OS NEGROS

Estreia hoje no Teatro São João, do Porto, uma das mais controvertidas obras de Genet: Os Negros, em encenação de Rogério de Carvalho. Por encomenda do teatro, Armando Silva Carvalho traduziu. Este texto não é o mesmo da versão representada em 1986. É outro texto. Hoje, no Público, Inês Nadais fala da peça, dos actores (todos negros, uns residentes em Portugal, outros vindos de Moçambique), das idiossincrasias de Genet, do encenador, da encenação, etc. Só não fala do texto traduzido. A ficha técnica também omite o nome do tradutor. A mim faz-me sempre muita confusão ler recensões literárias de textos estrangeiros que omitem o nome de quem traduziu. Infelizmente vê-se com frequência, como se Joyce Carol Oates ou Nick Hornby escrevessem directamente em português. Por outro lado, algumas traduções recentes (i.e., dos últimos três anos) transformaram os seus autores em estrelas mediáticas. O ideal era arranjar um meio termo. Eu não gosto particularmente de Genet, mas estas coisas não devem andar ao sabor dos nossos humores. Em certa medida, Genet é um “clássico”. O contexto anticolonial e as relações de poder fazem d'Os Negros um texto paradigmático. Nenhum dos 13 actores do elenco vai dar as deixas em francês. Para o bem e para o mal, a partir de hoje, Os Negros têm lugar na nossa literatura. Se, como reconhece o encenador, «o texto de Genet é riquíssimo», é porque essa “riqueza” foi acautelada na língua de chegada. Afinal de contas, Armando Silva Carvalho (n. 1938), poeta, ficcionista e tradutor de Beckett, Mallarmé, Duras, Cèsaire, Voznessenski e outros, não traduziu uma bula de paracetamol.

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