Domingo, Outubro 29, 2006

Ética da personagem


De Laurent Cantet, a primeira característica que apetece referir é o enorme respeito que nutre por cada personagem. Uma questão de ética, de dignidade humana, se faz sentido colocar o problema deste modo. Vi Vers le Sud (2005), a terceira longa­‑metragem do realizador, depois de Ressources Humaines (1999) e de L’Emploi du Temps (2001), no âmbito da Festa do Cinema Francês (para causar inveja ao Alexandre Andrade), e confirmei a sua capacidade para se ocupar de assuntos difíceis sem cair na tentação demagógica ou panfletária. Com a acção a desenrolar­‑se no Haiti do final dos anos 70 (com Baby Doc no poder), centrada em três mulheres brancas, com cinquenta ou mais anos, que aí se deslocam à procura de sexo pago com negros, Cantet parte do livro La Chair du Maître (1997), de Dany Laferrière, e constrói um filme que faz dele uma espécie de anti­‑Houellebecq (o que, só por si, seria motivo para me agradar). Em que medida esta afirmação faz sentido? Em primeiro lugar, porque há neste filme, como nos anteriores, um rigor no desenho das personagens que nos afasta de qualquer tentativa de leitura maniqueísta. Definitivamente, não há os bons e os maus, o que só por si não é nenhuma novidade, mas, além disso, e esta seria uma segunda razão, porque cada personagem é um indivíduo preso nas contingências da História. Esta aparece em fundo, como a marca claramente política do cinema de Cantet (pelo menos, até ao momento), mas o que o realizador daí retira é o confronto desigual de uma existência humana com a marcha implacável e desumana desse monstro em que se vêem encarcerados. Não são situações aleatórias, pois a História é feita por humanos e, por isso, há responsáveis, mas Cantet preocupa­‑se mais em diagnosticar a tragédia existencial dos indivíduos que ficam presos em circunstâncias cuja complexidade as transcende. Por isso, cada personagem não pode aspirar a muito mais do que sobreviver, e o que todos procuram, de um ou de outro modo, é adaptar­‑se aos condicionalismos, mais do que revoltar­‑se. Já era assim em L’Emploi du Temps, por exemplo, que terminava com o protagonista a realizar uma entrevista para obter um emprego, e é também assim com Legba, que vende o corpo com o tacto de quem sabe o risco que corre se decidir pisar a linha, ou com Brenda, quando compreende que, acima de tudo, procurava que a olhassem de outro modo.
Para fugir à demagogia e ao registo panfletário, uma das estratégias de Cantet é o distanciamento, introduzido pelas falas, em discurso directo, de quatro personagens, como se de um documentário se tratasse. Servem para interromper o registo ficcional e a aproximação afectiva, acrescentando a cada uma dessas figuras um momento de exposição contida, mas intensa, que contribui para as densificar. É por isso que se poderá falar de uma ética da personagem em Cantet, e deve acrescentar­‑se que, se a globalidade dos actores faz um excelente trabalho, a presença de Charlotte Rampling é esmagadora, a fazer­‑me lembrar a Bette Davis de The Letter (1940).