CAMPUS NOVEL

O livro saiu faz precisamente agora um ano, mas só o li esta semana. Falo de O Professor Sentado (2004) de Carlos Ceia. Os apreciadores de campus novel são, à partida, destinatários ideais. Desiludam-se porém os leitores de Lodge, Bradbury e Amis. O millieu académico português tem pontos de contacto com a realidade descrita por esses autores, mas não é enquadrável em cenário inglês ou americano. Dentro do género, as obras paradigmáticas são ambas de 1975: Changing Places, de David Lodge; e The History Man, de Malcolm Bradbury (em 1983, com Rates of Exchange, Bradbury não deixa pedra sobre pedra em matéria de conceitos estruturalistas). Mais antigo, Lucky Jim (1954) de Kingsley Amis é outro bom exemplo. A diferença entre O Professor Sentado e os seus congéneres de língua inglesa releva da tacanhez original. Dito isto, vamos ao livro de Ceia. De acordo com nota de contracapa, trata-se de um «romance sobre o mundo académico português de hoje, passado na Faculdade de Artes e Letras da Universidade Imperial de Lisboa, lugares fictícios com práticas e personagens muito reais.» Entre outro tipo de insert, tais como entrevistas ao autor, intertextos de vária índole, e até uma recensão ao texto a fazer-se, O Professor Sentado inclui um dicionário de personagens. Estão lá: Agustina, Alexandre Pinheiro Torres, Mário de Carvalho e Onésimo Teotónio de Almeida; mas também Augusto Chagas, professor associado de teoria da literatura e «personagem central desta narrativa»; Pedro Guerrinha, jornalista e crítico do «mais importante jornal semanário do país, O Mensageiro»; Magda Vimioso, «jovem escritora de grande aceitação nacional»; a professora Sandra Bataille, «importadora oficial de todas as pós-modernices [e] especialista mundial sobre o discurso ontológico da moda»; o Dr. Rodrigo Lázaro, «docente convidado de literatura inglesa, homossexual, odiado por todos os colegas, amado por muitas alunas»; Miguel de Vide, «professor de português do ensino secundário, numa escola para os lados de Benfica; Eugénio Porto, «crítico literário profissional [...] recordista mundial de citações por minuto e por página»; etc. Alguns são óbvios para o leitor comum, outros obscuros para não-iniciados. O registo do plot oscila entre Kristeva e Dinis Machado. Uma mistura de sexo & sacanices. Llansol, Maria Velho da Costa, Maria Alzira Seixo e Rita Ferro (entre outros) são citadas ao longo do texto. Harold Bloom idem. Abundantes notas ao texto em dois terços das 197 páginas do volume. Autor de vasta bibliografia ensaística, Carlos Ceia (n. 1961) é doutor em Hispanic Studies pela Universidade de Cardiff, e professor associado, com agregação, do Departamento de Estudos Anglo-Portugueses da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem no prelo um livro de poesia.
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