Uma questão de liberdade

Convém recapitular algumas ideias. Se alguém se sentir ofendido pela publicação de uma caricatura ou de um texto ou do que quer que seja, deve dirigir-se aos tribunais. Se quiser um pedido de desculpas, que o solicite ao autor da suposta ofensa ou aos seus editores. Não o pode pedir à cidade ou ao país em que essa publicação ocorreu. Num Estado de Direito, não pode. Ora, na Europa, procuramos viver, e eu quero continuar assim, em Estados que tentam honrar essa designação, ainda que as suas muitas imperfeições nos deixem sempre insatisfeitos. Mas se um desses Estados aceitasse pedir desculpas pela decisão editorial de um jornal livre do seu país, eu sentiria não só uma vergonha imensa, como também um temor profundo, pois compreenderia que essa cedência significava a vitória dos que advogam que o poder político deve estar fundido com os outros e, desse modo, sobrepor-se a todos. No caso das caricaturas dinamarquesas, o que o mundo árabe faz de conta que não percebeu é que, na Europa, há uma clara separação entre o domínio religioso e o político. Por isso, para lá mesmo da evidente tentativa de instituir à distância um regime de autocensura, que, a ocorrer algum vergonhoso pedido de desculpas, só poderia depois agravar-se, o que se verifica é um tão notório desfasamento entre a indignação e as reacções que só se pode concluir pela tese do pretexto. Qualquer coisa serviria para estas manifestações de ódio, de que os assaltos às embaixadas da Dinamarca e da Noruega são hoje os sinais mais visíveis. É preciso perceber isso, e perceber que, se as caricaturas fossem sobre Auschwitz e apresentassem o Holocausto como um divertimento, o assunto seria resolvido nos tribunais. É que, se assim não fosse, ao censurarmos os que faziam o elogio da censura, tornávamo-nos iguais a eles.

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