PACHECADA

Diário Remendado 1971-1975 (Dom Quixote) tem um alto teor de corrosão. De Luiz Pacheco não era de esperar outra coisa. João Pedro George fixou o texto e acrescentou um posfácio: «A transcrição foi realizada, na grande maioria dos casos, a partir não do original manuscrito mas de fotocópias de uma versão dactilografada ainda na década de 1970.» São fragmentos de um diário mais vasto, sujeitos ao crivo do autor. Há nota biobibliográfica. Num país menos engravatado, o livro seria vendido com cinta amarelo-vivo e frase com letras azul-forte: HIPOCONDRIA, BROCHES & LITERATURA. Com efeito. Um pouco de sorte, e nenhum recenseador o acusará de fazer alarde de calotes. A vida, portanto. Tal como ela foi:
1974, 24 de Outubro. «Desde o 25 de Abril, como já se calculava, foi a grande correria à promoção, aos tachos — e continua, cada vez mais agreste e escancarada. […] 27 de Outubro. Felicito-me por ter estado tão caladinho, lendo e ouvindo tanta parvoíce à minha volta. […] Eles e elas aí estão muito contentinhos (nanja eu que os contrarie, inda que seja preguiçoso, traiçoeira esperteza, calar-me a tudo) a espanejarem-se com os corninhos ao sol. É a Natália (crónicas vagantes mui reaças n’A Capital, fora montões de livros anunciados); é o Cesariny a fazer de Vera Lagoa, em bisbilhotices por um festival de poesia em Roterdão; é o O’Neill a pensar que tem graça e é moralista na chalaça (que perdigotos de trampa — e qualquer dia tudo reunido em volume); é o Urbano, é o Portelinha Filho. Nisso o Pires é mais cauteloso: não publica uma linha estando agora à frente do Diário de Lisboa. E o Davide, nicles, director d’A Capital; faz, por interposta pessoa, ou ele mesmo, a propaganda do paizinho, que era e é um bom sacripanta.»
1974, 24 de Outubro. «Desde o 25 de Abril, como já se calculava, foi a grande correria à promoção, aos tachos — e continua, cada vez mais agreste e escancarada. […] 27 de Outubro. Felicito-me por ter estado tão caladinho, lendo e ouvindo tanta parvoíce à minha volta. […] Eles e elas aí estão muito contentinhos (nanja eu que os contrarie, inda que seja preguiçoso, traiçoeira esperteza, calar-me a tudo) a espanejarem-se com os corninhos ao sol. É a Natália (crónicas vagantes mui reaças n’A Capital, fora montões de livros anunciados); é o Cesariny a fazer de Vera Lagoa, em bisbilhotices por um festival de poesia em Roterdão; é o O’Neill a pensar que tem graça e é moralista na chalaça (que perdigotos de trampa — e qualquer dia tudo reunido em volume); é o Urbano, é o Portelinha Filho. Nisso o Pires é mais cauteloso: não publica uma linha estando agora à frente do Diário de Lisboa. E o Davide, nicles, director d’A Capital; faz, por interposta pessoa, ou ele mesmo, a propaganda do paizinho, que era e é um bom sacripanta.»
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