualitários absolutos, que consideram que as suas opiniões representam o “povo”, os “que não têm voz”, os deserdados da opinião, oprimidos pelos conhecidos, pelos célebres, pelos “sempre os mesmos”. São eles que dizem as “verdades”. Mas não há só o reflexo do populismo e da sua visão invejosa e mesquinha da sociedade e do poder, há também uma procura de atenção, uma pulsão psicológica para existir que se revela na parasitação dos blogues alheios. Muitos destes comentadores têm blogues próprios completamente desconhecidos, que tentam publicitar, e encontram nas caixas de comentários dos blogues mais conhecidos uma plataforma que lhes dá uma audiência que não conseguem ter. Não são bem Trolls, sabotadores intencionais, mas têm muitas das suas formas perturbadoras de comportamento. A sua chegada significa quase sempre uma profusão de comentários insultuosos e ofensivos que afastam da discussão todos os que ingenuamente pensam que a podem ter numa caixa de comentários aberta e sem moderação. Quando há um embrião de discussão, rapidamente morto pela chegada dos comentadores compulsivos, ela é quase sempre rudimentar, a preto e branco, fortemente personalizada e moralista: de um lado, os bons, os honestos, os dignos, do outra a ralé moral, os ladrões, os preguiçosos que vivem do trabalho alheio e dos impostos dos comentadores compulsivos, presume-se. O que lá se passa é o Faroeste da Rede: insultos, ataques pessoais, insinuações, injúrias, boatos, citações falsas e truncadas, denúncias, tudo constitui um caldo cultural que, em si, não é novo, porque assenta na tradição nacional de maledicência, tinha e tem assento nas mesas de café, mas a que a Rede dá a impunidade do anonimato e uma dimensão e amplificação universal. O que é que gera esta gente, em que mundo perverso, ácido, infeliz, ressentido, vivem? O mesmo que alimenta a enorme inveja social em que assentam as nossas sociedades desiguais (por todo o lado existe este tipo de comentadores), agravada pela escassez particular da nossa. Essa escassez não é principalmente material, embora também seja o resultado de muitas expectativas frustradas de vida, mas é acima de tudo simbólica. Numa sociedade que produz uma pulsão para a mediatização de tudo, para a espectacularização da identidade, para os “15 minutos de fama” e depois deixa no anonimato e na sombra os proletários da fama e da influência, os génios incompreendidos, os justiceiros anónimos, o “povo” das caixas de comentários, não é de admirar que se esteja em plena luta de classes.»

BULA-BULA


Amanhã, sexta-feira, a partir das 18:30h, um grupo de bloggers reúne-se na biblioteca do Palácio Galveias, em Lisboa, para discutir temas que a todos dizem respeito. A saber: dicotomia autor/editor; validação de conteúdos; novos caminhos da informação e do debate; uso integrado das tecnologias ao serviço da criatividade; papel dos blogues na educação e no desenvolvimento do gosto pela escrita. São eles Francisco José Viegas, A Origem das Espécies, Catarina Campos, 100 Nada, João Villalobos, Prazeres Minúsculos, Rui Branco, Adufe, Ana Cláudia Vicente, Quatro Caminhos e O Amigo do Povo. Isabel Goulão, Miss Pearls herself, modera.

Quarta-feira, Abril 19, 2006

O POGROM DE LISBOA


Faz hoje 500 anos começou o pogrom de Lisboa. Com a corte convenientemente a recato, fora da cidade, a turba teve rédea solta. Num ponto os historiadores dividem-se: teriam sido dois mil ou quatro mil os judeus massacrados no Rossio? Importa pouco. Um que fosse. Parafraseando um poeta que muito admiro, é isto o horror na sua forma mais exacta. O horror.

Memórias póstumas de Groucho


Como se pode dar o caso de alguém, por distracção, não reparar que Groucho está apenas tão morto como Brás Cubas e, para cúmulo, lá do assento etéreo onde subiu, insiste em enviar­‑nos os seus comentários, com o último dos quais, ainda por cima, estou em total acordo, aqui deixo o aviso e o apelo à subsequente leitura.

Terça-feira, Abril 18, 2006

UM HOMEM FELIZ


Não vi, mas contaram-me. Ontem, no Prós & Contras, a propósito não sei de quê, Raul Solnado falou de um amigo que seria um homem feliz porque, em rapaz, habitué de meninas, a penicilina acautelava eventuais percalços e, homem feito e pai de família, a SIDA nunca o preocupou porque do que ele gosta é mesmo de mulheres. Hoje, dobrado o cabo dos 70, o Viagra faz maravilhas. Então ficamos assim.

Segunda-feira, Abril 17, 2006

FORA DE PRAZO


João Bénard da Costa, funcionário público, presidente da Cinemateca Portuguesa, actor, assistente de produção e de realização, cronista do Público, e presidente (reconduzido por Cavaco) da comissão organizadora das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, fez 70 anos em Fevereiro de 2005. Os funcionários públicos são mandados para casa quando fazem 70 anos. O limite de idade é igual para génios e mangas-de-alpaca. Ponto. A João Bénard da Costa, por ser quem é, foi concedida uma “licença especial” para ficar no activo até Julho de 2006. O ministério da Cultura não parece disposto a prolongar essa licença de carácter absolutamente excepcional. Suponho que ninguém questiona a competência técnica e a particular sensibilidade de Bénard da Costa para o desempenho do cargo que ocupa desde 1991. O que fez na Cinemateca honra-o e honra-nos. Ponto. Dizer que “está a três meses de ser abatido ao activo, em tempo que a faca e o queijo se juntaram em boas mãos”, é o tipo de afirmação que se esperaria de muita gente mas não de um intelectual com o seu perfil. Bénard da Costa, funcionário da Cinemateca Portuguesa desde 1980, devia ser o primeiro a dessacralizar a função. Em democracia não há lugares vitalícios, e o simples facto de afirmar que não acredita “que haja nunca um ciclo Fleischer, [foto ao alto] porque o único que o podia organizar — modéstia à parte, ou não desfazendo, como preferirem — está a três meses de ser abatido...”, abona pouco a favor da instituição a que preside. Se o corolário for, eu saio, isto cai, então alguma coisa vai mal na Barata Salgueiro. A surpreendente demissão, há seis meses, do vice-presidente, tem alguma coisa a ver com isto? Por que é que José Manuel Costa bateu com a porta? Em que medida a sua saída afecta o Arquivo Nacional das Imagens em Movimento? Nuno Sena, director do Indie Lisboa, foi outro que bateu com a porta. Não serão legítimas as queixas de conservadorismo e falta de atenção à contemporaneidade? A tentativa de transformar uma comissão de serviço numa sinecura é o quê? Uma prepotência? Ou simples patetice?

Domingo, Abril 16, 2006

Mudam-se os calos, mudam-se as vontades

Em relação aos "Conselhos aos Jovens Literatos", de Baudelaire, aquilo que parece ter estado na origem de todas as críticas não terá sido tanto a tradução, em sí, mas a tradução deste livro, em particular, do "poeta maldito." De que outra forma se explica o total silêncio em volta de um outro volume que, pela mesma altura, terá feito a sua aparição nas livrarias portuguesas? Falo de "As cartas de Isidore Ducasse", também por mim traduzido, e imagine-se o desplante, a partir da mesma língua franca.
A razão que, primeiramente, assistiu à tradução de Lautréamont é exactamente a mesma que justificou a tradução dos "Conselhos aos Jovens Literatos". Tratarem-se de livros raros nas respectivas obras, passíveis de abrirem, pela desmistificação, um outro olhar sobre os escritores em causa. Porque se o texto de Baudelaire é, à luz da ideia que do poeta, comummente, se faz, pouco menos que justificável, também o autor de "Os Cantos de Maldoror" se revela nas suas cartas, em toda a sua mesquinha temporalidade. Mas em relação a Lautréamont nem uma palavra. Como se fossem de outra filiação os calos pisados.
O que nos leva para uma segunda questão. Se para muitos desses senhores a tradução do livro em causa constituiria, só por sí, motivo de histérica preocupação, o que dizer se a essa afronta se juntasse a frontal invasão dos seus quintaizinhos. Histeria total. Contribuir com um roçar de unha para que, sob camadas de verniz, se revelassem uns mais que humanos pés-de-barro e ainda por cima responsabilizá-los, na sua parte, em todo este processo de idolatria! Petulância!

