Segunda-feira, Outubro 02, 2006

O Expressionismo Alemão, uma antologia

"A nossa doença é a de vivermos no declinar dum dia universal, num entardecer que se tornou tão sufocante que mal conseguimos já suportar os vapores da sua decomposição..." Este desabafo proferido em 1911 pelo poeta Georg Heym na Die Aktion, uma das principais revistas expressionistas, lança o mote para o que, na Alemanha, viria a ser, a nível literário, a complexa década de 1910/20. Como bem salienta João Barrento na sua admirável introdução ao Expressionismo Alemão (uma antologia poética editada pela Ática) "a poesia dos autores expressionistas, na sua diversidade, reflecte, de forma directa ou transposta, o processo histórico seu contemporâneo". E desde a consumação do imperialismo de Guilherme II até ao fracasso da instauração de uma república socialista na Alemanha, com a consequente proclamação da República de Weimar, passando pela primeira guerra mundial e pela revolução russa, muito acontecia, por aqueles dias, na Alemanha e no Mundo.
Mas como, lucidamente, nos alerta o ensaista, querer reduzir o Expressionismo Alemão ao contexto histórico que o originou é querer prendê-lo "em esquemas prédefinidos, cristalizá-lo em definições simplistas e juízos dogmáticos". E o Expressionismo foi " processo dinâmico e não realidade estática, latência e não apenas factualidade, porque foi ambíguo (dialéctico) e polivalente..."
E por isso mesmo, pela diversidade do espectro das propostas estéticas, não raras vezes pouco conciliáveis, João Barrento propõe-nos nesta antologia uma divisão pouco comum dos textos. Não por autor mas por temas: poemas programáticos; pathos e utopia; a revolução da metáfora; grotesco e desencanto; "poesia absoluta".
Apesar do esforço de alguns penso que hoje, como à data desta recolha, o Expressionismo Alemão continua, em grande parte, desconhecido entre nós. E ainda que a presença de alguns poetae minores (cujo lugar nesta escolha o próprio organizador reconhece) desequilibre, de alguma forma, o todo, nada poderá beliscar o grande mérito que esta antologia tem: chamar-nos a atenção para um dos grandes movimentos literários do século XX, em toda a sua diversidade e contradição.
Se pouco me interessa a "poesia absoluta" do círculo da Sturm, o utopismo revolucionário de Becher ou Lotz, a poesia de protesto de Zech ou a esperança messiânica de Werfel ou Goll, já muito me dizem as visões apocalípticas e niilistas de Heym ou a estética do grotesco de Jakob Van Hoddis, Ernst Blass, Alfred Lichtenstein ou desse poeta maior que é Gottfried Benn. Da poesia de Benn disse Else Lasker-Schuler: "cada um dos seus versos é uma dentada de leopardo, um salto de fera. Os ossos são o lápis com que ele desperta a palavra."
Homem e mulher passeiam pelo pavilhão das cancerosas
O homem:
Esta fila aqui são ventres putrefactos
e esta outra são seios putrefactos.
Cama a cama um cheiro nauseabundo. As enfermeiras mudam de hora a hora.
Anda, ergue sem medo esta coberta.
Olha, este montão de gordura e de pús
significou já algo de sublime para um homem,
já foi embriaguês, terra natal.
Vem cá, olha esta cicatriz no peito.
Não sentes o rosário de contas moles?
Apalpa sem receio. A carne é mole e já não dói.
Esta aqui sangra por trinta corpos.
Ninguém pode ter tanto sangue.
A esta aqui conseguiram ainda
extrair-lhe um filho do ventre canceroso.
Deixam-nas dormir. Dia e noite. Às novas
dizem-lhes: aqui o sono é cura. Só aos domingos,
quando há visitas, as deixam mais despertas.
Come-se pouco já. As costas
estão em ferida. Vês bem as moscas. Por vezes
a enfermeira lava-as. Como quem lava bancos.
Aqui, a terra incha já em redor de cada leito.
A carne mirra e torna-se planície. O ardor vital vai-se desvanecendo.
A linfa resigna-se a escorrer. A terra chama.
(trad. João Barrento)