THE WEST WING

Atenta a dimensão geográfica do país, os 300km que separam Lisboa do Porto equivalem à distância que vai de Nova Iorque a Los Angeles, de Curitiba a São Paulo, de Londres a Edimburgo, e por aí fora. Tudo realidades distintas. Em Washington D.C. ninguém recruta um porteiro mais longe que Georgetown, um subúrbio elegante da cidade. Entre nós, depois do 25 de Abril, foi criada a quota dos «ministros do Porto», personalidades respeitáveis que descem a Lisboa de segunda a sexta, mas passam na Invicta os fins-de-semana, as pontes, os feriados, as férias e as baixas. Com a provável excepção de Valente de Oliveira, que ocupou lugares eminentemente técnicos, a performance dos restantes tem sido decepcionante: a maioria cumpre o part time a execrar os mouros. Hoje, Cadilhe é uma «estrela», porque se tornou adversário de Cavaco. Mas, quando foi ministro das Finanças, era «um parolo» que não passava da porta do Frágil. Não está em causa a competência própria. Acontece que aos ministros se exige, mais do que competência técnica, competência política, a qual pressupõe conhecimento do meio. Ora, ninguém conhece o meio, qualquer meio, se não for parte dele. É por isso que, em todo o mundo, quem quer fazer carreira política, radica-se na capital do país (o poder local é outra realidade). Ninguém vai buscar ministros a Bragança ou a Tavira. Porque carga de água os vai buscar ao Porto? A vida política portuguesa, tal como a económica, a científica, a cultural, etc., está cheia de gente oriunda de Norte a Sul do país, a qual, em determinado momento das suas vidas, trocou a terra de origem por Lisboa. Muitos tornaram-se personalidades influentes, mas foi nos corredores de Lisboa que forjaram o seu espaço, dando o melhor de si. E se isto é verdade para pastas de perfil tecnocrático, o que dizer da Cultura, boião por excelência corrosivo? Infelizmente, o desempenho de Isabel Pires de Lima tem sido o paradigma dessa desadequação. Quando se soube que mandara vir do Reino Unido o seu secretário de Estado, um outsider como ela, temeu-se o pior. A vertigem dos últimos dias veio confirmar as piores expectativas. Adenda: esta carta aberta ao primeiro-ministro dá a medida do estado a que as coisas chegaram.
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