PÁSCOA


O espectáculo repete todos os anos: hordas de turistas desazados sem saber o que fazer em Lisboa entre sexta-feira da Paixão e domingo de Páscoa. Três dias de vazio absoluto. Museus fechados. Restaurantes fechados. Lojas fechadas. A avaliar pela opinião publicada, as pessoas preocupam-se com a «ponte» da Função Pública (a tarde de quinta-feira), como se a folga dos amanuenses precipitasse o país num buraco negro. Acontece que a «ponte» da Função Pública é exactamente igual à «ponte» dos Bancos, das Seguradoras, das empresas públicas e privadas, dos correios, das Câmaras municipais, dos escritórios de advogados, dos dentistas, dos consultórios médicos, dos laboratórios de análises, das mulheres-a-dias, dos quiosques de jornais, dos tribunais, do parlamento, etc. E não vejo ninguém reclamar. A única diferença é que a «ponte» da Função Pública começou no Estado Novo e as outras começaram no guterrismo. Os museus, como não têm ponte, fazem greve (tem sido assim desde 1998). Os restaurantes da moda, como os habitués estão no Algarve ou no estrangeiro, fecham na quinta a seguir ao almoço e só reabrem para o jantar de segunda. Muitas lojas aproveitam a embalagem do feriado de sexta para não abrir no sábado. Os táxis ficam reduzidos a um terço. Mas se meio milhão de portugueses estão aboletados no Algarve, que importância tem que cem mil turistas andem aos papéis em Lisboa?

O comerciante e o seu cliente


Reconciliei­‑me parcialmente com o Teatro Plástico, depois de ter assistido, há um bom par de anos, a uns Crimes Exemplares decepcionantes, construídos a partir de textos de Max Aub. Termina hoje a carreira do espectáculo que justificou esta reconciliação. Trata­‑se de Na Solidão dos Campos de Algodão (Dans la Solitude des Champs de Coton, 1986), de Bernard­‑Marie Koltès, que foi apresentado, durante cerca de um mês, no parque de estacionamento subterrâneo da Rotunda do Castelo do Queijo, no Porto. O espaço cénico era invulgar, mas adequado (a imagem em cima não é deste espectáculo; reporta­‑se à encenação de Moïse Touré, de 2001). Permitiu intensificar o combate verbal dos dois homens que se cruzam na noite, do dealer, que quer vender algo que se recusa a nomear, para evitar uma recusa, e do cliente, que foge de qualquer contacto humano e nega a vontade de estabelecer qualquer tipo de comércio. É sempre de um combate que se trata nas peças de Koltès, e os seus longos monólogos, aos quais atribuía tanta importância, pedindo aos actores e aos encenadores para nunca os cortarem, são ataques desferidos por seres solitários, que se sabem irremediavelmente condenados à solidão e, por isso, falam como quem adia o instante do silêncio definitivo. Na verdade, mais do que um combate, talvez eu devesse ter dito que os textos de Koltès encenam a preparação para o combate, a apresentação das armas, dos pontos fortes e fracos de cada interveniente. Depois, não interessa o resto, pois ninguém sai a ganhar.
Mas o que se confronta nas peças de Koltès? Qual é o motivo destas lutas constantemente encenadas? Antes de mais, há nos seus textos uma recusa da sociedade ocidental, próxima da teoria do bom selvagem, uma negação de alguns valores europeus, que poderia tornar­‑se ingénua e débil se o desencanto existencial não acabasse por atingir todas as personagens. É certo que algumas conservam uma dignidade com que outras parecem deixar de se importar, mas nenhuma preserva grandes ilusões sobre o futuro. No caso de Na Solidão dos Campos de Algodão, tudo se torna mais fácil de esclarecer, porque há apenas duas personagens anónimas, nomeadas pelas funções que desempenham no contexto do acto de comércio, que, segundo Koltès, representa o paradigma das relações humanas. Fala o dealer: «Se quiser saber o que desde o início foi inscrito na sua factura, e que vai ter de pagar antes de me virar as costas, eu posso dizer­‑lhe que foi a espera, e a paciência, e o artigo que o vendedor prepara ao cliente, e a expectativa de vender, sobretudo a expectativa, que transforma logo num devedor qualquer homem que se aproxime de outro homem com um pedido no olhar» (p. 42).
O excerto foi retirado da tradução de José Paulo Moura, publicada por Moura Editor, em simultâneo com a produção do Teatro Plástico. É significativo para evidenciar a importância da dicção quando se representa Koltès. O seu é um teatro da palavra, o que permitiu a encenação deste texto num parque de estacionamento progressivamente obscurecido. As vozes chegavam­‑nos pelo aparelho de rádio do carro, e podemos perguntar­‑nos se a rigidez e a escassa mobilidade dos actores (sendo este, talvez, o ponto fraco da encenação de Francisco Alves) não incitavam os espectadores a fechar os olhos e a ouvir o texto em completa escuridão. Em todo o caso, se assim procedessem, nada perderiam, graças ao exemplar trabalho vocal de Alberto Magassela e Afonso de Melo. A qualidade das suas dicções torna­‑se ainda mais evidente quando me recordo do péssimo serviço prestado a Beckett por Maria do Céu Guerra, transmitido esta semana pela Antena Dois, com uma voz histriónica na criação da protagonista de Todos os que Caem (All that Fall, 1957). É que tanto Beckett como Koltès, ironicamente unidos pelo ano das respectivas mortes, valorizavam a voz e a palavra como os principais fundamentos das suas construções dramáticas.

Sábado, Abril 15, 2006

MARIA ANTONIETA


Uma amiga, monárquica inveterada, ao telefone:

— Leste a biografia da Maria Antonieta?
— Qual delas?
— A da arquiduquesa austríaca.
— Quem?
— Catalina de Habsburgo, arquiduquesa...
— Não, essa não conheço.
— Não conheces a biografia ou não conheces a autora?
— Não conheço as duas.
— Só não percebo uma coisa. Ela vai a Cannes falar com a Sofia Coppola.
— E daí?
— Não percebo a relação...
— A entrevista não explica?
— Não estou a ler nenhuma entrevista...
— Então estás a ler o quê? A badana do livro?
— Não. Ainda não comprei. Estou a ler uma crítica, mas estou baralhada, e queria saber se conhecias o livro...
— Pois não conheço. Nem o livro nem a arquiduquesa.
— Não sei que faça...
— Pergunta ao Capê Possolo.
— Ele também não sabe.

Foi ontem, esta conversa. Hoje vi o livro. Catalina de Habsburgo, jornalista de profissão, nasceu na Alemanha, em 1972, e vive na Itália. Parece que em tempos namorou o herdeiro do trono espanhol. Maria Antonieta, a biografia, foi traduzida por Jorge Fallorca, não se sabe de que idioma (mas é de supor que a versão portuguesa seja feita a partir da castelhana). Também fui espreitar o artigo que a minha amiga tomou por crítica. Ao alto vê-se Kirsten Dunst, a «Maria Antonieta» de Sofia Coppola.

