CITAÇÃO, 31

Vasco Graça Moura, hoje no Diário de Notícias. O texto retoma preocupações antigas do autor, sobre o ensino, em geral, e o ensino da língua, em particular. No mesmo jornal, há cinco anos, uma famosa polémica fez o seu curso: “Há, na 5 de Outubro, gente que domina o aparelho de elaboração dos programas e se empenha em desestruturar não apenas a aprendizagem da língua portuguesa, mas toda e qualquer noção civilizacional, cultural ou histórica” (cf. Lusitana Praia, Asa, 2005, p. 72). Isto anda tudo ligado. No excerto que segue os sublinhados são de minha responsabilidade:
«[...] Esta situação tornou-se crónica. Há décadas que, mais ou menos de seis em seis meses, novos relatórios, novos estudos e novas análises vêm sistematicamente concluir pelo falhanço total do nosso sistema de ensino e pela impreparação clamorosa dos que o frequentam ou frequentaram. Nem vale a pena repisar o tópico, de tão óbvio que se tornou. Outros países têm problemas semelhantes, mas em percentagem muito menor, e por isso é que o caso português é tão grave. Deixa-nos irremediavelmente no fim da tabela e prepara-nos para um futuro sem saída. Faz prenunciar que a chamada Estratégia de Lisboa irá por água abaixo nestas paragens e que o nosso país vai ter um lindo enterro. Se os resultados são esses, pode concluir-se com segurança que o que está errado é o sistema educativo, são os programas, são os manuais e os livros de estudo, são os métodos de ensino e as teorias pedagógicas em que tudo isso delirantemente se baseia, mais os promotores e ministradores dessas teorias, aliás, desenvolvidas num jargão abstruso e ininteligível, mesmo para os professores: veja-se o caso recente da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), leiam-se alguns manuais pedagógicos, passe-se a vista por alguns exercícios e pontos de exame, e fica-se amplamente elucidado. Sobre tudo isto, publicou Nuno Crato, há dois meses, uma síntese modelar que tem feito um curso surpreendente e saudável, embora se venha defrontando com o mutismo prudentíssimo dos responsáveis pelas várias modalidades do “eduquês” que tem cancerizado o nosso ensino básico e secundário. O choque de que o nosso país precisa nessa matéria reconduz-se à varredela: é preciso varrer radicalmente do sistema a maior parte dos actuais programas, manuais, livros de estudo, métodos de ensino, teorias pedagógicas, talvez mesmo as próprias bases em que funcionam as escolas superiores de educação, formando professores cuja actuação, a despeito de boas classificações, de empenhamentos sinceros, das maiores boas vontades e dedicações, redunda globalmente nos famigerados resultados referidos. Se tudo falha, é preciso recomeçar tudo desde o princípio, é preciso mudar os materiais didácticos, é preciso inscrever os professores e demais responsáveis pela educação numa reciclagem vigorosa e completa, hoje que a palavra de ordem é a formação ao longo da vida. O que se aprendeu com o objectivo de ensinar e o que se ensina com o objectivo de educar não presta para nada e a melhor prova disso é o que está a acontecer. [...]»

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