Caminhos da literatura

O propósito é o da afirmação da singularidade de cada obra de arte, inerente às suas circunstâncias, o que deve implicar uma clara recusa da tendência dominante de tudo universalizar. Daqui deriva, em primeiro lugar, um questionamento da ficcionalidade como constituinte do discurso literário, na medida em que aquela seria responsável pela tal universalidade indesejada. Esclareça‑se que o alcance desta ideia não é, por exemplo, o de subvalorizar o romance enquanto forma literária, como se verá mais adiante. O problema é antes o dos discursos que, segundo SRL, visam conter e negar os efeitos da literatura. No primeiro ensaio do livro, intitulado precisamente «Literatura e Circunstância», a autora lembra que remeter a literatura «para a categoria da ficção ou da representação pode ser um dos modos de a neutralizar, seja porque isso corresponda a remetê‑la para um estatuto de diversão, seja porque assim se lhe confere uma função que vai ao encontro de um desejo de controlo da multiplicidade pela imposição de modelos, que são sempre totalizadores, mesmo quando minoritários» (pp. 14-15).
Submetida à condição de se libertar dos modelos generalizáveis, a função da literatura, enquanto arte verbal, consiste em apresentar a especificidade do ser humano, aquilo que não pode ser mostrado de nenhuma outra forma, e que, por isso mesmo, não aceita a reconversão em qualquer outro tipo de linguagem. Nas palavras da ensaísta, trata‑se de «uma das radicais maneiras de desfixar o imaginário, isto é, de desfazer as fórmulas susceptíveis de produzir imagens verosímeis, manipuláveis e reduzíveis a um valor de troca» (p. 18). O conceito de literatura, ou de arte, que aqui se evidencia é o que pode dar conta da complexidade do ser humano, o que é expressão dos seus múltiplos conflitos, mas que não pretende resolvê‑los, pois isso seria o mesmo que enquadrar‑se na lógica de um processo adaptativo.
Ora, em relação ao romance como forma literária, o que a dimensão problemática deste conceito vem sublinhar é a imperiosa necessidade de ele se configurar «contra a linearidade cronológica das histórias contadas, na medida em que esta impõe uma ordem à multiplicidade inesgotável da experiência» (p. 21). Explicitar uma visão fragmentária do mundo torna‑se condição essencial da possibilidade de escrever hoje um romance que, como diria Kundera, não caia no exterior da sua História. Também por isso, o que estará, então, em causa já não será a maior ou menor adequação ao universo exterior da narrativa, pois este conceito pressupõe outra leitura da verosimilhança. SRL explicita‑a no ensaio seguinte, «A Literatura no Limite da Ficção», ao lembrar que a «narrativa que recusa a verosimilhança enquanto semelhança com o exterior não é por isso mais arbitrária do que a que se pretende verosímil», pois «ambas possuem uma determinação finalista». A sua diferença reside no facto de a segunda exibir «uma motivação que oculta a ficcionalidade dos seus elementos sob a máscara da determinação causal, enquanto aquela que não reivindica verosimilhança se expõe como funcionalidade, podendo sempre o leitor reconduzi‑la ao verosímil». O mesmo seria dizer que «a ficcionalidade da narrativa depende da sua organização interna e não de qualquer semelhança com o exterior», de acordo, aliás, com Aristóteles, que considerava «mais importante na tragédia o ser crível do que o ser possível.» (p. 57).
A dimensão de tragédia associada ao romance serve para esclarecer algumas das linhas orientadoras de uma caminho possível para a arte contemporânea que não queira abdicar dessa função insubstituível de apresentar a singularidade do ser humano. Também a mim, para usar os termos do Luís Mourão, «uma história bem contada, em literatura, não me interessa nada», também eu encaro isso como uma perda de tempo, e não sei sequer se no cinema o plot me basta, por mais inteligente que o filme possa ser. Procuro antes a obra que exponha um traço da especificidade humana, e este será tanto mais importante quanto a sociedade em que vivo procure ocultá‑lo. O lado trágico significa aqui a inelutabilidade da dor e da morte, mas sem qualquer tipo de síntese que resolva a conflitualidade e imponha uma redenção conciliatória, a qual não seria senão uma falsidade inadmissível.















