Sexta-feira, Abril 14, 2006

a propósito de muito pouco

No suplemento do Diário de Notícias de hoje, o crítico Silva refere-se, en passant, ao livro "Conselhos aos Jovens Literatos" de Charles Baudelaire, por mim traduzido. Fala o crítico de uma tradução com pouco esmero e alguns erros de palmatória. Saiba o sr. crítico que nem a desculpa do exíguo espaço, que sem dúvida merece, o iliba da verdade. Esperava-se, pois, mais alguma precisão da sua parte, e não esse reiterado atirar poeira para o ar que, em si, vai fazendo escola. Mas deixe-me que o ajude no seu trabalho.
Há de facto um erro de revisão que salta aos olhos, e aqui faço um mea culpa. No texto "Da felicidade e do infortúnio nas estreias" (pág. 11), o gerúndio pensando (3ª linha) está mal utilizado. O tempo apropriado seria, na verdade, pensam. De resto, são opções de tradução facilmente justificáveis, uma a uma, se assim o desejar. Como por exemplo no texto "Conselhos aos jovens literatos" (pág.9), onde na linha 11 traduzi o verbo apporter por levar. Como saberá, para além de levar este verbo poderia ser traduzido por acrescentar. Foi de facto uma dúvida que me balançou, acredite, e optei pela forma levar porque nesse contexto de diligência, mesmo filial, me pareceu o verbo que melhor traduziria esse cuidado. Opções, como vê. Mas rotular o trabalho de pouco cuidado, parece-me evidente má fé. Coloquei nesta tradução, apesar de não admirar, particularmente, a obra de Baudelaire, a mesma atenção que votei a livros de poetas que admiro como Saint-John Perse, Panero, Gamoneda ou Lautréamont. Todavia, se o trabalho, ainda assim, lhe pareceu tão descuidado, poderá sempre tomar em mãos essa tarefa. De certeza que, com uma habilidosa tradução, conseguirá mudar a verdadeira natureza do texto. Porque é isso que está aqui em causa, a verdadeira natureza do texto, tenha ele sido concebido por Baudelaire aos 25 ou aos 45 anos.
Quanto às suas alegações finais e partindo do príncipio de que fazer critica é mais do que atirar barro à parede, elas enfermam do mesmo mal que o restante texto. Insidioso? Desonesto? Cobarde? Nunca nada esteve tão a céu aberto como a minha posição no que diz respeito a toda esta questão. Isso faz cair pela base qualquer epíteto de desonestidade e cobardia, não acha, sr. JMS?
E experimente deixar em casa o seu cartão de sócio. Vai ver que isso se reflectirá na seriedade dos seus escritos.

A CASA DO PÂNTANO


Faz hoje um ano abriu a Casa da Música. Eu não sei o que é que Rem Koolhaas acha de ter uma obra sua com pântano nas traseiras. A última vez que lá estive, há pouco menos de um mês, era esse o cenário para quem saía da Casa na direcção da Rua 15 de Novembro. Contornando a onda pela direita, com cuidado para evitar as poças de água que se formam na sua base, o caminho mais rápido para o Metro é um terreno baldio, com detritos, capim e charcos de água parada, onde chapinham patos e outras aves. Pensei que estava na Bósnia. Vista do lado de quem está numa das entradas do Metro, a principal ou a do outro passeio, com uns casebres em ruína intrometendo-se no ângulo de visão, a coisa torna-se pungente. Li algures que vão gastar mais não sei quantos milhões em «remates» de interiores, como lojas, etc. As pessoas, com o presidente da Câmara do Porto à cabeça, não têm vergonha? Não têm vergonha de ter um edifício daqueles a tapar uma lixeira? Não há dinheiro para mandar limpar? Ao menos ponham tapumes!

Quinta-feira, Abril 13, 2006

dois fragmentos de Anabase

I

Estabelecendo-me com honra sobre três grandes estações, auguro bem do solo onde fundei a minha lei.
As armas na manhã são belas e o mar. Exposta a nossos cavalos, a terra sem amêndoas
traz-nos este céu incorruptível. E o sol não é sequer nomeado, mas o seu poder está entre nós
e o mar na manhã como uma conjectura do espírito.

Poder, tu cantavas nas nossas estradas nocturnas!... Nos idos puros da manhã que sabemos nós do sonho, nossa procedência?
Por mais um ano ainda entre vós! Senhor do grão, senhor do sal, e a coisa pública sobre justas balanças!
Nunca chamarei por gentes doutra margem. Não traçarei nunca grandes
bairros urbanos pelas encostas com o açúcar dos corais. Mas tenciono viver entre vós.
No limiar das tendas inteira glória! a minha força entre vós! e a ideia pura como um sal faz-se pública em pleno dia.

*

Parado o meu cavalo sob a árvore que arrulha, lanço um assobio mais puro... E paz àqueles que, se vão morrer, não chegaram a ver este dia. Mas de meu irmão, o poeta, tivemos nós notícias. Mais uma vez escreveu uma coisa muito doce. E alguns tiveram dela conhecimento...

*


Anabase, Saint-John Perse, Relógio d'Água Editores, 1992
Tradução de José Daniel Ribeiro

SALSA LATINA


Vai por aí um coro de lamúrias. Gente conspícua, sempre com o respeito da Justiça na boca, parece ter posto os pés na terra. Motivo? O controvertido acórdão do Supremo Tribunal sobre a eventual licitude de “castigos corporais”. Admirados? Porquê? O Supremo Tribunal emana do povo e o povo, por enquanto, é este. Bem pode o comité português da UNICEF espernear que a realidade não muda. Se, por hipótese académica, os “castigos” corporais fossem sujeitos, em inquérito anónimo, a escrutínio nacional, seriam com toda a probabilidade considerados “normais” por quatro quintos dos papás. Ainda não chegámos à Finlândia! De resto, se alguma coisa o alarido reflecte é a má consciência colectiva.

Quarta-feira, Abril 12, 2006

CITAÇÃO, 26


Vasco Graça Moura, na sua coluna das quartas-feiras no Diário de Notícias. Ratos e homens. Precisamente. A ler na íntegra. Edit e sublinhados meus.


«Vai para três semanas, fui incumbido pelo grupo parlamentar do PSD no Parlamento Europeu de receber um representante da associação cívica dos moradores de Alfornelos que se deslocou a Bruxelas [...] O meu interlocutor expôs-me documentadamente o problema dos moradores de Alfornelos com a articulação de três vias de tráfego muito intenso [...] e a conclusão da CRIL entre a Buraca e a Pontinha. O arranque da empreitada de execução de um destes troços de auto-estrada terá o condão de transformar aquela localidade, onde vivem umas 15 mil pessoas, numa autêntica ilha cercada por auto-estradas por todos os lados. Face à planta que me foi exibida, o termo “cercada” é pouco expressivo. “Encurralada” seria mais adequado. Prevendo-se uma passagem diária de 200 mil veículos no local, os moradores têm feito tudo o que está ao seu alcance, incluindo a encomenda do projecto de um traçado alternativo, para evitar a criação daquele gueto [...] Mas queixam-se de não terem recebido nenhuma resposta das entidades a quem se dirigiram e junto das quais estão fartos de insistir por uma solução menos gravosa que as mesmas autoridades não se dignam estudar. Expliquei ao meu interlocutor que, no Parlamento Europeu, pouco podíamos fazer de concreto quanto à sua pretensão. Não temos poderes para intervir nessas matérias e para mais, ao que julgo ter percebido, a Comissão Europeia já considerou que o traçado das vias em questão viola as directivas aplicáveis, o que envolveria, pelo menos em princípio, a satisfação das suas reclamações. [...] Não vivo naquela localidade, não sou técnico e não percebo nada da construção de auto-estradas. Quanto aos moradores, só posso dizer que, à primeira vista, eles parecem ter razões mais do que justificadas para estarem muito alarmados. Estas pessoas têm procurado defender os seus interesses da forma mais ordeira. Não cortaram estradas, não fizeram tropelias nem desacatos, não deram espectáculos estapafúrdios em frente à Assembleia da República. O seu comportamento foi modelar: constituíram uma associação cívica, encomendaram um projecto alternativo, fizeram exposições, contactaram as entidades responsáveis, invocaram o direito aplicável. Não lhes tem valido de nada. O Estado gastou uma fortuna para assegurar uma passagem para os sapos por debaixo da CREL; também na CREL, o mesmo Estado gastou outra fortuna para preservar as chamadas “pegadas dos dinossauros” em Carenque. E ainda agora se veio a saber que a construção de uma estrada, por que os habitantes esperam há vinte anos, no distrito de Bragança, está bloqueada sine die por ter aparecido por lá uma colónia de morcegos mais uma colónia de ratos que dizem únicos na Península Ibérica. Se em Alfornelos houvesse umas clavículas de mamute, uma colónia de toupeiras, um pantanal de sapos, umas moitas cheias de ratazanas, umas ramarias com morcegos pendentes, aqui d'el-rei! Logo a Administração, solícita e pressionada pelas associações ambientais, se teria disposto a agir de outra maneira. Mas em Alfornelos apenas vive gente e gente é uma espécie animal que não conta para nada. O bem-estar e os interesses de 15 mil seres humanos valem menos do que umas ossadas pré-históricas, a qualidade de vida dos morcegos, a passagem dos sapos e o alcance, verdadeiramente ibérico e patriótico, da preservação de uma variedade de ratos.»

