DIÁRIOS

Vi hoje, pela primeira vez, o Diário Remendado 1971-1975 de Luiz Pacheco, texto fixado e posfaciado por João Pedro George. Vou ler. Na primeira oportunidade comento. Na fila, a aguardar vez de pagar (a pulsão do Sudoku entope as livrarias), penso na relativa pobreza da nossa diarística. É um facto, os escritores portugueses não têm por hábito escrever diários. No século XX, que me lembre, as excepções foram Manuel Laranjeira, Florbela Espanca, Irene Lisboa, José Gomes Ferreira, José Régio, Miguel Torga, Sebastião da Gama, Vergílio Ferreira, Ruben A., Mário Sacramento, Jorge de Sena, José Saramago, Maria Gabriela Llansol e Marcello Duarte Mathias. Dito assim, parece muito. Infelizmente não é, porque, exceptuando Torga e Vergílio Ferreira, autores de diários de largo fôlego, e de certo modo também Ruben A. e Saramago, com meia dúzia de volumes cada, o restante são fogachos, sem prejuízo da qualidade literária ou introspectiva de alguns. Um diário é sobretudo minúcia. Tudo seria diferente se houvesse diários de Teixeira de Pascoaes, Aquilino Ribeiro, Fernando Pessoa — O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, pode ser entendido como diário, sim senhor, mas diário mental —, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, António Ferro, António Botto, Vitorino Nemésio, João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Joaquim Paço d’Arcos, José Blanc de Portugal, Ruy Cinatti, Óscar Lopes, Sophia de Mello Breyner Andresen, Natércia Freire, Carlos de Oliveira, Agustina Bessa Luís, Eugénio de Andrade, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues, Mário Cesariny, António Manuel Couto Viana, Alexandre O’Neill, Bernardo Santareno, José Cardoso Pires, Fernanda Botelho, Luís de Sttau Monteiro, António Alçada Baptista, David Mourão-Ferreira, Alberto de Lacerda, Herberto Helder, Rui Knopfli, Ruy Belo, Helder Macedo, M. S. Lourenço, Fernando Assis Pacheco, Maria Teresa Horta, Ary dos Santos, Armando Silva Carvalho, Maria Velho da Costa, Luísa Neto Jorge, Vasco Graça Moura, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Eduardo Prado Coelho, Joaquim Manuel Magalhães, Eduarda Dionísio, Al Berto, Nuno Júdice, Luís Miguel Nava, etc. A história literária não dispensa testemunhos na primeira pessoa. Mas o país é pequeno, e a cáfila espreita. Páginas avulsas dos diários de Eugénio Lisboa, José Augusto Seabra e Almeida Faria, disseminadas em publicações conspícuas, dão conta da parcimónia. No tocante a volumes de memórias ou relatos explicitamente autobiográficos — como, por exemplo, os de Fernanda de Castro, José Augusto França e Luiz Francisco Rebello —, a escassez é de rigueur. Decididamente, não temos a vocação dos Gide, Renard, Larbaud, Gombrowicz, Kafka, Musil, Pavese, Kierkegaard, Stendhal, Amiel, Michelet, Hugo, Artaud, Mauriac, Valéry e outros (dispenso-me de citar ingleses e americanos: são muitos, são muito bons, qualquer escolha seria redutora). Por conta de todos, Virginia Woolf. E, claro, Beckford, que deixou dos portugueses um retrato pouco amável. A rapariga à minha frente vai-se embora com três cadernos de Sudoku. Chegou a minha vez. Onde é que eu ia?
Etiquetas: AAA

<< Home