AL BERTO

Hoje no Público:
Uma biografia de Al Berto não pode deixar de gerar natural expectativa. Se alguém na poesia portuguesa do século XX transgrediu a linha de fronteira entre cena literária e espaço público, esse alguém foi o Al Berto, poeta atrás de quem se escondia o cidadão Alberto Raposo Pidwell Tavares. A novidade relativa está em que tenha sido pela mão de uma estrangeira, a romena Golgona Anghel (n. 1979), que essa biografia tenha chegado até nós, fruto de um trabalho académico desenvolvido em Portugal. O facto talvez explique a circunstância de estarmos perante uma obra que é mais do domínio do ensaísmo de matriz biográfica que do biografismo clássico à maneira de Boswell. Seja como for, Eis-me acordado muito tempo depois de mim constitui, para já, a primeira abordagem biográfica do autor. Seguindo uma tradição conceptual que mistura Quincey, Nietzsche e Borges, a biografia feita por Golgona Anghel estrutura-se em «três séries narrativas». A cada série corresponde um tópico, ou conjunto de tópicos, pré-definido: na primeira, «acontecimentos pontuais mas importantes, que jogam com o sentimento e com a ideia num devir comum»; na segunda, «questões temáticas essenciais [...] como a infância, a adolescência, a preocupação pela pintura, a promoção de uma política de defesa da homossexualidade [...] a doença e a morte»; e, na terceira, que intercala as anteriores, factos cronologicamente alinhados. É isto que a autora nos diz nas Instruções de Uso. Porém, nas Fontes Bio-Bibliográficas, precisa: «Não foram reveladas informações relativas à vida íntima do poeta para respeitar o direito à privacidade bem como a vontade expressa da família. Não tive acesso aos diários de Al Berto nem às suas cartas.» Tenho dificuldade em aceitar a omissão de informações de natureza privada, e não percebo como é possível redigir a biografia de um autor de quem se desconhecem os diários (nos casos em que existam) e a correspondência. Nos casos, e são muitos, em que os herdeiros vedam o acesso a essa documentação, as entrevistas aos contemporâneos permitem fazer luz sobre aspectos importantes da vida (e, por vezes, da obra) do biografado. Sucede que a lista das pessoas entrevistadas é curta: a irmã do poeta, Cristina Pidwell Tavares; o último companheiro de Al Berto, não identificado como tal; o tradutor Richard Zenith; os poetas Manuel Gusmão e Fernando Pinto do Amaral, e o académico Nuno Nabais. O contributo destas personalidades não está sinalizado. Não sabemos o que lhes foi perguntado nem o que responderam. Portanto, exceptuando Jean-Pierre Léger, testemunha privilegiada, ficou de fora quase toda a gente que podia acrescentar (com distância crítica e conhecimento de causa) informação relevante. Mesmo de cor, e sem sair da literatura, lembro-me de uma dúzia de nomes que não podem ser ignorados se o propósito for biografar Al Berto. Mas não é só na literatura: nas artes plásticas, no jornalismo, na “noite” de Lisboa, no quotidiano de Sines, nas editoras por onde passou, em toda a parte há testemunhas qualificadas do seu percurso. Se o móbil foi evitar o relato de episódios pouco ortodoxos, a iconografia do volume boicota-o. A escolha dos retratos será tudo menos inocente. No prefácio, Agustina Bessa-Luís diz que o trabalho de Golgona Anghel «tem o que falta em geral às biografias: tem a pesquisa do coração humano.» É uma frase de efeito, que perde de vista o essencial. Com Eis-me acordado muito tempo depois de mim, Golgona Anghel constrói a biografia de Al Berto intercalando uma narrativa (feita a partir da montagem de entrevistas reais) com excertos de textos do autor. Funcionando como cortinas, quatro cronologias do poeta: 1948-82, 1983-89, 1990-93 e 1994-97. Menor cuidado na redacção e ulterior revisão levou a que nove linhas da cronologia da página 83 sejam repetidas na narrativa da página 99. A bibliografia sobre Al Berto atém-se a obras em volume, o que é um critério razoável. Mas a ênfase dada a textos jornalísticos dos anos 1970 deixa na sombra os textos de crítica que as principais obras do autor suscitaram nos anos 1980 e 1990, sobretudo a partir da primeira edição da poesia reunida. É estranho que assim seja, pois Golgona Anghel diz