REVOLUÇÃO


Não é a primeira vez que o digo: os ministérios da Cultura são apêndices extravagantes em regime democrático. Aqui como na França ou em Espanha. Impensáveis em países como o Reino Unido ou os Estados Unidos. Isto nada tendo que ver com Isabel Pires de Lima, por quem nutro estima pessoal e apreço intelectual. Do meu ponto de vista, para gerir orçamentos, recursos humanos e candidaturas, chegava e sobrava uma direcção-geral de Acção Cultural, dotada de Divisões autónomas, para o Livro e as Bibliotecas, o Teatro, o Cinema, os Museus, as Artes Plásticas (fotografia incluída), a Música, o Bailado, as Artes Performativas, as Relações Internacionais. Dito isto, Isabel Pires de Lima, de quem se dizia estar a prazo, e ter pouca força política, acaba de concretizar uma autêntica revolução. Vejamos. 1. O Instituto Camões, até aqui sob tutela do ministério dos Negócios Estrangeiros, passa para o ministério da Cultura todas as competências em matéria de acção cultural externa. 2. O Instituto Português do Livro e das Bibliotecas desaparece, dando origem à direcção-geral do Livro e da Leitura. 3. O Instituto das Artes também desaparece, dando origem à direcção-geral de Apoio às Artes. 4. O Instituto Português de Museus funde-se com o Instituto Português de Conservação e Restauro, dando origem ao Instituto dos Museus e da Conservação. 5. É criado o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, o qual resulta da fusão de três organismos: o Instituto Português do Património Arquitectónico, o Instituto Português de Arqueologia, e a direcção-geral de Edifícios e Monumentos Nacionais, que sai do ministério do Ambiente e Ordenamento do Território. 6. Os Arquivos Nacionais (Torre do Tombo) passam a integrar o Centro Português de Fotografia. 7. Os Teatros Nacionais passam a empresas públicas. 8. O Teatro Nacional de São Carlos (ópera) subsume a Companhia Nacional de Bailado. 9. A Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, museu e escola superior de artes decorativas, transita do ministério das Finanças para o da Cultura. 10. É criada a direcção-regional de Cultura de Lisboa e Vale do Tejo. 11. A Biblioteca Nacional passa a designar-se Biblioteca Nacional de Portugal (uma redundância). Se isto é assim apesar do establishment, o que seria com vento a favor...

Terça-feira, Abril 11, 2006

BONECADA


Deve haver razões que expliquem o investimento na bonecada. Começou nas revistas de literatura e agora chegou aos livros. Leitões com asas, pinóquios, raios e coriscos, fadas, aviões de papel, cornucópias, duendes, o Diabo!, tudo serve para capear e ilustrar obras de vária índole, da História ficcionada à colectânea de recensões. O modelo são as aguarelas que Saint-Exupéry fez, e muito bem, para Le Petit Prince (1943). Precedente português será o das Edições Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello. Mas isso é outra coisa. A mim encanita-me ter de ler a correspondência trocada entre a Sophia e o Sena com bonecos à mistura. Se calhar sou eu que sou conservador.

DILEMA


Numa das sessões de um curso de formação em estudos feministas e de género, uma aluna jovem quer saber onde encaixa o hermafrodita no gender aplicado ao texto.

Segunda-feira, Abril 10, 2006

CITAÇÃO, 25


William Naphy, Born to be Gay. História da Homossexualidade, 2004. Tradução portuguesa (2006) de Jaime Araújo. Edições 70. O trecho transcrito foi extraído do capítulo As Civilizações Clássicas e o Advento do Cristianismo, um dos seis capítulos da obra (303 pp). Edit meu.


«[...] Durante toda a sua história pré-cristã, o amor homossexual masculino constituiu um elemento manifesto e público da civilização grega. Por exemplo, é interessante observar que registos antigos contam que peças de Ésquilo, Sófocles e Eurípides tratavam do amor entre homens, ainda que este não apareça nas peças que sobreviveram (interrogamo-nos até que ponto os cristãos não teriam tido uma mão nesse estranho esquema de sobrevivência). Assim, Ésquilo, na sua peça Mirmidões, falava do amor de Aquiles por Pátroclo, e terminava com a morte do segundo e o lamento de Aquiles acerca dos seus “muitos beijos” e da “união sagrada das suas coxas”. [...] No entanto, antes de deixarmos as práticas gregas, é importante avaliar a sua influência sobre Roma. [...] Uma das melhores maneiras de avaliar não só a polissexualidade do comportamento romano mas também as posições da cultura romana sobre o sexo é olhar para as vidas dos governantes e imperadores do fim da República e do início do Império. A fonte mais conhecida, mas não única, é a obra de Suetónio, As Vidas dos Doze Césares, escrita durante o reinado de Adriano [...] Júlio César aparece em primeiro lugar e Suetónio estabelece uma distinção clara entre o comportamento de César como penetrado [...] e como penetrador [...] O autor inclui mesmo uma diatribe contra César, e que na altura teve muito êxito, do discurso de um senador que disse que César era “o marido de todas as mulheres e esposa de todos os homens” [...] Suetónio regista então uma grande mudança com a chegada de Nero [o qual] casou com dois homens (um a seguir ao outro) em cerimónias idênticas às praticadas nos casamentos entre homens e mulheres. Um dos homens recebeu honras de imperatriz [...] Empregando a terminologia actual [...] Galba era essencialmente gay, interessado quase exclusivamente em ter relações sexuais com outros homens (e não com adolescentes). Nero era simplesmente depravado, praticando sexo com qualquer pessoa [...] e sujeitando o corpo à [...] penetração por outros homens — mesmo por homens socialmente inferiores. [...]»

