Defesa da estética

Um dos equívocos mais intensamente promovidos nas nossas sociedades democráticas é o da deriva comunicacional, como se a possibilidade de resolver qualquer conflito dependesse do estabelecimento de pontes entre as partes em contenda e não do aprofundamento das referidas diferenças. Isto não significa a defesa da polémica, mas a apologia do pensamento, o que é coisa bastante distinta, pois a primeira hipótese é sobretudo gosto pelo combate e apenas a segunda está disponível para caminhar sem restrições em direcção a uma verdade provisória. É neste sentido que se manifesta Mario Perniola, no breve ensaio intitulado Contra a Comunicação (Contro la Comunicazione, 2004), que a Teorema editou entre nós no ano passado. Na sequência de uma obra como Do Sentir (Del Sentire, 1991), publicada em 1993 pela Presença, em que diagnosticava a passagem do tempo da ideologia para o tempo da sensologia, o professor da Universidade de Roma ataca agora a falácia comunicacional, apresentada como inimiga efectiva da democracia e das ideias: «De todas as mistificações da comunicação, a maior é, indubitavelmente, a de se apresentar sob a bandeira do progressismo democrático enquanto constitui, na realidade, a mais completa transfiguração do obscurantismo populista» (p. 12).
Não é difícil de testar a afirmação anterior. Para tal, bastaria que nos lembrássemos das declarações daqueles políticos anunciando a altos ventos que falam directamente com o povo. O que essas palavras representam é a capacidade de moldar o discurso às conveniências do momento, como se esse gesto fosse o sinal de uma permanente atenção às angústias e aos desejos dos cidadãos. A comunicação, porém, tal como o populismo, não conhece cidadãos, pois isso implicaria atribuir a cada indivíduo um acentuado grau de responsabilidade, o que ela pretende dispensar. Ser responsável implica fazer escolhas e, naturalmente, abdicar de algo, mas a comunicação quer libertar‑nos dessas angústias, nem que, para tal, tenha de nos oferecer, bem diluídos, o paraíso e o inferno: «Aspira a ser ao mesmo tempo uma coisa, o seu contrário e tudo quanto está no meio, entre os dois opostos. É, pois, totalitária em muito maior medida que o totalitarismo político tradicional, pois compreende também, e principalmente, o anti‑totalitarismo. É global no sentido em que até inclui aquilo que nega a totalidade» (p. 14).
A esta tentativa de domínio absoluto de todos elementos que compõem a nossa existência, Perniola responde com uma alternativa baseada na estética, ou melhor, no estético, «entendido no neutro como uma dimensão socio‑antropológica do modo ocidental de ser» (p. 59). Para lá do que aqui releva da metafísica, importa salientar esta concepção da função estética como a possibilidade de subtrair as energias humanas ao egoísmo e à exploração, de as considerar como fins e não como meios. É na execução de um gesto que recusa a simplificação, a sua formatação a um espaço reduzido, como é próprio da comunicação, que se pode encontrar a resistência do pensamento. O que eu digo não se deixa converter numa fórmula aguada, destituída da opacidade inerente a qualquer discurso que não aceite a conversão em mera moeda de troca. Para esse efeito, o ensaísta, na esteira de Bourdieu, invoca a noção de desinteresse interessado da economia dos bens simbólicos, baseada na suspensão do interesse económico em sentido restrito e na conversão estética de princípios que também pertencem à sociedade ocidental: «A estética ocupa um espaço intermédio entre a pureza absoluta e ineficaz de uma moral excessivamente desencarnada e a idolatria da eficácia e do êxito a todo o custo. Não esquece que o ser humano é um ser infinitamente necessitado, para o qual os aspectos materiais da existência e o desejo de reconhecimento desempenham um papel essencial; ao mesmo tempo, contudo, está bem consciente de que a via mais segura para obter esses resultados é, paradoxalmente, a do desinteresse» (p. 67).
Não é difícil de testar a afirmação anterior. Para tal, bastaria que nos lembrássemos das declarações daqueles políticos anunciando a altos ventos que falam directamente com o povo. O que essas palavras representam é a capacidade de moldar o discurso às conveniências do momento, como se esse gesto fosse o sinal de uma permanente atenção às angústias e aos desejos dos cidadãos. A comunicação, porém, tal como o populismo, não conhece cidadãos, pois isso implicaria atribuir a cada indivíduo um acentuado grau de responsabilidade, o que ela pretende dispensar. Ser responsável implica fazer escolhas e, naturalmente, abdicar de algo, mas a comunicação quer libertar‑nos dessas angústias, nem que, para tal, tenha de nos oferecer, bem diluídos, o paraíso e o inferno: «Aspira a ser ao mesmo tempo uma coisa, o seu contrário e tudo quanto está no meio, entre os dois opostos. É, pois, totalitária em muito maior medida que o totalitarismo político tradicional, pois compreende também, e principalmente, o anti‑totalitarismo. É global no sentido em que até inclui aquilo que nega a totalidade» (p. 14).
A esta tentativa de domínio absoluto de todos elementos que compõem a nossa existência, Perniola responde com uma alternativa baseada na estética, ou melhor, no estético, «entendido no neutro como uma dimensão socio‑antropológica do modo ocidental de ser» (p. 59). Para lá do que aqui releva da metafísica, importa salientar esta concepção da função estética como a possibilidade de subtrair as energias humanas ao egoísmo e à exploração, de as considerar como fins e não como meios. É na execução de um gesto que recusa a simplificação, a sua formatação a um espaço reduzido, como é próprio da comunicação, que se pode encontrar a resistência do pensamento. O que eu digo não se deixa converter numa fórmula aguada, destituída da opacidade inerente a qualquer discurso que não aceite a conversão em mera moeda de troca. Para esse efeito, o ensaísta, na esteira de Bourdieu, invoca a noção de desinteresse interessado da economia dos bens simbólicos, baseada na suspensão do interesse económico em sentido restrito e na conversão estética de princípios que também pertencem à sociedade ocidental: «A estética ocupa um espaço intermédio entre a pureza absoluta e ineficaz de uma moral excessivamente desencarnada e a idolatria da eficácia e do êxito a todo o custo. Não esquece que o ser humano é um ser infinitamente necessitado, para o qual os aspectos materiais da existência e o desejo de reconhecimento desempenham um papel essencial; ao mesmo tempo, contudo, está bem consciente de que a via mais segura para obter esses resultados é, paradoxalmente, a do desinteresse» (p. 67).

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