sexta-feira, Dezembro 29, 2006

A crise da Leitura


Segundo o Público de hoje, o grupo LMB, proprietário da editora Civilização está em vias de adquirir 90% do capital da Livraria Leitura, do Porto, depois de já haver comprado a Bulhosa, de Lisboa. Segundo Pedro Moura Bessa, da Civilização, «a Leitura tem uma tradição e um nome que achamos poder contribuir para o crescimento da Bulhosa», sendo «possível preservar, mas também melhorar, o serviço actualmente prestado», pois fazem «falta livrarias como a Leitura em Portugal». Tudo isso está certo, e talvez venha a ser positivo para a livraria fundada em 1968 por José Carvalho Branco e Fernando Fernandes a mudança agora quase anunciada. Um olhar mais atento para o panorama das livrarias no Porto, no entanto, demonstra que um certo declínio em termos de clientela na Leitura ocorreu paralelamente a um acréscimo de visitas na Latina, situada na rua de Santa Catarina, perto do Teatro S. João, do Coliseu, não muito distante do Rivoli, mas, sobretudo, perto de uma zona tradicional de comércio, agora bem servida pela estação de metro do Bolhão. Significa isto que a Latina presta melhor serviço aos clientes do que a Leitura? Não, ainda que a Latina também seja uma excelente livraria. O problema não pode é colocar­‑se desta maneira, porque a maioria dos actuais compradores de livros não os procura, antes se limita a encontrá­‑los no caminho e a decidir, então, qual comprar, se realmente decidir comprar algum. Ora, a Leitura, onde cerca de 55% das vendas já se deveu à aquisição de livros estrangeiros, antes do advento da Amazon, da Barnes & Noble, da Chapitre, da Alapage, ou de tantas outras, está sedeada numa zona desfavorecida pelo movimento urbano, demasiado distante do metro, com os carros a esconderem­‑se no túnel de Ceuta, longe dos passos dos caminhantes que, no nosso tempo, parecem cada vez mais interessar­‑se apenas por aquilo que lhes colocam à frente. Tudo isto não impede que a Leitura tenha também a melhor livraria virtual portuguesa, como o Eduardo já assinalou, ou que continue a dispor de alguns dos melhores funcionários de livrarias deste país, que nunca colocariam O Livro do Meio na secção infanto­‑juvenil, por causa dos meninos da capa, como aconteceu numa Fnac, mas a nossa época não parece compadecer­‑se com tanta especialização.