Caminhos de um diálogo apócrifo


[ao cuidado do Luís Mourão e da Leitora]

– Meu caro LM, não estamos, portanto, em desacordo…
– Quer dizer, não estamos em termos de teoria.
– Mas então…
– Espere. Em matéria de princípios e fins da fotografia, de efeitos da estética do preto e branco, da questão da neutralidade, não estamos, mas temos leituras diferentes da exposição de Nozolino. É evidente que ela nos afectou de forma diferente: para si, os meios usados falharam por completo; para mim, falharam parcialmente, e não pelas razões que para si conduziram à falha.
– Compreendo. A concordância teórica não implica concordância de leitura. Há outros elementos a pesar na formulação de um juízo de gosto.
– Nem mais. Devemos ter em conta a possibilidade de um desacordo de juízo de gosto não advir de diferenças de posicionamento teórico e estético, mas de uma diferente constituição do campo das «afecções» a que seremos sensíveis. Ora, é assim que eu explico a nossa discordância em relação aos efeitos das fotografias de Nozolino. Aliás, não será significativo que o JPS utilize depois o conceito deleuziano de imagem-cristal, para falar da questão da descontinuidade, e vá buscar a analogia ao cinema? Ou que o exemplo seguinte seja o uso da fotografia nos romances de Sebald, onde temos o mesmo processo imediato e inequívoco de uma não relação entre o texto e as imagens?
– Percebo a ideia. Enfim, talvez eu, de um modo mais ou menos inconsciente, não quisesse realmente situar­‑me em exclusivo na fotografia…
– O que é significativo de que talvez a fotografia não permita, hoje, as afecções que o JPS busca.
– …mas posso lá voltar, para que não se diga que me desviei do problema inicial. Ou que me desviei a ponto de o esquecer, porque, afinal, os desvios num raciocínio podem ser mais interessantes do que um traçado rectilíneo.
– Sem dúvida. Mais uma vez, estamos teoricamente de acordo.
– Pois. Eu estava a pensar, neste regresso à fotografia… Bem, eu não posso regressar, porque, em verdade, nunca me afastei completamente dela, apenas a vi em relação com outras linguagens.
– Dizia que pensava…
– Ah, sim. Pensava em Robert Frank e na sua noção de montagem fotográfica, derivada, como sabe, do trabalho do suíço Jakob Tuggener. É certo que não me desviei por completo do cinema, visto que este conceito de montagem não pode ser confundido com fotomontagem. Trata­‑se, na verdade, de uma técnica desenvolvida por Eisenstein, o que nos põe outra vez na órbita das imagens ditas em movimento, mas que Frank utilizou para trabalhar as imagens fixas. Ora, esta técnica coloca a narratividade em fundo na apresentação de uma imagem, quer dizer, enquadra­‑a numa sequência hipotética, entre o que lhe antecede e o que lhe sucede, ainda que estes elementos possam não estar visíveis ou se apresentem sem um nexo causal evidente. É assim que chegamos à descontinuidade em relação às imagens fixas.
– Mas…
– Só um minuto. Já o deixo falar. Há, portanto, um processo de gerar essa descontinuidade no interior das próprias fotografias, o que permite concretizar a interpelação ao espectador de um modo, quanto a mim, mais eficaz. Repare que é ainda de fragmentaridade que eu falo, da possibilidade de separar e de reunir, provocando, através dessa reunião, uma sensação de estranheza que deverá activar o raciocínio daquele que contempla as imagens.
– Então…
– Só um segundo. Imagine que agora me ocorreram dois livros ao pensamento, dois livros recentemente publicados entre nós, mas não percebo muito bem se vieram a propósito do nosso diálogo.
– É a sua descontinuidade a funcionar. Ou as digressões do pensamento, o que vai dar ao mesmo. E que livros são?
A Anomalia Poética, de Silvina Rodrigues Lopes, e a tradução de Ornamento e Crime, do arquitecto Adolf Loos. Decerto não vieram a propósito, mas só o conseguirei saber se escrever sobre eles.
– Então, escreva.

Domingo, Abril 09, 2006

O DUSTBOWL


O título português desencoraja, o original — Carnivàle — é ambíguo, mas trata-se de uma indiscutível obra-prima de Daniel Knauf. Produção HBO. Criador e intérpretes praticamente desconhecidos entre nós, eu sei que sim, mas garanto que são 720 minutos de puro prazer. Gosta de Faulkner? É meio caminho andado para gostar da (e perceber a) série. Esta primeira leva de doze episódios já está disponível em DVD português. Tentando uma hipotética aproximação, diria, simplificando muito, que Magnolia é uma remota referência plástica, mas o filme de Paul Thomas Anderson faz figura de parente pobre ao pé desta saga revolvente sobre a grande depressão de 1934. Não aconselhável a estômagos fracos. Se for dos que aguenta, é assim: cancela todos os compromissos e fica doze horas agarrado ao vídeo.

Sexta-feira, Abril 07, 2006

MAGAZINE


Lembram-se do Acontece de Carlos Pinto Coelho? Acabou, disse-se então, por défice de sofisticação. O conúbio dos artistas naïf do Casino Estoril com a extravagante deriva palopiana trazia a nomenklatura agoniada. Veio o Magazine. Mas veio às tranches. Foi o primeiro erro. Eu fixei as sextas como dia de livros porque fui entrevistado ainda o programa gatinhava. E perdi a noção do resto. Em todo o caso não sou espectador militante de coisa nenhuma. Em dez anos de Acontece devo ter visto sete ou oito emissões. Acontece que o Acontece era visto por muita gente, entre a qual pessoas absolutamente comuns, tão comuns que me abstenho de exemplos para não ser acusado de tiques de casta. O tipo de gente que, mesmo que queira, não sabe esnobar em clave cultural. Eles viam. Viam e comentavam. A nomenklatura deplorava. Em dois anos de Magazine não ouvi ninguém referir uma emissão. Uma que fosse. Anabela Mota Ribeiro esforçou-se, deu o litro, mas terá ficado refém dos ovos que não tinha para as omelettes que sonhara. Agora acabou. Aposto que ninguém vai dar por isso.

AO FIM DA MEMÓRIA


Fernanda de Castro (1900-1994), quem se lembra hoje dela? A obra desaparecida das livrarias alargou o fosso do preconceito. Essa lacuna foi agora ultrapassada pelo Círculo de Leitores, com a colecção das obras completas: dezasseis volumes que coligem poesia, ficção, teatro, memorialismo e literatura para a infância. Os mais novos nunca ouviram o seu nome. Contudo, Fernanda de Castro, com o ser autora de obra vastíssima, em todos os géneros literários, foi também a mulher de António Ferro (1895-1956), o mítico editor da revista Orpheu, criador e ideólogo da “política de espírito” do Estado Novo, ministro de Portugal em Berna e Roma, alguém que privou com os grandes da cultura europeia do seu tempo: Colette, Cocteau, Picasso, Cendrars, Léger, Brancusi, Satie, Picabia, Supervielle, Pirandello, Maeterlinck, Larbaud, Eliade, Valéry, o brasileiro Oswald de Andrade, que foi para Paris depois da Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922), T. S. Eliot, que visitou Portugal a seu convite, etc. O que teria sido do Modernismo português sem a acção de António Ferro? Fernanda de Castro e o marido moravam na casa que foi de Oliveira Martins — e, em consequência, cenário das tertúlias dos Vencidos da Vida —, o primeiro andar do n.º 6 da então chamada Calçada dos Caetanos (hoje Rua João Pereira da Rosa), ao Bairro Alto, tendo como “condóminos” o poeta José Gomes Ferreira, os pintores Fred Kradolfer, Ofélia e Bernardo Marques, e até duas velhas aias dos príncipes D. Luís e D. Manuel. Em tempos mais recuados Ramalho Ortigão ocupara as águas-furtadas do mesmo prédio, que ficou conhecido como Soviete dos Caetanos. Por casa (e por causa) deles passou o tout Lisbonne, incluindo o senhor Fernando António Nogueira Pessoa, “um neurasténico”. São detalhes? São. É para os dar a conhecer que se escrevem memórias. Fernanda de Castro fez a sua parte com brilho indiscutível. Os dois volumes de Ao Fim da Memória publicaram-se pela primeira vez em 1986 e 1987, cobrindo os períodos de 1906 a 1939, e de 1939 a 1987. Rapidamente esgotados, voltam a estar disponíveis no âmbito da reedição em curso, constituindo ambos um desembaraçado repositório da vida cultural portuguesa, em particular para os anos que vão de 1920 a 1975. Há muito por onde escolher para quem gosta de gossip. E mesmo surpresas. Por exemplo, Marguerite Yourcenar e a sua companheira Grace Frick estiveram hospedadas (entre os últimos dias de Dezembro de 1959 e meados de Fevereiro de 1960) no Solar D. Carlos, um discreto hotel de charme, em Cascais, que Fernanda de Castro, então viúva, explorava com a sua amiga Mariana Avillez. Relatos pormenorizados das suas viagens, uma delas a Moçambique, e apontamentos do inner circle dos anos 1960-70, onde pontificavam escritores e artistas como Amália, Ary dos Santos, Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Bernardo Santareno, Isabel Ruth, João Perry, Eunice Muñoz, António Manuel Couto Viana, Manuela de Freitas, Norberto Barroca, Edith Arvelos e outros menos conhecidos fora de círculos intelectuais, fazem destes volumes uma obra singular no contexto da literatura memorialística portuguesa, sempre tão avara em tal domínio. Lembrar ainda que Fernanda de Castro foi mãe do escritor e filósofo António Quadros (1923-1993), teorizador das estruturas simbólicas do Imaginário em literatura, fundador do IADE, e pai da romancista Rita Ferro (n. 1955). Enquanto não chega o volume da poesia completa, previsto para daqui a um mês, ficam estas memórias. Uma sociedade sem passado não é nada.

