Sexta-feira, Setembro 08, 2006

CESÁRIO


Hoje no Público.


Sobre Cesário Verde (1855-1886), o primeiro dos nossos modernos, parece haver ideias feitas. A primeira das quais o famoso título — O Livro de Cesário Verde —, assim grafado logo em 1887, por Silva Pinto, um ano após a morte prematura do amigo dilecto. Depois, por iniciativa de Joel Serrão, o acervo passaria a Obra Completa de Cesário Verde, edição sucessivamente reeditada entre 1964 e 1992, data a partir da qual volta a ser «mais Cesário e menos Serrão» (cf. Ricardo Daunt, revista Colóquio-Letras, n.º 135-6, 1995). Seja como for, lembrar o trabalho de Serrão é de elementar justiça. Os equívocos que os especialistas lhe apontam não beliscam a seriedade do trabalho. Do mesmo passo, uma panóplia de edições de variada origem deixa o leitor comum nunca menos que perplexo. Entenda-se por leitor comum aquele que não tem meios ou disposição para cotejar os textos originais e as sucessivas edições do Livro. Vejamos: nas edições Silva Pinto, Cabral do Nascimento, António Barahona e outros, a obra chamou-se O Livro de Cesário Verde. Para Joel Serrão, durante quase trinta anos (1964-92), foi Obra Completa de Cesário Verde, passando em 2001 a Poesia Completa. Mas para Ângela Marques foi sucessivamente Obra Poética e Epistolografia (1999) e Poemas e Cartas (2005). Estamos sempre a falar do mesmo, ou seja, da obra poética de Cesário, que a minha geração se habituou a identificar como O Livro de Cesário Verde. Ora, estando em pauta o mesmo acervo, ordenado segundo critério do respectivo editor, o leitor comum interroga-se sobre a natureza destas opções. Tanto mais quanto tiver notícia do incêndio de 1919 na casa de Linda-a-Pastora, reduzindo a cinzas todo o espólio do poeta. O facto dá a medida do melindre que representa qualquer tentativa de autoria à revelia do publicado em vida. Portanto, a despeito de eventuais tropelias da edição Silva Pinto, o bom senso desaconselha grandes mexidas, por correcto que seja o princípio metodológico. Vem isto a propósito da edição de Teresa Sobral Cunha, dada à estampa com o título de Cânticos do Realismo e Outros Poemas / 32 Cartas. Demarcando-se de anteriores edições, a editora disseca a «ingénua co-autoria» que Silva Pinto se atribuiria. Estamos, portanto, em presença de uma nova versão do controvertido Livro. Além da introdução, o volume colige o acervo poético (1873-86); um total de trinta e duas cartas (1874-86); bem como fragmentos de textos de Fialho de Almeida e de um estudo crítico de Fernando Pessoa. Um dos textos de Fialho é o prefácio inconcluso que começou a escrever para a edição de 1901, o qual teve publicação em 1911 no seu próprio In Memoriam. O de Pessoa é «constituído por dois conjuntos documentais. Um em português, o segundo em inglês. Ambos fragmentários e lacunares.» Estranhamente, as seis páginas do trecho em língua inglesa não se encontram traduzidas. Considerava Pessoa que no século XIX só havia três poetas em Portugal: «três somente, a quem legitimamente compete a designação de mestres. São eles, por ordem de idades, Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha.» O juízo nada acrescenta ao que sabemos de Cesário. Teresa Sobral Cunha seriou os poemas cronologicamente a partir de Per Amica Silentia... Esse poema foi pela primeira vez publicado em 1873, sem indicação de autoria, na revista Artes e Letras de Lisboa. As composições reunidas são quarenta e três, e não vinte e duas como Silva Pinto fixou (quanto me lembro, Barahona foi o único a respeitar esse número). Não causará estranheza que um poeta oriundo da burguesia mercantil haja sido capaz da exactidão discursiva que enforma o melhor da obra. Exemplo acabado, O Sentimento dum Ocidental — alvo de recente edição autónoma, da responsabilidade de Rosa Maria Martelo, por ocasião dos 150 anos do nascimento do poeta — ecoa ainda a modernidade tão cara a Caeiro: «Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia / Despertam um desejo absurdo de sofrer. / / O céu parece baixo e de neblina, / O gás extravasado enjoa-nos, perturba; / E os edifícios, com as chaminés, e a turba / Toldam-se d’uma cor monótona e londrina [...] A espaços, iluminam-se os andares, / E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos / Alastram em lençol os seus reflexos brancos; / E a lua lembra o circo e os jogos malabares. [...] As burguesinhas do catolicismo / Resvalam pelo chão minado pelos canos; / E lembram-me, ao chorar doente dos pianos, / As freiras que os jejuns matavam de histerismo [...] E os guardas, que revistam as escadas, / Caminham de lanterna e servem de chaveiros; / Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros, / Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas. / / E, enorme, nesta massa irregular / De prédios sepulcrais, com dimensões de montes, / A dor humana busca os amplos horizontes, / E tem marés, de fel, como um sinistro mar!» A poesia moderna portuguesa começou aqui. As cartas são trinta e duas, metade das quais dirigidas a Silva Pinto — que já em 1901 publicara onze no volume Pela Vida Fora —, e surpreendem sobretudo pelo vocabulário. Com efeito, salvo em situações de natureza muito particular, não é frequente um homem dirigir-se a outro chamando-lhe «tigre amoroso». Discurso directo: «O que eu hoje recebi de ti justificou-me, sem necessidade e mais uma vez, a grande lealdade da tua alma diferente de todas que tenho observado. És um tigre amoroso.» Nas notas, Teresa Sobral Cunha justifica o eufemismo com práticas «então muito em voga no jornalismo aguerrido», explicação contrariada pelo próprio Cesário, quando, no post scriptum de outra carta para Silva Pinto, escreve o seguinte: «O alto das cartas escrevo-o sempre depois da carta feita. Faço-as na loja e pode alguém ver ao passar o tratamento que nos damos.» E assina: «Teu amigo exclusivo, único e excepcional». Ficamos conversados em matéria de correspondência “aguerrida”. Não vou alongar-me em elucubrações de outra índole. Direi apenas que basta atentar no tom usado com os restantes correspondentes (Macedo Papança, Carrilho Videira, Bettencourt Rodrigues, Emídio Oliveira, Augusto Francisco Vieira e Mariano Pina, autores acerca de quem as notas contêm abundante informação biobibliográfica) para verificar a diferença. Subsiste a dúvida quanto ao título encontrado. Porquê Cânticos do Realismo? As vinte páginas da introdução são omissas a tal respeito. E nenhuma nota editorial esclarece a opção.


O Canto dum Ocidental, in MIL FOLHAS, 8-9-2006, p. 13. A partir de hoje o MIL FOLHAS publica-se às sextas-feiras.