TENTAR PERCEBER

1. Toger Seidenfaden, director do jornal dinamarquês Politiken, título de referência, entrevistado por Ana Navarro Pedro: «No Verão de 2005 [...] um polemista dinamarquês, Kaare Bluitgen, muito conhecido pela sua islamofobia [...] escreveu um livro sobre a vida de Maomé, destinado às crianças e à juventude dinamarquesa, que apresenta o Profeta como um pedófilo e um criminoso de guerra. O livro é provocante e, na minha opinião, vulgar. [...] Bluitgen queixou-se publicamente que um ou dois desenhadores tinham recusado ilustrar o seu livro. Até hoje, não sabemos se isso foi um facto — o que sabemos é que publicou o livro, e com ilustrações.» Cf. Público de anteontem, página 5.
2. O Jyllands-Posten, jornal popular de grande circulação — «o mais lido» da Dinamarca, segundo Seidenfaden —, deu eco às queixas de Bluitgen e convidou 40 caricaturistas a fazer cartoons de Maomé. Doze aceitaram o desafio. Os 12 cartoons foram publicados na edição de 30 de Setembro, acompanhados de um editorial que reivindica o direito a «desafiar, blasfemar e humilhar o Islão».
3. Entre Outubro e Novembro do ano passado, um grupo islamita, radicado na Dinamarca, divulgou em vários países do Médio Oriente um dossiê sobre o assunto, ilustrado com quinze cartoons: os 12 que o Jyllands-Posten publicara, e mais 3, aparentemente apócrifos.
4. Logo em Outubro, onze embaixadores árabes acreditados na Dinamarca pediram para ser recebidos pelo primeiro-ministro dinamarquês. Anders Fogh Rasmussen recusou esse pedido (convém lembrar que o actual governo dinamarquês sobrevive devido ao apoio parlamentar da extrema-direita). A Líbia encerrou então a sua embaixada em Copenhaga. Outros países árabes chamaram os seus embaixadores. O caso chegou à Liga Árabe e à Conferência Islâmica.
5. Em Janeiro, tablóides noruegueses, suíços, franceses, espanhóis, italianos, húngaros, polacos, etc., solidarizam-se com o Jyllands-Posten, publicando alguns dos cartoons. Em Fevereiro, o Die Welt, o El Pais e o Le Monde, três jornais de referência, aderiram discretamente à «cruzada». Em Portugal, pelo menos dois jornais, o Público e o Expresso, fizeram o mesmo, demarcando-se ambos, em editorial, da «afronta». Em França, o proprietário do France Soir despediu o editor do jornal. Na Jordânia, o matutino que publicou os cartoons foi retirado de circulação horas depois de distribuído, sendo preso o chefe de redacção responsável pela «ousadia».
6. Copenhaga está a ferro e fogo. Ontem, em Damasco, capital da Síria, as embaixadas da Dinamarca e da Noruega foram vandalizadas e incendiadas. Os governos dinamarquês e norueguês aconselharam a imediata retirada dos seus cidadãos. As embaixadas da Suécia e do Chile também sofreram danos (esta última por estar situada no mesmo edifício). Já hoje, em Beirute, foi destruída a embaixada da Dinamarca. Cidadãos dinamarqueses estão a ser retirados do Líbano. O autor de um blogue croata foi ameaçado de morte após divulgar os cartoons.
7. Por que será que os jornais ingleses e americanos não publicam os cartoons da discórdia? Alguém duvida da sua isenção em matéria de liberdade de expressão?
8. Aqui chegados, lamento ser desmancha-prazeres, mas não encontro qualquer analogia, mesmo remota, com a ignóbil fatwa de Khomeini contra Rushdie, em 1989, execrando The Satanic Verses, nem com o assassinato, em 2004, do holandês Theo van Gogh, autor do filme Submission. Nem Rushdie nem van Gogh quiseram «desafiar, blasfemar e humilhar o Islão», propósito menor. O direito a (e o dever de) questionar e denunciar sociedades retrógradas, nunca se confunde com blasfémia e humilhação de crenças, sejam elas quais forem. Kaare Bluitgen tem direito às suas idiossincrasias e a publicar os livros que entender, ilustrando-os da forma que achar mais corrosiva. O Jyllands-Posten pode fazer as manchetes que achar convenientes e com elas criar «um caso». A ingenuidade universal é que me parece excessiva. Não sei, e gostava de saber, quais são os pergaminhos desses jornais na defesa de direitos humanos inalienáveis.
