PERCEBER A EUROPA

Quem lê a New York Review of Books, o Times Literary Supplement, a New Republic e publicações similares, identifica com facilidade o historiador inglês Tony Judt (n. 1948), actualmente professor de Estudos Europeus na Universidade de Nova Iorque, e antigo professor de História em Cambridge, Oxford e Berkeley. Anteriores obras suas, como Identity Politics in A Multilingual Age (2004), Socialism in Provence 1871-1914: A Study in the Origins of the Modern French Left (2000), The Burden of Responsibility: Blum, Camus, Aron, and the French Twentieth Century (1998), A Grand Illusion? An Essay on Europe (1996) ou Marxism and the French Left: Studies on Labour and Politics in France 1830-1982 (1990), não estão traduzidas em Portugal. Mas Postwar: A History of Europe Since 1945, originalmente publicada em 2005, está. É uma das boas novidades da quadra. Ando há dias enfronhado no livro, que tem 963 páginas, das quais ainda só li 357. Vou no capítulo das Ilusões Perdidas, o que significa o pleno dos anos 1960. Recomendo sem reservas. Os plumitivos que peroram incessantemente sobre política europeia e conflitos regionais conexos, tinham muito a ganhar com a leitura deste Pós-Guerra. História da Europa desde 1945. Judt, como sabem todos os leitores da NYRB, tem uma posição muito crítica face a Israel, mas nunca perde de vista o essencial, e a isenção (nesse como noutros temas) é de rigueur. Isso não o impede de declarar no prefácio: «Sem abandonar, espero eu, a objectividade e a isenção, apresento em Pós-Guerra uma interpretação do passado recente da Europa que é declaradmente pessoal.» As referências próximas são Eric Hobsbawm, George Lichtheim, A. J. P. Taylor e François Furet. Porquê estes e não outros? Porque «revelam uma segurança que advém de uma grande erudição e de um género de autoconfiança intelectual que raramente se encontra nos seus sucessores, para além de evidenciarem uma clareza de estilo que deveria servir de modelo para qualquer historiador.» A obra é traduzida por Victor Silva, os capítulos I a IX; Maria Manuel Cardoso da Silva, os capítulos X a XIX; e Patrícia Xavier, os capítulos XX a XIV e também o Epílogo. Não há indicação de quem traduziu as quatro páginas do Prefácio e as onze da Introdução. As guardas do volume (capa dura) estão ilustradas com mapas da Europa em 1947 e na actualidade. Vários portfolios de fotografias recuperam a memória dos últimos 60 anos. Um senão: o peso excessivo do volume. A gente lê um hardcover inglês ou americano, com mais de mil páginas, enterrado no sofá. Com este é preciso mudar de mão a cada três páginas, fincar o cotovelo, e ter cuidado para não partir a cabeça do gato... Suponho que não seja necessário ser profissional da edição para perceber que o tipo e a gramagem do papel não pode ser o mesmo num livro de 90 ou de 900 páginas. Ou não será?
Etiquetas: Nota de leitura

<< Home