DELITO DE OPINIÃO

Um leitor, em tom desabrido: «Quem é esse senhor Knopfli e que história é essa do delito de opinião um ano depois do 25 de Abril [...].» Não vou perder tempo a explicar quem foi Rui Knopfli. O lugar central que ocupa na poesia portuguesa dispensa apresentações. Mas posso contar o que se passou. E o que se passou foi que o governo de transição de Moçambique — executivo de coligação FRELIMO-MFA, chefiado por Joaquim Chissano, que governou o país entre o Acordo de Lusaka, em Setembro de 1974, e a independência do país, em Junho de 1975 — não teve pejo em devolver às autoridades rodesianas um espião britânico que pedira asilo diplomático em Moçambique depois de, não se sabe como, ter fugido da prisão de alta segurança onde o regime de Ian Smith o encarcerara anos antes. Esse homem, de apelido Mackintosh, provável agente do MI5, foi preso e acusado de «espionagem industrial». O eufemismo radica, suponho eu, no bloqueio naval britânico ao porto moçambicano da Beira, que se mantinha desde Novembro de 1965, com vista ao embargo do pipeline petrolífero que abastecia a colónia secessionista. Portanto: preso, condenado e encarcerado. Um dia, em Janeiro de 1975, Mr. Mackintosh conseguiu fugir. Saiu da Rodésia do Sul (actual Zimbabwe) e entrou em Moçambique, onde se entregou às autoridades portuguesas na fronteira de Vila Manica. Alertado, o cônsul britânico na Beira, Stanley Duncan, confirmando tratar-se de um súbdito de Sua Majestade, pôs-se imediatamente a caminho da fronteira. Mas, quando lá chegou, Mr. Mackintosh tinha sido devolvido ao «regime racista» de Ian Smith. Parece que o trocaram por dois vagões de milho. Informado do sucedido pelo cônsul-geral britânico em Lourenço Marques, Rui Knopfli, então director do vespertino A Tribuna, publicou um editorial sob forma de carta aberta ao High Commissionner português, o almirante Vítor Crespo. Pergunta óbvia: qual o papel das autoridades portuguesas no imbróglio? O ministro da Informação estava «de baixa», mas, em seu nome, José Luís Cabaço exigiu retractação pública: «Tu tens que redigir uma desculpa» (cf. Michel Laban, Moçambique: Encontro com Escritores, II Vol., Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1998, p. 575). Rui Knopfli não se retractou e ao cabo de poucos dias foi intimado a deixar Moçambique. Já percebeu o que é um delito de opinião?

<< Home