Maurice Nadeau, editor

Aos 95 anos, Maurice Nadeau continua a dirigir a casa editorial homónima e a presidir às reuniões de preparação de cada número de La Quinzaine Littéraire. É um facto notável, se tivermos em conta o trajecto tão rigoroso desta figura exemplar do mundo das letras francesas. Em 1947, estreou‑se na função de editor, ao responsabilizar‑se pela publicação de Les Jours de notre Mort, um romance de David Rousset, de cerca de mil páginas, que apresenta a história de uma sobrevivência num campo de concentração nazi. Ao mesmo tempo, na sequência de um convite de Pascal Pia, começou a colaborar no jornal Combat, escrevendo sobre livros. Foi crítico em várias publicações (France Observateur, L’Express) e director de outras (Les Lettres Nouvelles, por exemplo), sem nunca descurar a sua principal actividade, a de editor, através da qual deu a conhecer autores como Malcolm Lowry ou Witold Gombrowicz aos leitores de língua francesa. Para se avaliar a sua importância, bastaria dizer que Ferdydurke, o genial romance de Gombrowicz, só foi publicado em Paris, em 1958, pela Julliard, graças à insistência de Nadeau, durante três anos, perante a comissão de leitura da editora. Amigo de Blanchot, Queneau, Leiris, Michaux e Beckett, Maurice Nadeau assinou ainda um ensaio premiado sobre Gustave Flaubert. Em 1966, num ano que não me deixa completamente indiferente, fundou, com François Erval, a revista La Quinzaine Littéraire. Como modelos, prefiguravam‑se o londrino Times Literary Supplement e a New York Review of Books. O resultado foi mais modesto, é certo, mas não despiciendo. Os quarenta anos da publicação literária, festejados este mês, constituem‑se como uma referência assinalável, sem paralelo – permita‑se‑me a comparação – no universo de língua portuguesa. Também Nadeau pode muito bem servir de exemplo. A fidelidade que manteve às suas mais radicais convicções, como a de nunca publicar o que apenas tivesse relevância comercial, é uma amostra da integridade que sempre lhe permitiu encontrar os apoios necessários para realizar os projectos que foi compondo. Aliás, que continua a compor.

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