BOA VIDA

A pretexto de quatro coffee tables sobre Angola e Moçambique, a edição da revista Sábado que saiu ontem traz uma reportagem com este título: Memórias da Boa Vida em África. Nunca li tanto disparate junto. Sobre Angola, abstenho-me de comentar. Sobre Moçambique, onde nasci e vivi até aos 26 anos, alguns reparos. Diz o autor do texto, António Sarmento: «A vida em Moçambique era diferente. Na década de 60, o país tinha seis milhões de habitantes. Havia 200 mil que tinham vindo da metrópole [...]». Fica subentendido que “estes” 200 mil eram os brancos. Sucede que mais de metade dos brancos de Moçambique eram pessoas nascidas no território. Ao contrário de Angola, para onde foi quem quis, a emigração para Moçambique esteve fortemente condicionada até 1969. Mais adiante, para descrever jantares de gala no Hotel Polana, de Lourenço Marques, escreve: «Maria [mulher de um oficial do exército] levava um vestido comprido [...] As senhoras arranjavam-se ainda com fios, anéis e pulseiras em ouro.» Aquele “ainda” comove-me. Parece a descrição de um arraial minhoto. A realidade era menos prosaica. Só para dar uma ideia, em 1960, um vestido de cerimónia, assinado por um dos dois ícones da alta costura local (Laurentina Borges ou Viriato Henriques), ultrapassava com facilidade os 200 contos. Duzentos contos, em 1960. Não estamos a falar de mulheres de oficiais. E não, não havia discotecas. O conceito nem sequer existia. Havia, nos hotéis de luxo, boîtes; e, na rua Araújo, vários night-clubs, dancings e cabarets. Creio que a primeira discoteca com esse nome surgiu em 1974. O Zambi, expressamente citado, foi, quando abriu, uma boîte, depressa convertida em restaurante. Ainda o Hotel Polana: «O jantar era sempre acompanhado por um pianista.» De facto era uma pequena orquestra. Uma das pessoas ouvidas pelo repórter, falando de tempos livres, afirmou preferir ir «para a ilha da Inhaca [...] onde o tio tinha casa.» Talvez fosse o dono do hotel. É que na Inhaca, para onde se vai de avião, só havia o resort. Uma praia muito concorrida, o Bilene, a 300km da cidade (distância que em África é irrelevante), célebre por ser um lago transparente onde os pais deixavam os filhos pequenos à vontade, é descrita nestes termos: «Apanhava-se lagosta com a mão.» OK. Mas o mais engraçado é uma caixa onde se tenta descrever o que a “alta sociedade” (sic) fazia em África. Na parte relativa a Moçambique, um dos tópicos reza: «Conviver com turistas estrangeiros nas esplanadas de Lourenço Marques.» Mas a alta sociedade não frequentava esplanadas... Frequentava clubes privados (o Grémio, o Naval, o British, etc.) e as casas e piscinas dos seus iguais. No Carnaval e no réveillon ia aos bailes do Polana, mas só nessas datas, e, a partir de certa altura — quando o conceito de classe média alta alargou, gerando novos clubes, como o dos Antigos Estudantes de Coimbra e o de Pesca Desportiva — entrincheirou-se no Grémio, o country club das famílias fundadoras. E não vou recuar aos anos 1930-40, quando havia ópera e casinos (três), porque a reportagem é sobre a golden age dos anos 1960-70.

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