Domingo, Fevereiro 26, 2006

Maurice Nadeau, editor


Aos 95 anos, Maurice Nadeau continua a dirigir a casa editorial homónima e a presidir às reuniões de preparação de cada número de La Quinzaine Littéraire. É um facto notável, se tivermos em conta o trajecto tão rigoroso desta figura exemplar do mundo das letras francesas. Em 1947, estreou­‑se na função de editor, ao responsabilizar­‑se pela publicação de Les Jours de notre Mort, um romance de David Rousset, de cerca de mil páginas, que apresenta a história de uma sobrevivência num campo de concentração nazi. Ao mesmo tempo, na sequência de um convite de Pascal Pia, começou a colaborar no jornal Combat, escrevendo sobre livros. Foi crítico em várias publicações (France Observateur, L’Express) e director de outras (Les Lettres Nouvelles, por exemplo), sem nunca descurar a sua principal actividade, a de editor, através da qual deu a conhecer autores como Malcolm Lowry ou Witold Gombrowicz aos leitores de língua francesa. Para se avaliar a sua importância, bastaria dizer que Ferdydurke, o genial romance de Gombrowicz, só foi publicado em Paris, em 1958, pela Julliard, graças à insistência de Nadeau, durante três anos, perante a comissão de leitura da editora. Amigo de Blanchot, Queneau, Leiris, Michaux e Beckett, Maurice Nadeau assinou ainda um ensaio premiado sobre Gustave Flaubert. Em 1966, num ano que não me deixa completamente indiferente, fundou, com François Erval, a revista La Quinzaine Littéraire. Como modelos, prefiguravam­‑se o londrino Times Literary Supplement e a New York Review of Books. O resultado foi mais modesto, é certo, mas não despiciendo. Os quarenta anos da publicação literária, festejados este mês, constituem­‑se como uma referência assinalável, sem paralelo – permita­‑se­‑me a comparação – no universo de língua portuguesa. Também Nadeau pode muito bem servir de exemplo. A fidelidade que manteve às suas mais radicais convicções, como a de nunca publicar o que apenas tivesse relevância comercial, é uma amostra da integridade que sempre lhe permitiu encontrar os apoios necessários para realizar os projectos que foi compondo. Aliás, que continua a compor.

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