Domingo, Janeiro 29, 2006

COTERIES


O retrato que escolhi para ilustrar o post anterior não é inocente. No bar do Algonquin Hotel, de Nova Iorque, vemos Dorothy Parker, no dia 29 de Novembro de 1938, acompanhada de Frank Case, Fritz Foord, Wolcott Gibbs, Alan Cambell, St. Clair McKelway, Russell Maloney e James Thurber, reunidos por ocasião do lançamento de Tales of a Wayward Inn, de Case. Dorothy Parker, autora infelizmente arredia da edição nacional — que eu saiba, as edições de 1945 (Atlântida) e 1994 (Vega) de Here Lies (1939) são tudo quanto há dela em Portugal —, fundou com Alexander Woollcott a famosa Round Table, coterie que em pouco tempo se fez árbitro do gosto literário e artístico do seu tempo. Vem isto a propósito do debate que para aí vai sobre coteries. Dei como exemplo alusivo a Round Table como podia ter dado qualquer outro. Todas as épocas têm as suas coteries e não vem daí mal ao mundo. As coteries passam. À sociologia da literatura compete explicar os mecanismos e fazer o inventário. Ver as coteries à luz do lado negro não leva a lado nenhum. Embora eu tenha muitas dúvidas acerca da existência, hoje, em Portugal, de verdadeiras coteries. E ainda mais da sua putativa eficácia. Sem prejuízo da doutrina estabelecida por um famoso cronista acerca das fixações do crítico. Uma coisa são coteries, reais ou virtuais, outra bem diferente o branqueamento do nepotismo. Porque o nepotismo existe. E faz gala em. Mas isso é outro assunto. Num país com o tamanho do nosso, e dez milhões de habitantes, toda a gente conhece toda a gente. Se, por hipótese, os jornais e as revistas portuguesas adoptassem como suas as normas estritas dos jornais e das revistas americanas, que impedem os críticos de escrever sobre livros de amigos e conhecidos, e nunca é demais lembrar este esclarecedor episódio — com o travo picante de ter sido relatado onde foi —, se, como eu dizia, fôssemos coagidos por tais regras, não havia quem pudesse assinar recensão crítica. O problema não está em escrever sobre amigos e conhecidos, mas na eventual troca de galhardetes, infelizmente comum em certas moradas. Se a recensão for isenta, ninguém pode acusar o crítico de favoritismo. Em mais de dezoito anos de actividade crítica regular (na Colóquio-Letras, na LER, no DNA, no Ciberkiosk, no Mil Folhas, etc.), frequentes vezes levantei objecções a livros de amigos, circunstância que afastou dois ou três; enquanto, do mesmo passo, nunca regateei elogios a livros de autores acerca dos quais, enquanto pessoas, tenho as maiores reservas. Mas quando os livros valem por si, a pessoa do autor é irrelevante. Como parte considerável (cerca de um terço) dessa actividade está coligida em volume, o cotejo é fácil. Aqui no blogue, por exemplo, nenhum de nós escreveu sobre livros uns dos outros. Eu nunca o faria. Aliás, vejo-me frequentemente acusado de «agressividade» e falta de complacência, umas vezes porque são velhos e merecem «respeito», outras porque são novos e estão agora a começar. Et pour cause...

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