Quinta-feira, Abril 06, 2006

FRANKÉTIENNE


Jean-Pierre Basilique d’Antor Frank Étienne d’Argent (n. 1936), que adoptou o nome literário de Frankétienne, venceu ontem o Prémio Internacional União Latina de Literaturas Românicas. É escritor, músico e pintor. Nasceu e vive no Haiti. Nos anos 1960 fundou, com René Philoctète e Jean-Claude Fignolé, o movimento Espiralista, que pretendia reflectir sobre o caos social e político do Haiti. Ultravocal (1972) é uma das suas obras mais conhecidas. Na corrida deste ano estavam Maria Velho da Costa e o moçambicano Mia Couto. O prémio já distinguiu três escritores portugueses: em 1991, Cardoso Pires; em 1997, Agustina; em 2003, António Lobo Antunes. Cada seis anos, um dos nossos. Portanto, até 2009, toda a ansiedade será escusada.

A CONDESSA RUSSA


James Ivory costuma provocar um esgar de impaciência naquelas pessoas para quem o cinema se resume a Lars Von Trier ou Wong Kar-Wai. E não devia. É verdade que The White Countess (2005) não tem a espessura de A Room with a View (1985), mas tem Ralph Fiennes e Natasha Richardson, e os dois estão soberbos. Ela não é Kristin Scott Thomas — que fazia par com Fiennes em The English Patient, de Minghella —, mas, entre as duas, venha o Diabo e escolha. Sofia, a condessa russa, evoca «cansaço e tragédia». A performance quase nos faz esquecer Vanessa Redgrave, a tia Sara. Kazuo Ishiguro, que escreveu The Remains of the Day (1993), outro êxito de Ivory, é um dos autores fétiche da cosmogonia do realizador (os outros são E. M. Forster e Henry James). Ninguém melhor do que ele para nos devolver a Xangai dos thirties que precedeu a invasão japonesa e a longa noite do senhor que se seguiu. Sobre este filme, que continua em cartaz, li, não me recordo onde, uma nota “crítica” assinada por alguém que manifestamente não o viu. Para o articulista, o filme era sobre um clube nocturno. Mesmo que fosse (não é), convinha explicar porquê. Mas nem isso. A circunstância de uma ordem que desabava não comoveu o escriba. Eu percebo: a história das pessoas para quem já não há lugar na História sempre foi matéria de melindre. A ignorância faz o resto.

Quarta-feira, Abril 05, 2006

Apologia da catástrofe


Hoje, ao fim da tarde, fui ouvir Howard Barker (aqui fotografado por Olivier Roller) falar do seu conceito de teatro da catástrofe. A conversa teve lugar no Estúdio Zero, na rua do Heroísmo, no Porto, onde o colectivo As Boas Raparigas tem em cena, desde a semana passada, a peça Mãos Mortas. Não foi ontem que fiquei para assistir ao espectáculo, mas o facto de se tratar de um trabalho deste grupo, com a encenação ao cuidado de Rogério de Carvalho, é garantia mais do que suficiente sobre a elevada qualidade do que me será dado ver. Por estes dias, lá irei à noite. Agora tratava­‑se de ouvir o autor, que nem foi o primeiro a falar, pois a apresentação coube ao Paulo Eduardo Carvalho, que se ocupou depois de traduzir a intervenção de Barker. O que é, então, o teatro da catástrofe? Segundo o dramaturgo, será uma recuperação da tragédia para a contemporaneidade, talvez a única possibilidade de encenar o trágico nos nossos dias. É por considerá­‑la a mais ilegítima das formas artísticas, a mais devastadora da ordem social, que Barker defende a sua importância actual. Expliquemos melhor: o dramaturgo não está interessado em nenhum tipo de teatro que veicule uma mensagem, seja ela de carácter político, social ou qualquer outro. Segundo ele, esse tipo de dramaturgia encara o público como uma massa uniforme e pretende condicionar as suas reacções. As críticas contidas nessa forma de arte são adivinhadas de antemão pelo espectador, vão ao encontro das suas expectativas e, portanto, em nada o transformam. Para Barker, o teatro de intervenção seria o resultado natural das democracias tardias em que vivemos, quer em Inglaterra, quer em Portugal, onde é suposto que toda a gente critique qualquer coisa. Aliás, é curioso que ele tenha insistido em apresentar­‑se como um autor europeu e não britânico. Os seus textos não pretendem fazer a desmontagem de nenhuma realidade especificamente nacional (e o mesmo seria dizer regional), antes querem gerar uma tão grande fluidez do sentido que dificilmente dois espectadores terão a mesma reacção perante uma das suas peças. O oposto de Brecht, por exemplo, ou até distante de Sarah Kane, em quem Barker assinala a presença de uma consciência. No seu teatro, o que está em causa é eliminar essa consciência, é esticar os limites para lá do que se imaginava possível. Trata­‑se de esgotar possibilidades, para recorrer ao título de uma das suas peças. Assim se compreende que ele se refira ao silêncio dos espectadores depois de assistirem às representações. A perturbação causada pela indeterminação do sentido, pela fluidez das personagens, que não têm uma psicologia coerente ao longo da peça, será tanto mais produtiva quanto mais o espectador persistir em entender, em encontrar ou construir a sua compreensão.
A verdade é que colocar a questão desta maneira obriga a libertá­‑la do teatro e a alargá­‑la, pelo menos, a outras formas verbais de expressão artística. Assim, o romance da catástrofe seria aquele cujo processo construtivo obedeceria aos mesmos preceitos desse teatro, procedendo à recusa absoluta de qualquer tipo de mensagem, de qualquer lógica aparentada do naturalismo (incluindo aí, claro, o psicologismo) e elaborando situações tão na proximidade do abismo que a sua leitura fosse suficiente para induzir angústia. Tornar a dor visível nas palavras seria o propósito, o que, em verdade, não exclui o riso, como Barker acabou por reconhecer quando disse que todos os grandes trágicos (e ele considera­‑se um trágico) contêm uma dimensão cómica. Mas é de um riso negro que se trata, naquele sentido em que Kristeva dizia que brilhava um sol negro nos textos de Beckett.

TOUR


A Bomba da Carla fez três anos. Parabéns atrasados, mas os últimos dias têm sido caóticos. O nosso Franco Atirador preferido passou a poder ser visto (também) na Sereníssima. O Luís M. Jorge, que eu não conheço, não deixa nunca de surpreender-nos. O mesmo se diga da Maria Armandina Maia, que deixou a guerra do Camões, e veio agora acender uma Luz de Presença. É um blogue de poesia, com links para outras moradas literárias. Obrigado pela Nina Simone que acompanha o meu poema. Adivinha: quem é o blogger, alvo de querela nas últimas semanas, de quem a MAM é sogra por afinidade? Dou 48 horas ao Maradona para descobrir. Outro que não desiste, e faz ele muito bem, é o Luís Mourão, agora com Manchas pós-casmurras a partir de Viana do Castelo. Por último mas não em último, o Afonso Bivar adoptou um piche moderado no Bombyx. Daqui a uns dias saberemos se é definitivo.

