Sábado, Fevereiro 18, 2006

POEMA DO RUI PARA O KOK


Por delito de opinião, Rui Knopfli (1932-1997) foi forçado a deixar Moçambique em 24 horas, em Março de 1975. Kok Nam acompanhou-o ao aeroporto de Lourenço Marques. Ontem, Kok Nam, director do jornal Savana, de Maputo, teve de enfrentar o protesto da comunidade muçulmana por ter publicado os cartoons dinamarqueses. A foto ao alto é um auto-retrato seu.


Aeroporto

É o fatídico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio.
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe só que não.

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais ilegíveis,
a salvo de todas as futurologias indiscretas,
preservado apenas na exclusividade da memória
privada. Não quero lembrar-me de nada,

só me importa esquecer e esquecer
o impossível de esquecer. Nunca
se esquece, tudo se lembra ocultamente.
Desmantela-se a estátua do Almirante,
peça a peça, o quilómetro cem durando

orgulhoso no cimo da palmeira esquiva.
Desmembrado, o Almirante dorme no museu,
o sono do bronze na morte obscura das estátuas
inúteis. Desmantelado, eu sobreviverei
apenas no precário registo das palavras.

Rui Knopfli, O Monhé das Cobras, 1997.