HELGA MOREIRA

Hoje no Público:
Não me parece que tenha sido intencional, nem que a autora esteja ciente do facto, mas não andaremos longe da verdade se concluirmos que Helga Moreira (n. 1950) fecha, com a sua mais recente colectânea, Agora que falamos de morrer, o ciclo, que por acaso é um tríptico, iniciado com Desrazões. Quatro anos separam os dois livros, e entre os dois coube Tumulto, inventário de despojos sob a forma de soneto. Agora que falamos de morrer são quatro sequências alinhadas em excruciante mnemónica: «Agora [...] vou falar de assunto sério / agora / começa a verdadeira história». T. S. Eliot e Thomas Bernhard sinalizam esta narrativa de perda e desapego. É a história de um monólogo, ou discurso mental, mais explícito aqui, mais elíptico acolá, a corrente da consciência nos interstícios da voz, no buraco que sobrou, erguendo uma parede de versos contra o vazio: «Em verdade em verdade vos digo, / de mim de verdade nada digo [...] Se em mim outra se trafica / em verdade em verdade vos digo / que é verdade — essa que não existe — / a que digo / quando minto.» Nenhuma fractura entre o eu da história e o eu do poema. O vazio (não confundir com o vazio de Dickinson ou Stevens) é uma cicatriz indelével, uma luta corpo a corpo com a ausência de interlocutor. Se em livros anteriores, em particular Os dias todos assim, colectânea de 1996 que colige poemas escritos entre 1984 e 1993, sobreleva o jogo intertextual a que não são alheios os tiques e a rotina do quotidiano, peculiar tessitura a que Paula Morão chamou «a interrogação sobre a substância dos dias [...] à luz da visão desencantada de um sujeito melancólico», o que Helga Moreira nos dá agora a ler é uma suma mordaz do que esses livros mais antigos calaram. A despeito do tom desabrido de não poucos poemas, o subtexto não ilide as questões de natureza identitária que enformam a obra. Dispersa por oito livros publicados desde 1978, bem como por inúmeras publicações avulsas, em revistas e volumes colectivos, a poesia de Helga Moreira é de uma clareza meridiana: «Se não sou o teu senhor [...] por tão pouco não ficarei / se já fui o teu senhor / em mulher a ti me dei [...] Que já me aparto deste ser / de género incerto. / Outro fique, mais concreto.» No país das sombras o ónus não podia ser outro.
Nota sobre Agora que falamos de morrer, in MIL FOLHAS, 6-10-2006, p. 12.
Não me parece que tenha sido intencional, nem que a autora esteja ciente do facto, mas não andaremos longe da verdade se concluirmos que Helga Moreira (n. 1950) fecha, com a sua mais recente colectânea, Agora que falamos de morrer, o ciclo, que por acaso é um tríptico, iniciado com Desrazões. Quatro anos separam os dois livros, e entre os dois coube Tumulto, inventário de despojos sob a forma de soneto. Agora que falamos de morrer são quatro sequências alinhadas em excruciante mnemónica: «Agora [...] vou falar de assunto sério / agora / começa a verdadeira história». T. S. Eliot e Thomas Bernhard sinalizam esta narrativa de perda e desapego. É a história de um monólogo, ou discurso mental, mais explícito aqui, mais elíptico acolá, a corrente da consciência nos interstícios da voz, no buraco que sobrou, erguendo uma parede de versos contra o vazio: «Em verdade em verdade vos digo, / de mim de verdade nada digo [...] Se em mim outra se trafica / em verdade em verdade vos digo / que é verdade — essa que não existe — / a que digo / quando minto.» Nenhuma fractura entre o eu da história e o eu do poema. O vazio (não confundir com o vazio de Dickinson ou Stevens) é uma cicatriz indelével, uma luta corpo a corpo com a ausência de interlocutor. Se em livros anteriores, em particular Os dias todos assim, colectânea de 1996 que colige poemas escritos entre 1984 e 1993, sobreleva o jogo intertextual a que não são alheios os tiques e a rotina do quotidiano, peculiar tessitura a que Paula Morão chamou «a interrogação sobre a substância dos dias [...] à luz da visão desencantada de um sujeito melancólico», o que Helga Moreira nos dá agora a ler é uma suma mordaz do que esses livros mais antigos calaram. A despeito do tom desabrido de não poucos poemas, o subtexto não ilide as questões de natureza identitária que enformam a obra. Dispersa por oito livros publicados desde 1978, bem como por inúmeras publicações avulsas, em revistas e volumes colectivos, a poesia de Helga Moreira é de uma clareza meridiana: «Se não sou o teu senhor [...] por tão pouco não ficarei / se já fui o teu senhor / em mulher a ti me dei [...] Que já me aparto deste ser / de género incerto. / Outro fique, mais concreto.» No país das sombras o ónus não podia ser outro.
Nota sobre Agora que falamos de morrer, in MIL FOLHAS, 6-10-2006, p. 12.
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