VOZES DA POESIA EUROPEIA

Sem o aparato gráfico dos números anteriores, a que o puritanismo indígena chama «luxo asiático», acabam de ser publicados, em simultâneo, os n.ºs 163, 164 e 165 da Colóquio/Letras, os quais, no seu conjunto, cobrem o ano de 2003. Desta feita, a revista não insere as habituais secções de ensaio, notas & comentários, recensão crítica, poesia, ficção, etc. O seu conteúdo esgota-se nas traduções de David Mourão-Ferreira. Vozes da Poesia Europeia lhe chamou Joana Morais Varela. Os mais velhos lembram-se com certeza do programa Imagens da Poesia Europeia, que passou na RTP entre 1969 e 1974. Grande parte dos poemas divulgados nesse programa foram impressos em fascículos da Artis, e depois (em 1972) coligidos no volume que à Grécia, a Roma e aos Séculos Obscuros respeita. Interrompida tal publicação, e assim votados ao limbo dos dispersos, urgia reunir e formatar essa colecção de poemas que chegava à língua portuguesa. Foi o que fez Joana Morais Varela, rodeando-se de uma equipa de especialistas: Teresa Martins Marques, que organizou o espólio e carreou novos elementos; bem como Frederico Lourenço, Paulo Farmhouse Alberto, Adalberto Alves, Ana Paiva de Morais, Pedro Serra, Roberto Vecchi, António M. Feijó, João Barrento e Gonçalo Vilas-Boas, a quem se deve a indexação das traduções aos originais, nos domínios grego, latino, arábico-andaluz, francês, espanhol, italiano, inglês, alemão, sueco e norueguês, respectivamente. Na nota de apresentação (não assinada), diz a directora da Colóquio: «A organização destes três números tenta satisfazer dois desideratos: o de revelar o trabalho de David em quase toda a sua extensão — de forma a realçar a sua faceta de divulgador — e o de dar ao leitor a possibilidade, até onde nos tenham sido facultadas indicações, de ‘montar’ o livro de traduções que David tinha em mente e só em parte delineou.» Assim, o n.º 163 (246 pp) reúne a totalidade dos poemas que constam do volume da Artis, e outros do mesmo período que David deixara prontos para publicação; o n.º 164 (258 pp) as traduções impressas nos fascículos seguintes, e outras publicadas avulsamente em jornais e livros, como acontece com os poemas de Guillevic que a Ulisseia editou em 1965, aqui republicados e aumentados; e o n.º 165 (246 pp) os manuscritos e dactiloscritos de origem vária (por ex., o programa radiofónico Música e Poesia) que foram agrupados autonomamente. Todos os poemas são apresentados sem texto de apoio. As minuciosas referências bibliográficas constam de um apêndice, a que se segue uma bibliografia exaustiva. Só não há é textos no original. David privilegiou a poesia satírica romana, a poesia latina medieval (em particular a dos Goliardos), Miguel Ângelo, John Donne, os barrocos, Blake, italianos como Saba, Montale ou Penna, sem esquecer Homero, Virgílio, Petrónio, al-Mu’tamid, Marbeuf, Racine, Garcilaso, Llull, Petrarca, Ariosto, Chaucer, Goethe, Baudelaire, Mallarmé, Claudel, Valéry, Apollinaire, Larbaud, Cocteau, Senghor, d’Annunzio, Pavese, Rilke, Joyce, Eliot, Auden, Spender, Pasternak e outros. Acrescentar o quê? O óbvio prazer do texto? Seja. Dizer ainda que a edição contou com a revisão atenta de Gustavo Rubim e Luis Manuel Gaspar. As ilustrações são de Nuno Viegas.
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