Terça-feira, Abril 04, 2006

AMIGOS PARA QUE VOS QUERO


Ninguém se admirará se disser que a polémica à volta da crítica soi-disant amiguista deu origem a discussões divertidas. Alguns perguntavam: «O gajo nunca leu Les Temps Modernes...?» Outros, mais ecuménicos, faziam listas, de Proust a Cardoso Pires. Eliot e Pessoa vinham sempre à baila. Desde Atenas que amigos escrevem sobre amigos. E quando passou a haver locais de trabalho, muitos, e dos melhores, fizeram questão de. Os exemplos são tantos, e tão categóricos, que tive a ingenuidade de supor que um inventário razoável cabia num post. Inventário razoável seria o que não dispensasse nomes indiscutíveis dentro de um espaço aceitável. Um blogue, convenhamos, tem limitações. Quando dei por mim, uma lista seca, sem comentários, relativa aos últimos cem anos, ia nos nove mil caracteres (espaços incluídos). Pura redundância. Então ficamos assim: um punhado de revistas de língua inglesa, por onde passou o Who’s Who da literatura do século XX. Vão citadas por ordem cronológica, com a data de fundação entre parêntesis: Poetry (1912); The New Statesman (1913); a quarta série de The Dial (1918), que foi a que juntou Eliot e o miglior fabbro Pound; The Criterion (1922); The Listener (1929); New Verse (1933); New Writing (1936); The New Criticism (1941); Encounter (1953). Dispenso-me de citar as respectivas listas de colaboradores. Quem anda nestas coisas conhece-as de cor e salteado, e os outros têm como lá chegar. Em todas elas praticamente só se falava dos amigos, não porque fossem amigos, mas porque eram os melhores, e só os melhores eram admitidos. Exemplo maior, o grupo dos bloomsberries. Fora da língua inglesa, com a quota passional dos meridionais, a promiscuidade dispara. Se preferirem exemplos portugueses, podem começar pelo Orpheu. Nada disto isenta o nepotismo, o marketing e o frete ideológico ou de escola (vg. surrealistas, neo-realistas, concretistas, etc.). Uma crítica bem feita é uma crítica bem feita. O resto é lixo.

Poetry International Web

«T-Rex a lustro praguejando a maldita hora das dietas herbívoras.» do excelente André Lemos


Na página Poetry International Web - um projecto a agigantar-se até às últimas consequências -, já foi criado um espaço para Portugal. Com a responsabilidade editorial atribuída ao excelente Richard Zenith (um bom amigo de quem publiquei, no tempo da outra editora, o seu primeiro - único - livro de ficção: «Terceiras Pessoas»), a prestação portuguesa é um trabalho a completar, cobrindo toda a poesia nacional, desde os confins dos séculos até aos novíssimos Ana Paula Inácio e Rui Coias (dois autores, curiosamente, também estreados por mim no tempo da outra editora).
Assim, com traduções do próprio Zenith (conhecido por passar ao inglês Fernando Pessoa e António Lobo Antunes, por exemplo) e também de Alexis Levitin (responsável pelo inglês de Herberto Helder, Eugénio de Andrade, Sophia de Melo Breyner, entre outros.), Portugal tem, com este projecto, uma hipótese válida, de altíssima qualidade, para mostrar ao mundo razões substanciais que justifiquem o brinco de ser um «país de poetas». Suspeito que este projecto possa ser uma das mais precisosas e influentes montras do esforço poético nacional para o mundo ver.

Coisa Ruim



Gosto das histórias ao estilo «casa assombrada», e acho que pode bem ser considerado um sub-género dos filmes de suspense ou terror. Na verdade, gosto particularmente de filmes negros e, de entre todos, uma boa possessão e um bom exorcismo ainda é do que mais me entusiasma. Por isso, não compreendo que o filme de Tiago Guedes e Frederico Serra seja menorizado por se aproximar da clássica ideia da casa assombrada.
O que me parece falhar advém do facto de que, mantendo um ritmo interessante quase o tempo todo, com uma fotografia belíssima, o filme não oferece um clímax. A cena de grande catarse, da qual se esperava muito, acaba por apoiar-se na actuação do jovem filho do casal (João Santos) que, a meu ver, não pôde suportar a exigência do papel.
Agora, sobre o tema, sobre o texto (de Rodrigo Guedes de Carvalho), não me desgosta nada. Aliás, é preciso meter na cabeça de muita gente que o pivot da SIC não aparece na escrita de ficção ao jeito das estrelas de TV que cada vez mais se ocupam com as letras, há bons anos atrás, é importante lembrar, com o seu primeiro romance editado, o autor foi considerado pela revista Ler um dos nomes a reter para as letras portuguesas, lembro-me, ao lado de, por exemplo, a minha querida Adília Lopes.

O COMODATO


Sócrates: «Chega ao fim o episódio Berardo e começa o episódio do Museu BerardoBerardo: «É uma boa alternativa para todos [...] Cedi enormemente, mas não estou arrependido.» Antes assim. O protocolo de comodato foi ontem assinado pelo primeiro-ministro, a ministra da Cultura, o comendador, o presidente do Centro Cultural de Belém, e um administrador da Associação Colecção Berardo. Vai assim nascer o Museu Colecção Berardo de Arte Moderna e Contemporânea, o qual ocupará todo o centro de exposições do CCB, obrigando à saída do Museu do Design. O novo museu abre portas até ao próximo mês de Dezembro. Consta que a arquitecta Margarida Veiga, administradora do CCB com o pelouro da Cultura, poderá ser a directora. Todos os serviços serão prestados pela estrutura do CCB.

À margem da cerimónia, Isabel Pires de Lima, ministra da Cultura, disse que teria preferido «que as Finanças públicas pudessem comprar hoje a colecção», ressalvando que «em tempos de contenção da despesa pública» essa opção corria o risco de ser mal recebida pela opinião pública. Agora, avaliadores internacionais — da Christie’s ou da Sotheby’s — vão avaliar a colecção, para que o Estado saiba com o que pode contar se, até 2016, decidir exercer direito de compra. Não ficou claro se essa avaliação incide sobre o conjunto da colecção (mais de 4000 peças, entre pintura, escultura, instalação, suporte gráfico, numismática, etc.), ou apenas sobre as 863 obras de 500 artistas que vão dar corpo ao novo museu.

O Museu Colecção Berardo de Arte Moderna e Contemporânea será gerido por uma fundação, presidida a título honorário e vitalício pelo comendador (sem direito a voto ou a veto). O conselho de administração será constituído por cinco membros: dois a designar pelo ministério da Cultura, outros dois por Berardo, e um por cooptação entre as partes. A fundação arranca com uma dotação de um milhão de euros, a suportar em partes iguais pelo Estado e por Berardo; e outro milhão de euros para um fundo de aquisições, a suportar nos mesmos moldes.

O Museu do Design irá provavelmente para o Palácio de Santa Catarina, junto ao miradouro com o mesmo nome. Tendo atraído, em 2005, mais de quarenta mil visitantes (ou seja, 23% do total de visitas pagas ao CCB), a colecção Capelo, que inclui design e moda, é gerida desde 2004 pela Câmara Municipal de Lisboa, por acordo entre o coleccionador e Santana Lopes. O espólio de moda nunca foi exposto em continuidade. Suponho que em Santa Catarina, onde ficará muito bem, será possível expor as 700 peças. Nos 1400 metros quadrados que ocupa no centro de exposições do CCB só estão expostas 350.

