LUÍS AMARO

Quem, com menos de 50 anos, identifica Luís Amaro? Natural de Aljustrel, Luís Amaro nasceu em 1923, começou a escrever aos 12 anos (em jornais alentejanos), veio para Lisboa no Outono de 1941, e nunca mais de cá saiu. Deixou marca na Portugália, ajudou a fundar as folhas de poesia Árvore — juntamente com António Luís Moita, António Ramos Rosa, José Terra e Raul de Carvalho —, de que foram publicados quatro fascículos entre 1951-53, colaborou em inúmeras publicações, da Távola Redonda à Seara Nova e, em 1970, ingressou na Fundação Calouste Gulbenkian. E foi o seu trabalho na revista Colóquio-Letras, ao longo de 25 anos consecutivos (1971-96), sucessivamente como secretário da redacção, director-adjunto e consultor editorial, que lhe granjeou o respeito unânime. Eu diria que ele foi um verdadeiro editor, no sentido anglo-americano do termo. Ocupado com a obra dos outros, manteve a sua em stand by. Dádiva, que saiu em 1949, com a bela capa de Manuel Ribeiro de Pavia, teria edição alargada em 1975, como Diário Íntimo. Esse livro, há muito esgotado, foi agora recuperado por Vítor Silva Tavares. Talvez pareça surpreendente encontrar um poeta como Luís Amaro no catálogo da & etc. Pensando bem, faz todo o sentido. A nota editorial é de meridiana clareza: «A razão por que surge agora chancelando, honrada, a edição da breve mas intensa obra poética de Luís Amaro [...] prende-se, seguramente, com a existência de duas afinidades entre editora e escritor: a dedicação aos livros [...] aos autores tornados “seus”, conhecidos ou por conhecer [...]» A capa, bem como um magnífico retrato do autor (a partir de uma fotografia de 1950), são ambos de Luis Manuel Gaspar. No prefácio que escreveu para esta edição, Albano Nogueira fala do autor como de «um espectador das coisas do mundo», alguém que «passou os limites do homem que se vê e revê para aportar a interesses contemplativos do que o rodeia e também o marca.» Uma marginália final dá conta de correspondência trocada com alguns dos seus pares (Mário Beirão, Sebastião da Gama, Jorge de Sena, Teixeira de Pascoaes, Irene Lisboa, Miguel Torga, Vitorino Nemésio, Murilo Mendes, outros), enquanto um portfolio acolhe fac-símiles e autógrafos de, entre outros, Alexandre O'Neill e José Gomes Ferreira. Diário Íntimo colige poemas escritos entre 1941 e 1975. Conheci Luís Amaro em 1979, tinha ele a idade que eu tenho hoje. Ele não sabe, mas ensinou-me muito.

<< Home