Poesia e fisiologia
À questão sobre a existência de uma poética do feio, tem respondido a obra de José Emílio‑Nelson ao longo dos últimos 25 anos. Estreado em 1979, com Polifonia, este autor viu a sua poesia ser agora reunida num único volume, editado pela Quasi, no final do ano passado. O livro, que se intitula A Alegria do Mal: Obra Poética I 1979-2004 e conta com uma introdução de Luís Adriano Carlos, permite ao leitor a circulação pela totalidade de uma obra cujo conhecimento é indispensável para se desenhar uma panorâmica completa da poesia das últimas décadas. Desde o início dos anos 80, quando publicou Penis, Penis, até à entrada no século XXI, com títulos como Humoresca ou Arabesco, que José Emílio‑Nelson persiste em construir arte com a expressão intensa da fealdade, para tal utilizando imagens disformes, grotescas ou mesmo escatológicas. Veja‑se este exemplo, retirado do início de Humoresca: «Contra os touros de morte todos estamos uma vez na vida / Quando nos visita o anjinho de hissope a espargir. / Contra o boxe, mas porquê? Animal para animal. Duros golpes. / E contra o parir? Haverá alguém, entre nós, que não glorifique as dores / Infectas? Dor acastanhada, cinzenta, doirada, rubra? / (Quer dizer, fezes, urina, etc.)» (p. 223).
No seu notável texto de apresentação, adequadamente intitulado «Fisiologia do Gosto Literário», Luís Adriano Carlos radica o poeta numa linhagem de pendor grotesco‑satírico, que conta com autores como Aristófanes, Petrónio, os trovadores medievais, Villon, Rabelais ou Quevedo, mas que apresenta igualmente ramificações no domínio da pintura, passando por Bosch, Mantegna, Brueghel ou Caravaggio. Comum a todos eles, segundo o ensaísta, é a relativização da «suposta razão universal que priva de valor artístico toda a representação que atente contra a natureza ideal e os bons costumes» (p. 13). Se a fealdade agride, isso significa que a sua exposição é imprevista e perturbadora, mas à sua ocultação não corresponde a sua inexistência. Por isso, expô‑la é distender o conhecimento do mundo, ou melhor, é revelar a vida na sua mais vasta extensão e, em definitivo, recusar a sua apresentação como a imagem pálida e delicada que tantas vezes nos querem impor. Nessa óptica, esta colectânea e este ensaio são fundamentais peças de resistência conta a insipidez estética.
No seu notável texto de apresentação, adequadamente intitulado «Fisiologia do Gosto Literário», Luís Adriano Carlos radica o poeta numa linhagem de pendor grotesco‑satírico, que conta com autores como Aristófanes, Petrónio, os trovadores medievais, Villon, Rabelais ou Quevedo, mas que apresenta igualmente ramificações no domínio da pintura, passando por Bosch, Mantegna, Brueghel ou Caravaggio. Comum a todos eles, segundo o ensaísta, é a relativização da «suposta razão universal que priva de valor artístico toda a representação que atente contra a natureza ideal e os bons costumes» (p. 13). Se a fealdade agride, isso significa que a sua exposição é imprevista e perturbadora, mas à sua ocultação não corresponde a sua inexistência. Por isso, expô‑la é distender o conhecimento do mundo, ou melhor, é revelar a vida na sua mais vasta extensão e, em definitivo, recusar a sua apresentação como a imagem pálida e delicada que tantas vezes nos querem impor. Nessa óptica, esta colectânea e este ensaio são fundamentais peças de resistência conta a insipidez estética.

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