ter consultado, sistematizado e digitalizado «todos os artigos e ensaios sobre Al Berto divulgados entre 1976 e Agosto de 2005 sobretudo em Portugal mas também...», e faz mesmo o elenco de títulos das 55 publicações periódicas consultadas. Não se trata de exigir bibliografias passivas exaustivas, mas Golgona Anghel rasurou de mais. Quem não saiba, fica com a sensação de que os livros de Al Berto deram azo a comentários circunstanciais e a praticamente mais nada. Ora, não sendo a sua obra alvo de larga recepção crítica, há omissões deveras inexplicáveis. A biografia “oficial” é conhecida. Al Berto nasceu em Coimbra no dia 11 de Janeiro de 1948. Tinha pouco mais de um ano quando o pai, estudante de medicina, desiste do curso e regressa a Sines, terra da família Pidwell Tavares. É ali que nascem os irmãos, Cristina e António, e é ali que Al Berto passa toda a infância e parte da adolescência. Depois da escola primária em Sines e do colégio em Santiago do Cacém, vem para Lisboa frequentar a António Arroio e um curso de formação artística na Sociedade Nacional de Belas Artes. Na Primavera de 1967 troca Portugal pela Bélgica: «nunca esqueceu esse 14 de Abril. Exila-se em Bruxelas, primeiro na qualidade de estudante [...] e, mais para contornar escolhos burocráticos de índole xenófoba, como refugiado político.» Depressa mandou às urtigas o curso de pintura monumental na École Nationale Supérieure d'Architecture et des Arts Visuels... Colabora em publicações marginais, redigindo sempre em francês. Um dos capítulos da biografia, História dum desencontro intermitente, dá conta desses anos de diáspora: descoberta de Genet, viagens ao sul de França e a Espanha, etc. O regresso a Portugal e à quinta dos avós ocorre em Novembro de 1975. Abre uma livraria, funda uma editora que leva o seu nome, publica À procura do vento num jardim d’Agosto (1977), primeiro livro escrito em português. Entretanto, Joaquim Manuel Magalhães dá por ele e chama a atenção para o seu nome. Colaborador da autarquia (1981-86) e, mais tarde, director do Centro Cultural Emmerico Nunes, acabará por deixar Sines em Janeiro de 1987. É o ano da consagração: O Medo colige a sua poesia reunida, por ele recebe o prémio do PEN Clube. Os livros subsequentes desaceleram o nível transgressor e, no 10 de Junho de 1992, Mário Soares condecora-o com a Ordem Militar de Santiago de Espada. Os anos seguintes são de reconhecimento crescente. O capítulo final, O que vejo já não se pode cantar, ilustra a fase terminal da doença: «O corpo falha sem pedir licença». Aqui há algum detalhe: o internamento, o dia em que os amigos foram despedir-se, o texto de Clara Ferreira Alves acerca desse momento. Perto de si está o companheiro e estão também os irmãos e uma sobrinha: são eles «quem o apoia na dignidade do comer, do simples e ao mesmo tempo tão complicado gesto de levar a colher à boca.» Morreu cerca das 23:00h do 13 de Junho de 1997. Tinha 49 anos. Mas nada disto é novidade. Surgido numa época propícia à nomeação de todos os interditos, Al Berto trouxe à poesia portuguesa um conjunto de temas que configuram desvios da ordem falocêntrica: intercurso anal, homossexualidade, sexo em grupo, etc., os quais, associados à deriva libertária e ao imaginário hippie (amor livre, travestismo, drogas, prostituição masculina, rock, etc.), imediatamente fixaram um padrão que o afastava tanto do aticismo semântico dos poetas dos anos 1960 como do “regresso ao real” que caracterizou a poesia dos anos 1970, na medida em que o retorno ao sentido se fez, nos melhores casos, com recurso ao diálogo culturalista. Pelo contrário, Al Berto, contaminando a escrita com os acidentes biográficos, sem excessivas preocupações de genealogia literária, conseguiu impor a imagem de marca de uma certa contracultura. E pode-se dizer que o fez com a arrogância dos que não temem afirmar identidade própria. Conheci bem o Al Berto, fui seu amigo, viajámos juntos, privei com ele durante catorze anos, tenho escrito sobre a obra, sei que Golgona Anghel omite muita coisa. É pena. Com o excelente material fotográfico que a família disponibilizou, esta biografia podia ser outra coisa.
Al Berto, a biografia, in MIL FOLHAS, 1-12-2006, p. 14.