Parece ter chegado ao fim uma birra fútil. Agora só falta acabar o CCB, isto é, mandar construir os módulos 4 e 5, destinados a hotel e galeria comercial. Tudo indica que António Mega Ferreira criará condições para que tal aconteça. Quanto às virtualidades do novo museu, não vou repetir o que anteriormente escrevi sobre o assunto. Pessoalmente, os dez anos de comodato parecem-me curtos. O Estado queria 35, o comendador concedeu 10. Step by step...? A ver vamos se em 2016 não há novo folhetim. Uma coisa é certa: para já, temos museu. Ah!, a imagem ao alto parece o CCB, mas não é. É o Museu Guggenheim de Bilbao, enquadrado pelas patas gigantes de Maman, obra de Louise Bourgeois.

Segunda-feira, Abril 03, 2006

CITAÇÃO, 24


José Pimentel Teixeira, no Ma-Schamba. Edit e sublinhado meu. Como desacelerador de ênfase não conheço melhor. Mas é preciso ler na íntegra.


«[...] O que é a “literatura”? Coisa a definir por um antropólogo da cultura, ou quejando? Ou “coisa honesta”, transpirada/inspirada, no bem moralismo burguesote? Ou, mais do que tudo, por que é que as pessoas hão-de ler literatura (ou só literatura)? Nessa criteriosa falsa cientificidade quem vetar? V. já leu todo o Homero, todo o Heródoto, todo o Tácito (cagão como tantos informo que foram as minhas “releituras” do ano transacto)? Então se não leu como é que anda a ler o Pedro Paixão, o Agualusa ou até mesmo o Crime do Padre Amaro do filme com a gaja boa? Já comparou o Paixão com o Homero? O Eça com o Celine? Não é de vetar os patrícios? Não será também sinal de “grande cultura” doméstica? Ascensão (ou manutenção) social? Diga lá, exactamente, onde está a fronteira a partir da qual fica bem ler-se? E mal, se do outro lado? [...] E que no meio de tanta “cultura”, sem saber que está em práticas culturais, de repente clica e julga ascender-se. Gente que vive no rés-do-chão e em chegando-se a histórias escritas acha que tem que subir a escadaria, sem perceber que é mero acto reflexo. Gente que nisso, e só por isso, define o que é literatura, e “paulo coelho não”, “rebelo pinto não”. [...]»

ROMANÉE-CONTI MONOPOLE 1996


Sábado, no Público, o tema de capa do suplemento Fugas foi o vinho da vida de João Canijo: o Romanée-Conti Monopole 1996. Subtítulo: «2800 euros bebidos aos golinhos». Pensei: grande noite no Pierre Gagnaire (6, rue Balzac, Paris). Mas não. Tudo se passou no restaurante Eleven, em Lisboa. Lida a peça, ficamos a saber que a ideia era celebrar com dois amigos «a concretização de um projecto profissional». Para tanto, pediu o Montrachet Romanée-Conti 1990, um branco, constante da lista a 750 euros. Tinha acabado. Foi então pedido ao escanção — um «jovem leviano [...] incompetente e irresponsável» — que trouxesse um tinto, o Romanée-Conti Monopole 1990, dado como custando 760 euros. Veio o de 1996, que afinal custa 2800 euros a garrafa. Canijo, apesar do «prazer sem igual», deplorou a desfaçatez. O episódio, “escondido” numa secção de hot spots, rasura a denúncia que se impunha sem subterfúgio. É por estas e por outras. Talvez a despropósito, lembrei-me do almoço que há coisa de ano e meio alimentou o gossip da City: seis executivos de um Banco foram almoçar, salvo erro ao Le Gavroche (43, Upper Brook St, Londres), e alguém do restaurante passou ao Times a notícia do consumo de três garrafas de um Grand Cru excepcional, no valor de centenas de libras. Ao cabo de dias de embaraços, o Banco negociou com os seis a rescisão dos respectivos contratos. Eles tinham pago do seu bolso. Isso não estava em causa. O Banco é que não podia permitir-se aquela imagem. Canijo, um artista, está a coberto de tais pruridos.

Domingo, Abril 02, 2006

O GÉNERO PENSA?


Começa amanhã, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, um curso de formação em Estudos Feministas e de Género, co-organizado pela unidade de investigação Faces de Eva, daquela Faculdade, e pela Criativação. Entre 3 de Abril e 29 de Maio, O Género Pensa? reúne docentes da FCSH e convidados externos, os quais vão debater questões de sexo e género aplicadas ao quotidiano, à literatura, às novas expressões artísticas, à ciência, às dicotomias do poder masculino e feminino, etc. Zília Osório de Castro, Isabel Allegro de Magalhães, Teresa Almeida, D. Fernando Mascarenhas (marquês de Fronteira), Maria Teresa Horta, Dulce Maria Cardoso, Teresa Nogueira (presidente da secção portuguesa da Amnistia Internacional), Pedro Sena-Lino, o jesuíta Carlos Carneiro, Luísa Abreu Nunes (arqueóloga e conservadora do Museu de Arte Popular), Rui Zink, valter hugo mãe e outros, fazem parte do painel das 15 sessões. Pedro Mexia é um dos convidados “contrastantes”. O programa pode ser consultado aqui. No próximo dia 10 vou ler passagens do meu ensaio Fractura. A Condição Homossexual na Literatura Portuguesa Contemporânea, objecto, também, de debate no próximo dia 12. As sessões decorrem das 18:00h às 20:00h. Quem assistir às quinze sessões (30 horas) tem direito a certificado emitido pela FCSH.

TRÉPLICA E PONTO FINAL


Engano seu, cara senhora D. Inês S. Longe de mim dar lições a quem quer que seja, e muito menos de natureza jurídica. Limitei-me a sublinhar práticas correntes da blogosfera. Podia dar-se o caso de ter encomendado e, em consequência, pago, a um “especialista”, o desenho de um blogue, desconhecendo, como acontece a muito boa gente (sem que isso constitua desdouro), o carácter universal e gratuito do catálogo do Blogger. Nesse caso, vendo apropriado por terceiros o seu template, a surpresa e o desconforto seriam legítimos. Verifico que não, que domina as tramitações. Ainda bem. Sendo assim, dispenso-me de minudências. Apenas me espanta que considere menos própria a utilização de “ela”. Na economia da frase era o tratamento adequado. Mas, se ofendi, peço desculpa. A mim pode tratar-me por “ele” as vezes que entender.

Sábado, Abril 01, 2006

DESATINO


Esta senhora desatinou com o objecto cardíaco. E pede: «Haja pudor». Como assim? Provavelmente ninguém lhe disse que o template de Douglas Bowman está em domínio público. De outra forma ela também não lhe chegava. Copiou, ou alguém por ela, o código ao alto. Fez muito bem. Fez exactamente o mesmo que fazem milhares de bloggers em todo o mundo. O catálogo do Blogger não serve para outra coisa. Ah!, se for por causa das minúsculas, lembrar que o valter hugo mãe assina e publica sempre em minúsculas, e já o faz há dez anos.

O POSFÁCIO


Enquanto o juíz não decide a eficácia da providência cautelar, fui ler o posfácio de Couves & Alforrecas. Nesse texto, João Pedro George dá conta do feedback provocado pela manchete do 24 Horas no dia 6 de Outubro de 2005: «Vários foram depois os órgãos de informação que fizeram eco do caso. [...] A caixa de correio electrónico, durante mais de uma semana, encheu-se das mais loucas e variadas mensagens.» Seguem-se 56 linhas de transcrições de e-mail. Por exemplo, a «leitora Cláudia Monteiro» considera que JPG «merece uma medalha da ordem de D. Henrique por este tão nobre e útil serviço à nação.» Da minha parte, nada a acrescentar sobre a close reading que deu origem aos equívocos dos últimos dias. A esse respeito terei sido dos primeiros, senão mesmo o primeiro, a pronunciar-se em letra de forma. Foi por causa do que escrevi aqui que o valter hugo mãe foi ler o João Pedro George. Foi esse o pontapé de saída do livro. Quanto ao que interessa: a legitimidade da edição da objecto cardíaco é inegociável. Ponto.