Domingo, Fevereiro 26, 2006

Frango, Animal Repetitivo e Pcf Moya


01. Casa Das Artes de Famalicão
Foi uma surpresa, em tempo de gripe das aves, ver um concerto de uma banda chamada Frango com tal saúde de ferro.
A Casa das Artes de Famalicão, por mãos do seu excelente director, Paulo Brandão, inscreve-se cada vez mais no roteiro dos melhores palcos do país, sendo responsável por uma programação quase non stop onde já têm história Antony and The Johnsons, Wim Mertens, Jarboe, Nina Nastasia, Mark Eitzel, Lhasa, Camané, John Yorkston, Old Jerusalem, Lydia Lunch, Ölga, The Neon Road, Parker And Lily, Corsage, Carlos Bica, Uri Caine, Meira Asher, June Tabor, Alla Polacca, entre muitos muitos outros.
02. Os Frango ao Vivo
Na noite de Sexta-Feira passada pudemos assistir a um concerto de uns Family Underground (Dinamarqueses) muito chatos e limitados e dos portugas Frango, de quem havia escutado coisas à pressa - descarregadas da internet com a amável permissão da banda - mas às quais não tinha prestado demasiada atenção.
Os Frango são um trio composto por Rui Dâmaso, Jorge Martins e Vitor Lopes que vive ainda o momento das edições em cd-rom (disponibilizadas pela Searching Records, ainda sem página na virtual) mas apresentam-se já com uma maturidade invejável. Devedores de grandes bandas como os primeiros Pink Floyd e os mais recentes Godspeed You! Black Emperor ou os A Silver Mt. Zion, estes Frango satisfazem sobretudo pela capacidade de, ao jeito do melhor rock progressivo, criarem uma atmosfera de tensão que culmina num clímax que nunca nos deixa indiferentes ou frustrados. De facto, o melhor que fazem é a manutenção durante minutos dessa textura mais violenta e acelerada. Sabemos que a grande parte das novas bandas fascinadas com esta estética se cansam ao fim de um minuto no auge do frenesi (Mogwai - arghhhh - incluídos, sim senhor), mas os Frango exceptuam-se, tornando o concerto de Sexta passada num lugar para ouvintes quase profissionais, habituados indubitavelmente às sonoridades mais noisy. Sem piedade nem limitações, o convívio com eles foi feito de aço.
03. Os Frango ao Morto
Para deleite das multidões, os Frango têm casa no MySpace, oferecendo a descarga de amostras dignas, e disponibilizam o excelente album Sittin San através da editora virtual Test Tube.
Assim, já longe dos Frango, e sem correr riscos de apanhar alguma gripe indesejada, aconselho vivamente a escuta de Sittin San, Whole Hit Bloomer e Slayered Slaughtered, três registos apelando a ambiências algo distintas, talvez marcando momentos diferentes mas, sobretudo, revelando alguma destreza e muita vontade de ultrapassar o comezinho ou a mais simples expectativa. Os Frango são uma banda de evolução procurando experimentar, no rock que nos foi deixado, uma linguagem de uma pessoalíssima - por vezes maravilhosamente catatonica - personalidade.
04. Animal Repetitivo
Um outro disco para se levar para casa tem de ser a compilação Animal Repetitivo, onde os Frango intervêm com «Walking in Plato», e onde se juntam nomes a reter como os Caveira (que embora tenham um nome que não me agrada levam o prémio de melhor título de faixa: «Cabrito a Nascer»), Debut, Phoebus, Lemur, Pcf Moya entre outros.
Ligada ao OutFest de 2005, Animal Repetitivo é uma compilação de qualidade acima da média, fazendo crer que a boa música em Portugal - no universo experimental de que falámos - não se limita à actuação já imperdível da Bor Land.
05. Pcf Moya
Se tiverem sorte, quando virem um concerto dos Frango calha-vos adquirir (com recurso a qualquer métodos) um outro belo cd-rom intitulado Untitled/God Slot Ep (edição da Merzbau), construído por Pcf Moya com intuito de criar uma inusitada peça de rarefacção manifestamente meditativa e suspensiva. Este disco contém algo de seca espiritualidade, como uma mecânica espiritual, feita de sons surdos e pelos quais nos é criada uma benigna ansiedade. A música deste disco comporta sobretudo o silêncio, onde nos encaixamos, e os sons se comportam como se estivessemos entre elementos tangentes, corpos, entre nós.
06. Sem Palavras
Falo de música sem palavras. A poesia dos Frango e de Pcf Moya está - até ver - longe das palavras.

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home