Uma biografia de Al Berto não pode deixar de gerar natural expectativa. Se alguém na poesia portuguesa do século XX transgrediu a linha de fronteira entre cena literária e espaço público, esse alguém foi o Al Berto, poeta atrás de quem se escondia o cidadão Alberto Raposo Pidwell Tavares. A novidade relativa está em que tenha sido pela mão de uma estrangeira, a romena Golgona Anghel (n. 1979), que essa biografia tenha chegado até nós, fruto de um trabalho académico desenvolvido em Portugal. O facto talvez explique a circunstância de estarmos perante uma obra que é mais do domínio do ensaísmo de matriz biográfica que do biografismo clássico à maneira de Boswell. Seja como for, Eis-me acordado muito tempo depois de mim constitui, para já, a primeira abordagem biográfica do autor. Seguindo uma tradição conceptual que mistura Quincey, Nietzsche e Borges, a biografia feita por Golgona Anghel estrutura-se em «três séries narrativas». A cada série corresponde um tópico, ou conjunto de tópicos, pré-definido: na primeira, «acontecimentos pontuais mas importantes, que jogam com o sentimento e com a ideia num devir comum»; na segunda, «questões temáticas essenciais [...] como a infância, a adolescência, a preocupação pela pintura, a promoção de uma política de defesa da homossexualidade [...] a doença e a morte»; e, na terceira, que intercala as anteriores, factos cronologicamente alinhados. É isto que a autora nos diz nas Instruções de Uso. Porém, nas Fontes Bio-Bibliográficas, precisa: «Não foram reveladas informações relativas à vida íntima do poeta para respeitar o direito à privacidade bem como a vontade expressa da família. Não tive acesso aos diários de Al Berto nem às suas cartas.» Tenho dificuldade em aceitar a omissão de informações de natureza privada, e não percebo como é possível redigir a biografia de um autor de quem se desconhecem os diários (nos casos em que existam) e a correspondência. Nos casos, e são muitos, em que os herdeiros vedam o acesso a essa documentação, as entrevistas aos contemporâneos permitem fazer luz sobre aspectos importantes da vida (e, por vezes, da obra) do biografado. Sucede que a lista das pessoas entrevistadas é curta: a irmã do poeta, Cristina Pidwell Tavares; o último companheiro de Al Berto, não identificado como tal; o tradutor Richard Zenith; os poetas Manuel Gusmão e Fernando Pinto do Amaral, e o académico Nuno Nabais. O contributo destas personalidades não está sinalizado. Não sabemos o que lhes foi perguntado nem o que responderam. Portanto, exceptuando Jean-Pierre Léger, testemunha privilegiada, ficou de fora quase toda a gente que podia acrescentar (com distância crítica e conhecimento de causa) informação relevante. Mesmo de cor, e sem sair da literatura, lembro-me de uma dúzia de nomes que não podem ser ignorados se o propósito for biografar Al Berto. Mas não é só na literatura: nas artes plásticas, no jornalismo, na “noite” de Lisboa, no quotidiano de Sines, nas editoras por onde passou, em toda a parte há testemunhas qualificadas do seu percurso. Se o móbil foi evitar o relato de episódios pouco ortodoxos, a iconografia do volume boicota-o. A escolha dos retratos será tudo menos inocente. No prefácio, Agustina Bessa-Luís diz que o trabalho de Golgona Anghel «tem o que falta em geral às biografias: tem a pesquisa do coração humano.» É uma frase de efeito, que perde de vista o essencial. Com Eis-me acordado muito tempo depois de mim, Golgona Anghel constrói a biografia de Al Berto intercalando uma narrativa (feita a partir da montagem de entrevistas reais) com excertos de textos do autor. Funcionando como cortinas, quatro cronologias do poeta: 1948-82, 1983-89, 1990-93 e 1994-97. Menor cuidado na redacção e ulterior revisão levou a que nove linhas da cronologia da página 83 sejam repetidas na narrativa da página 99. A bibliografia sobre Al Berto atém-se a obras em volume, o que é um critério razoável. Mas a ênfase dada a textos jornalísticos dos anos 1970 deixa na sombra os textos de crítica que as principais obras do autor suscitaram nos anos 1980 e 1990, sobretudo a partir da primeira edição da poesia reunida. É estranho que assim seja, pois Golgona Anghel diz ter consultado, sistematizado e digitalizado «todos os