Quarta-feira, Maio 24, 2006

Defesa da estética


Um dos equívocos mais intensamente promovidos nas nossas sociedades democráticas é o da deriva comunicacional, como se a possibilidade de resolver qualquer conflito dependesse do estabelecimento de pontes entre as partes em contenda e não do aprofundamento das referidas diferenças. Isto não significa a defesa da polémica, mas a apologia do pensamento, o que é coisa bastante distinta, pois a primeira hipótese é sobretudo gosto pelo combate e apenas a segunda está disponível para caminhar sem restrições em direcção a uma verdade provisória. É neste sentido que se manifesta Mario Perniola, no breve ensaio intitulado Contra a Comunicação (Contro la Comunicazione, 2004), que a Teorema editou entre nós no ano passado. Na sequência de uma obra como Do Sentir (Del Sentire, 1991), publicada em 1993 pela Presença, em que diagnosticava a passagem do tempo da ideologia para o tempo da sensologia, o professor da Universidade de Roma ataca agora a falácia comunicacional, apresentada como inimiga efectiva da democracia e das ideias: «De todas as mistificações da comunicação, a maior é, indubitavelmente, a de se apresentar sob a bandeira do progressismo democrático enquanto constitui, na realidade, a mais completa transfiguração do obscurantismo populista» (p. 12).
Não é difícil de testar a afirmação anterior. Para tal, bastaria que nos lembrássemos das declarações daqueles políticos anunciando a altos ventos que falam directamente com o povo. O que essas palavras representam é a capacidade de moldar o discurso às conveniências do momento, como se esse gesto fosse o sinal de uma permanente atenção às angústias e aos desejos dos cidadãos. A comunicação, porém, tal como o populismo, não conhece cidadãos, pois isso implicaria atribuir a cada indivíduo um acentuado grau de responsabilidade, o que ela pretende dispensar. Ser responsável implica fazer escolhas e, naturalmente, abdicar de algo, mas a comunicação quer libertar­‑nos dessas angústias, nem que, para tal, tenha de nos oferecer, bem diluídos, o paraíso e o inferno: «Aspira a ser ao mesmo tempo uma coisa, o seu contrário e tudo quanto está no meio, entre os dois opostos. É, pois, totalitária em muito maior medida que o totalitarismo político tradicional, pois compreende também, e principalmente, o anti­‑totalitarismo. É global no sentido em que até inclui aquilo que nega a totalidade» (p. 14).
A esta tentativa de domínio absoluto de todos elementos que compõem a nossa existência, Perniola responde com uma alternativa baseada na estética, ou melhor, no estético, «entendido no neutro como uma dimensão socio­‑antropológica do modo ocidental de ser» (p. 59). Para lá do que aqui releva da metafísica, importa salientar esta concepção da função estética como a possibilidade de subtrair as energias humanas ao egoísmo e à exploração, de as considerar como fins e não como meios. É na execução de um gesto que recusa a simplificação, a sua formatação a um espaço reduzido, como é próprio da comunicação, que se pode encontrar a resistência do pensamento. O que eu digo não se deixa converter numa fórmula aguada, destituída da opacidade inerente a qualquer discurso que não aceite a conversão em mera moeda de troca. Para esse efeito, o ensaísta, na esteira de Bourdieu, invoca a noção de desinteresse interessado da economia dos bens simbólicos, baseada na suspensão do interesse económico em sentido restrito e na conversão estética de princípios que também pertencem à sociedade ocidental: «A estética ocupa um espaço intermédio entre a pureza absoluta e ineficaz de uma moral excessivamente desencarnada e a idolatria da eficácia e do êxito a todo o custo. Não esquece que o ser humano é um ser infinitamente necessitado, para o qual os aspectos materiais da existência e o desejo de reconhecimento desempenham um papel essencial; ao mesmo tempo, contudo, está bem consciente de que a via mais segura para obter esses resultados é, paradoxalmente, a do desinteresse» (p. 67).