2. O Jyllands-Posten, jornal popular de grande circulação — «o mais lido» da Dinamarca, segundo Seidenfaden —, deu eco às queixas de Bluitgen e convidou 40 caricaturistas a fazer cartoons de Maomé. Doze aceitaram o desafio. Os 12 cartoons foram publicados na edição de 30 de Setembro, acompanhados de um editorial que reivindica o direito a «desafiar, blasfemar e humilhar o Islão».
3. Entre Outubro e Novembro do ano passado, um grupo islamita, radicado na Dinamarca, divulgou em vários países do Médio Oriente um dossiê sobre o assunto, ilustrado com quinze cartoons: os 12 que o Jyllands-Posten publicara, e mais 3, aparentemente apócrifos.
4. Logo em Outubro, onze embaixadores árabes acreditados na Dinamarca pediram para ser recebidos pelo primeiro-ministro dinamarquês. Anders Fogh Rasmussen recusou esse pedido (convém lembrar que o actual governo dinamarquês sobrevive devido ao apoio parlamentar da extrema-direita). A Líbia encerrou então a sua embaixada em Copenhaga. Outros países árabes chamaram os seus embaixadores. O caso chegou à Liga Árabe e à Conferência Islâmica.
5. Em Janeiro, tablóides noruegueses, suíços, franceses, espanhóis, italianos, húngaros, polacos, etc., solidarizam-se com o Jyllands-Posten, publicando alguns dos cartoons. Em Fevereiro, o Die Welt, o El Pais e o Le Monde, três jornais de referência, aderiram discretamente à «cruzada». Em Portugal, pelo menos dois jornais, o Público e o Expresso, fizeram o mesmo, demarcando-se ambos, em editorial, da «afronta». Em França, o proprietário do France Soir despediu o editor do jornal. Na Jordânia, o matutino que publicou os cartoons foi retirado de circulação horas depois de distribuído, sendo preso o chefe de redacção responsável pela «ousadia».
6. Copenhaga está a ferro e fogo. Ontem, em Damasco, capital da Síria, as embaixadas da Dinamarca e da Noruega foram vandalizadas e incendiadas. Os governos dinamarquês e norueguês aconselharam a imediata retirada dos seus cidadãos. As embaixadas da Suécia e do Chile também sofreram danos (esta última por estar situada no mesmo edifício). Já hoje, em Beirute, foi destruída a embaixada da Dinamarca. Cidadãos dinamarqueses estão a ser retirados do Líbano. O autor de um blogue croata foi ameaçado de morte após divulgar os cartoons.
7. Por que será que os jornais ingleses e americanos não publicam os cartoons da discórdia? Alguém duvida da sua isenção em matéria de liberdade de expressão?
8. Aqui chegados, lamento ser desmancha-prazeres, mas não encontro qualquer analogia, mesmo remota, com a ignóbil fatwa de Khomeini contra Rushdie, em 1989, execrando The Satanic Verses, nem com o assassinato, em 2004, do holandês Theo van Gogh, autor do filme Submission. Nem Rushdie nem van Gogh quiseram «desafiar, blasfemar e humilhar o Islão», propósito menor. O direito a (e o dever de) questionar e denunciar sociedades retrógradas, nunca se confunde com blasfémia e humilhação de crenças, sejam elas quais forem. Kaare Bluitgen tem direito às suas idiossincrasias e a publicar os livros que entender, ilustrando-os da forma que achar mais corrosiva. O Jyllands-Posten pode fazer as manchetes que achar convenientes e com elas criar «um caso». A ingenuidade universal é que me parece excessiva. Não sei, e gostava de saber, quais são os pergaminhos desses jornais na defesa de direitos humanos inalienáveis.
9. Se, por hipótese, em vez do livro sobre Maomé, o sr. Bluitgen tem publicado uma versão do Kama Sutra em que a figura da rainha (da Dinamarca) fosse o móbil da obra, o coro «solidário» atingia estas proporções?
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