BOLSEIROS OU ASSALARIADOS?

O meu comentário sobre o acampamento dos bolseiros, a avaliar por discussões em fórum próprio e pelas mensagens de correio electrónico (todas correctas) que recebi de bolseiros e investigadores, parece ter provocado alguma celeuma na comunidade científica portuguesa. Uma senhora de Lafayette (Colorado, USA) até reabriu temporariamente o blogue dela para me poder interpelar. A ver se a gente se entende. Nada tenho contra bolseiros, sejam científicos, artísticos, literários ou outros. O que se passa, como já tive oportunidade de explicar a um investigador do Instituto Superior Técnico doutorado no Reino Unido, é que, para o espectador comum de televisão, a reportagem do “acampamento” não abonou a favor da imagem dos bolseiros da ciência. O que passou para a opinião pública foi a reivindicação dos subsídios de férias e de Natal, questão que causa natural perplexidade. Porquê? Porque, e falo por mim, não vejo um bolseiro como um assalariado. Ou será que a designação “bolseiro” esconde outro tipo de função? Em que ficamos? São assalariados da instituição A ou B? Ou são académicos com qualificações para desenvolver investigação numa área científica específica durante determinado período de tempo? É que um assalariado está obrigado a hierarquia, disciplina, horário e outras obrigações, tendo como contrapartida anual doze salários e dois subsídios. E um “bolseiro”, em princípio, é alguém que desenvolve uma investigação, ou um trabalho, durante um lapso de tempo pré-determinado. Andará o Estado a tratar como “bolseiros” profissionais que são, de facto, funcionários públicos ou equiparados? Mas, se é assim, a forma de luta devia ser outra. E a última coisa que deviam fazer era apresentar-se como “bolseiros”. A situação é de tal modo intrincada que, num comentário que pode ser lido aqui, é referida a possibilidade de desconto para a segurança social (acho muito bem) e subsequente reembolso desses descontos ao fim do ano... Aqui já não percebo. Reembolso? Discurso directo: «Podem. [descontar] É voluntário. Os que recebem da FCT até estão bem , pois o dinheiro para a seguranca social é reembolsado ao fim do ano. Pede-lhes as regras, que estão em decreto.» Quanto ao número de bolseiros existentes em Portugal, oito mil, atenta a população do país e os índices de investigação conhecidos, espanta muita gente. Não se trata de achar que seja um desperdício, longe disso. Trata-se de deixar claro que a história está mal contada.

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