domingo, outubro 09, 2005

O valor da literatura

Regresso ao ensaio de Silvina Rodrigues Lopes a que me referi anteriormente. Falo de «A Volta do Mar», incluído no primeiro número da revista Intervalo. É uma questão de justiça voltar a este texto, pois limitei­‑me, então, a escrever que se tratava de uma reflexão estimulante, o que é realmente pouco perante o que está aqui em causa. O título, que funciona como uma imagem da ideia central defendida pela autora, começa por surpreender o leitor, que só à terceira página encontra a sua justificação, condensada num único parágrafo. Trata­‑se da designação de um movimento executado pelos marinheiros portugueses no século XV, que, confrontados com o problema dos ventos contrários à navegação pretendida, arriscaram uma manobra destituída de quaisquer garantias, mas que acabaria por se revelar ajustada aos seus intentos. O que Silvina Rodrigues Lopes retira daqui é o «não­‑determinismo desse gesto, que está implicado em qualquer início», ou seja, é a capacidade de assumir um risco na convicção de que só assim se poderá alcançar algo mais do que se tem à partida. A aplicação desta imagem ao pensamento humano leva­‑nos a perceber como ele se pode entregar a uma circulação verdadeiramente livre, sem trajecto definido, e transformar­‑se, assim, numa autêntica «força de errância» (p. 63).
A questão central é, portanto, a da resistência à aceleração, vista como uma ameaça à construção de um verdadeiro pensamento, que apenas pode irromper no interior de um tempo que permite o aprofundamento das ideias. De igual forma, o verdadeiro pensamento é aquele que recusa a cartografia orientadora, pois esta apenas procura reconduzi­‑lo ao caminho onde tudo é infinitamente igual e de onde toda a possibilidade de conhecimento permanece afastada. Silvina Rodrigues Lopes lembra­‑nos «a facilidade com que hoje se impõe uma quantidade de visões e de particularidades culturais que podem até apresentar­‑se como negação daquilo que as alimenta (o mercado)», mas salienta que elas se situam «num tempo da comunicação e da informação, que impõe um denominador comum àquilo que faz circular: ausência de atrito, de resistência» (p. 63).
A literatura, ou, mais genericamente, a arte, como produtora de atrito, como a mais importante actividade humana capaz de criar alguma resistência ao fluxo contínuo do nosso tempo, é um dos temas caros à autora. Ele sustenta­‑se numa visão da arte como um acto cuja coerência escapa, em parte, ao seu responsável civil. O artista é, então, aquele que não controla por completo os seus materiais ou, pelo menos, que não pode conhecer com exacto rigor a lógica estruturante das suas produções. É nessa dimensão do aleatório que pode irromper a transgressão e, consequentemente, a liberdade que deve ser sempre um propósito maior de qualquer obra de arte. Aqui se constitui a célebre autonomia da arte, que, para Silvina Rodrigues Lopes, encarada «no sentido de subtracção à ordem da lei», permite que a criação seja «força alterante», atravesse «fronteiras, a começar pelas que a institucionalização — ou o gosto, que é sinónimo desta — lhe traça», e dê origem a «um pensamento do valor assente na concepção de uma multiplicidade de interferências e consequente não subordinação a juízos decorrentes de um padrão comum (valores universais) ou específico (valores artísticos, regras próprias)» (p. 65).
A subsequente invocação de Nietzsche como criador de Zaratustra é um passo coerente nessa atitude radical de recusa do espírito de rebanho. Se é pela diferença que se pode avançar em termos de conhecimento, decorre daí que a lógica do consenso é fundamentalmente conservadora, dado que se sustenta numa vontade de manter as coisas tal como estão, ou seja, no estado de imutabilidade mais acentuado possível. As forças conservadoras sabem que a organização opressora do sistema instituído é posta em causa pelo impulso criador, se este for lido como aquele que abandona ou rejeita as demarcações do poder e engendra, nas palavras de Silvina Rodrigues Lopes, «novos modos de relação, novas sensações e percepções, com as quais se constroem novas formas, se estabelecem outras conexões, se vai alterando, mesmo que minimamente, o mundo» (p. 68). O advérbio surge aqui para evitar qualquer tipo de entusiasmo injustificado, que não seria mais do que uma armadilha do sistema, sempre pronto a integrar, com requintada perversidade, aquilo que, ao surgir, afirma ser a sua negação. O campo conflitual deve, então, impor­‑se logo na relação do artista com a obra, pois talvez a impossibilidade de a reduzir ao que, por falta de melhor palavra, designarei como o espírito do autor seja a única forma de escapar à bulimia de um mundo que tudo quer digerir. A concretizar­‑se este pesadelo, estaríamos inseridos num universo sem exterior, sem hipótese de contradição, de onde o pensamento se veria totalmente ausente. A necessidade de a literatura, ou a arte, se afirmar como resistência ou atrito à velocidade do nosso tempo é, por isso, o reconhecimento categórico da sua dimensão política, sem que esta possa, no entanto, sobrepor­‑se à dimensão estética, até porque a primeira apenas resulta da segunda. O valor da literatura, e da arte, é, assim, posto em evidência, o qual, segundo Silvina Rodrigues Lopes, «está (ou também está) em ensinar­‑nos a não ser niilistas, isto é, a não ser conservadores diante da injustiça» (p. 76).