artigos e ensaios sobre Al Berto divulgados entre 1976 e Agosto de 2005 sobretudo em Portugal mas também...», e faz mesmo o elenco de títulos das 55 publicações periódicas consultadas. Não se trata de exigir bibliografias passivas exaustivas, mas Golgona Anghel rasurou de mais. Quem não saiba, fica com a sensação de que os livros de Al Berto deram azo a comentários circunstanciais e a praticamente mais nada. Ora, não sendo a sua obra alvo de larga recepção crítica, há omissões deveras inexplicáveis. A biografia “oficial” é conhecida. Al Berto nasceu em Coimbra no dia 11 de Janeiro de 1948. Tinha pouco mais de um ano quando o pai, estudante de medicina, desiste do curso e regressa a Sines, terra da família Pidwell Tavares. É ali que nascem os irmãos, Cristina e António, e é ali que Al Berto passa toda a infância e parte da adolescência. Depois da escola primária em Sines e do colégio em Santiago do Cacém, vem para Lisboa frequentar a António Arroio e um curso de formação artística na Sociedade Nacional de Belas Artes. Na Primavera de 1967 troca Portugal pela Bélgica: «nunca esqueceu esse 14 de Abril. Exila-se em Bruxelas, primeiro na qualidade de estudante [...] e, mais para contornar escolhos burocráticos de índole xenófoba, como refugiado político.» Depressa mandou às urtigas o curso de pintura monumental na École Nationale Supérieure d'Architecture et des Arts Visuels... Colabora em publicações marginais, redigindo sempre em francês. Um dos capítulos da biografia, História dum desencontro intermitente, dá conta desses anos de diáspora: descoberta de Genet, viagens ao sul de França e a Espanha, etc. O regresso a Portugal e à quinta dos avós ocorre em Novembro de 1975. Abre uma livraria, funda uma editora que leva o seu nome, publica À procura do vento num jardim d’Agosto (1977), primeiro livro escrito em português. Entretanto, Joaquim Manuel Magalhães dá por ele e chama a atenção para o seu nome. Colaborador da autarquia (1981-86) e, mais tarde, director do Centro Cultural Emmerico Nunes, acabará por deixar Sines em Janeiro de 1987. É o ano da consagração: O Medo colige a sua poesia reunida, por ele recebe o prémio do PEN Clube. Os livros subsequentes desaceleram o nível transgressor e, no 10 de Junho de 1992, Mário Soares condecora-o com a Ordem Militar de Santiago de Espada. Os anos seguintes são de reconhecimento crescente. O capítulo final, O que vejo já não se pode cantar, ilustra a fase terminal da doença: «O corpo falha sem pedir licença». Aqui há algum detalhe: o internamento, o dia em que os amigos foram despedir-se, o texto de Clara Ferreira Alves acerca desse momento. Perto de si está o companheiro e estão também os irmãos e uma sobrinha: são eles «quem o apoia na dignidade do comer, do simples e ao mesmo tempo tão complicado gesto de levar a colher à boca.» Morreu cerca das 23:00h do 13 de Junho de 1997. Tinha 49 anos. Mas nada disto é novidade. Surgido numa época propícia à nomeação de todos os interditos, Al Berto trouxe à poesia portuguesa um conjunto de temas que configuram desvios da ordem falocêntrica: intercurso anal, homossexualidade, sexo em grupo, etc., os quais, associados à deriva libertária e ao imaginário hippie (amor livre, travestismo, drogas, prostituição masculina, rock, etc.), imediatamente fixaram um padrão que o afastava tanto do aticismo semântico dos poetas dos anos 1960 como do “regresso ao real” que caracterizou a poesia dos anos 1970, na medida em que o retorno ao sentido se fez, nos melhores casos, com recurso ao diálogo culturalista. Pelo contrário, Al Berto, contaminando a escrita com os acidentes biográficos, sem excessivas preocupações de genealogia literária, conseguiu impor a imagem de marca de uma certa contracultura. E pode-se dizer que o fez com a arrogância dos que não temem afirmar identidade própria. Conheci bem o Al Berto, fui seu amigo, viajámos juntos, privei com ele durante catorze anos, tenho escrito sobre a obra, sei que Golgona Anghel omite muita coisa. É pena. Com o excelente material fotográfico que a família disponibilizou, esta biografia podia ser outra coisa.
Al Berto, a biografia, in MIL FOLHAS, 1-12-2006, p. 14.
Etiquetas: Crítica literária

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